Personalidades do nosso mundo

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Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Lancelot » 16 Fev 2010, 12:23

Aqui de uma forma ou de outra prestemos homenagem ás personalidades deste mundo.

Como estamos na quadra do Carnaval a primeira é Francisca Edwiges Neves Gonzaga mais conhecida por Chiquinha Gonzaga

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Ser mulher, em finais do século XIX, jovem, bonita, filha bastarda de um militar de alta patente, deixar para trás maridos e filhos, escandalizar uma sociedade cheia de preconceitos, ter amores passageiros e dedicar-se à música era, no mínimo, pouco vulgar numa sociedade patriarcal de finais do do século XIX.
É a história de Francisca Gonzaga, considerada a primeira compositora de música popular para o Carnaval brasileiro.

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Foi durante muitos anos a compositora com mais sucessos musicais no Carnaval brasileiro.
Há mais de um século, em 1899, compôs um sucesso retumbante a marcha
‘Ô, Abre Alas’.
[BBvideo 425,350]http://www.youtube.com/watch?v=7eCrMNfIvfE[/BBvideo]
A vida de Francisca Gonzaga está salpicada de romances, aventura e desventura, muita criatividade, alguns escândalos pelo seu comportamento social, e muita, muita música.
O seu nome completo era Francisca Edwiges Gonzaga, nasceu no Rio de Janeiro quando ainda governava o Brasil o imperador D. Pedro II.
Filha de um militar que ascenderia a chefe de gabinete de um ministro de nome José Basileu Neves Gonzaga - e de uma mulata solteira, Chiquinha, apesar de filha bastarda, foi educada pela família do pai e, como qualquer menina da sociedade, brincou com bonecas, aprendeu a tocar piano, com o maestro Lobo e teve aulas com o cónego Trindade, que lhe ensinou as muitas disciplinas que se ministravam na época e que, mais tarde, serviriam a esta brasileira endiabrada para sobreviver, quando a adversidade lhe bateu à porta.
Assim, até aos 12 anos, Chiquinha Gonzaga estudou Latim, Português, Francês.
História, Geografia e Matemática, mas nos seus tempos livres, escapando aos olhares dos familiares mais exigentes, deixou-se fascinar pela música africana dos escravos da casa, música dolente, ritmada, que lhe corria nas veias pelo lado da mãe.
Muito cedo começou a compor músicas para piano.
Aos 11 anos escreveu ‘Canção dos Pastores”.
Como acontece nos países tropicais, o pai quis casá-la bem cedo.
E assim, aos 13 anos, Francisca Edwiges Gonzaga contrai, contrariada, casamento com um Jacinto Ribeiro do Amaral, de 26 anos, oficial de marinha mercante e armador.
Para o pai de Chiquinha era um bom partido, mas para ela a vida de casada foi uma triste experiência.
O marido, machista como era uso na época, obrigava-a a viajar com ele no navio, obrigando-a a passar dias inteiros retida no camarote, para não conviver com eventuais elementos do sexo masculino que se encontrassem por perto.
Acrescia que detestava que a mulher tocasse piano.
As discussões multiplicavam-se e Chiquinha, que entretanto ia sendo mãe – teve cinco filhos – vê o marido vender o piano.
O desgosto é imenso, mas a lutadora Chiquinha compra um violão, para colmatar a sua necessidade de tocar.
O casamento ia de mal a pior.
Chiquinha “dá o seu grito do lpiranga” e, numa das viagens, as desavenças entre o casal sobem de tom e Chiquinha pega nos filhos e parte para o Rio de Janeiro.
Resumindo abandona o lar.
Primeiro escândalo.
Cai a vergonha na família. Solidariedade foi algo que Chiquinha não teve, neste período difícil da sua vida, mas sem qualquer experiência da vida apaixona-se e virá a casar com um engenheiro que apreciava música e que construía estradas, volta o calvário.
Este leva-a para lugares inóspitos onde ela vive isolada, nas piores condições, em barracas de campanha e rodeada de pó e trabalhadores.
Francamente a sorte parecia não a bafejar, mas passa adiante, sem olhar para trás.
Mas a música e a sensualidade de Chiquinha, que apesar de baixa estatura era considerada bonita, olhos escuros, uma cabeleira negra levemente ondulada, acabam por encantar o flautista Joaquim da Silva Calado que lhe mostra o mundo da boémia carioca.
Parecia que a música os iria unir por muito tempo, mas Chiquinha parte novamente, outra paixão entra no seu coração, e então dá-se a ruptura com a família de origem.
Não querem saber daquela “degenerada”.
Ela era apontada como uma “marginal”.
Até teve o desplante de ser a primeira menina filha de família abastada a usar lenço na cabeça, em vez de chapéu, como as outras meninas finas.
É então que Chiquinha percebe que agora tem de ganhar a vida sozinha.
Deixa para trás a música erudita que aprendera e começa a compor canções populares.
Para poder viver dá explicações de tudo o que sabe, desde piano a geografia e passa a tocar em festas.
O filho mais velho, João Gualberto, com 15 anos, também toca.
Sempre são mais uns cobres que se ganham
Em 1877 a compositora brasileira publica a 1ª polca com o título Atraente. Uma das edições desta composição teve capa da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro.
Entretanto o pai sobe a chefe de gabinete do Ministro da Guerra e tudo faz para que a filha não venda músicas, assinando com o apelido Gonzaga.
Nada de beliscaduras na sua reputação.
Mas “como os cães ladram e a caravana passa’ a filha do general continua a sua vida de compositora.
O teatro musicado estava muito na moda é aí que a compositora brasileira vai apostar.
Compõe praticamente todo o tipo de músicas: polcas, tangos, lundus, valsas, maxixes, fados, quadrilhas, gavotas, barcarolas, mazurcas, habaneras, choros e serenatas (só não compôs música de jazz porque essa música nasceu no mesmo continente, mas mais a Norte).
O sucesso começa a surgir.
Ela foi a primeira maestrina a dirigir uma orquestra e foi ainda mais longe pois chegou a dirigir a banda da Polícia Militar.
Mas a música não era a sua única ocupação, como mulher de forte sentido cívico e nacionalista vai apoiar os movimentos abolicionistas e os movimentos pró-republicanos.

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CRONOLOGIA
1847 Nasce Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a 17 de outubro, primeira filha do tenente José Basileu Neves Gonzaga e Rosa Maria de Lima, na Freguesia de Santana, Rio de Janeiro, Município da Corte.
1850 Abolição do tráfico de escravos.
1858 Compõe sua primeira música aos onze anos de idade para festa de Natal. A família mora à Rua do Príncipe (atual Senador Pompeu).
1863 Casa-se, aos 16 anos de idade, em 5 de novembro, com Jacinto Ribeiro do Amaral, 24 anos, comandante da Marinha Mercante, em cerimônia na Igreja de Santana, tendo como padrinho o Ministro da Guerra, o Marquês de Caxias, parente e protetor de José Basileu.
1864 Tem início a Guerra do Paraguai.
Torna-se mãe. Nasce João Gualberto, a 12 de julho.
1865 Jacinto freta o navio São Paulo ao governo. Nasce sua filha Maria, em 12 de novembro.
1866 Embarca, compulsoriamente, no navio São Paulo, que transporta uma parte do II Corpo do Exército para a guerra. Decide abandonar o marido. Descobre-se grávida, espera o nascimento de Hilário, seu terceiro e último filho com Jacinto, e abandona a família.
1869 É homenageada pelo compositor Joaquim Antônio da Silva Callado Junior (1848-1880) com a polca Querida por todos. Passa a viver com o engenheiro de estradas de ferro João Batista de Carvalho (1844 -1918) em acampamentos de obras na Serra da Mantiqueira.
1870 Término da Guerra da Paraguai. Intensifica-se a campanha pela libertação dos escravos.
1871 Lei do Ventre Livre.
1876 Nasce Alice, sua filha com João Batista de Carvalho, abandonada logo depois.
1877 De volta ao Rio de Janeiro, acompanhada apenas do filho João Gualberto, leciona piano e torna-se pianeira do conjunto de Callado. Em roda de choro na casa do compositor Henrique Alves de Mesquita compõe de improviso a polca Atraente, sucesso imediato que lhe confere incômoda fama.
1879 Começa a instrumentar, com autodidatismo. Prepara-se para ingressar no promissor mercado do teatro musicado.
1880 Morre Callado, em março.
1883 Tenta musicar o libreto Viagem ao Parnaso de Artur Azevedo. Os empresários recusam a partitura pelo fato de ser assinada por uma mulher.
1885 Estréia como maestrina a 17 de janeiro com a peça A Corte na Roça, no Teatro Príncipe Imperial, na Praça Tiradentes (mais tarde Cine-Teatro São José, hoje demolido). Lei dos Sexagenários.
1888 É extinta a escravidão no Brasil em 13 de maio.
1889 Rege orquestra de violões em homenagem a Carlos Gomes no palco do Imperial Teatro S. Pedro de Alcântara (atual João Caetano). Para a ocasião o teatro é ricamente iluminado a luz elétrica. A República é proclamada a 15 de novembro.
1891 É votada a primeira Constituição Republicana. Eleição de Deodoro da Fonseca para presidente. Morre seu pai, o marechal de campo reformado José Basileu Neves Gonzaga.Com a renúncia de Deodoro, assume o poder o vice-presidente Floriano Peixoto.
1893 Eclode a Revolta da Armada.
1896 Morre Rosa Maria de Lima Gonzaga, sua mãe. Morre o maestro Carlos Gomes.
1899 Compõe a marcha Ó Abre Alas, inspirada no cordão Rosa de Ouro. Conhece João Batista Fernandes Lage (1883-1961), jovem português de 16 anos de idade, com quem passa a viver.
1902 Viaja pela primeira vez à Europa.
1904 Segunda viagem à Europa.
1906 Terceira viagem. Instala-se em Lisboa.
1909 Retorna ao Brasil.
1911 Inicia intensa atividade musicando peças teatrais para os espetáculos por sessões dos cine-teatros da Praça Tiradentes.
1912 Estréia da burleta de costumes cariocas Forrobodó, seu maior sucesso teatral.
1913 Deflagra a campanha pela defesa do direito autoral de compositores e teatrólogos.
1914 Seu tango Corta-Jaca penetra pioneiramente nos salões elegantes: é executado ao violão pela primeira-dama do país, Dona Nair de Teffé, em recepção no Palácio do Catete.
1917 Lidera a fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), entidade pioneira na proteção e arrecadação dos direitos autorais no país.
1919 É encenada a peça de costumes regionais Juriti, o maior êxito no gênero, projetando o jovem ator Procópio Ferreira, no palco do Teatro São Pedro, atual Teatro João Caetano.
1925 No seu aniversário recebe homenagem consagradora da SBAT e manifestações de reconhecimento do país inteiro, ocasião em que inaugura retrato na galeria dos autores da entidade .
1933 Seu filho João Gualberto falece em São Paulo. Aos 85 anos de idade escreve a última partitura, Maria.
1934 Sua filha Maria morre no Rio de Janeiro.
1935 Morre no dia 28 de fevereiro em seu apartamento na Praça Tiradentes, palco de sua glória.

Títulos das musicas
1. A Brasileira
2. Amor No Coração
3. Araripe da Chiquinha
4. Atraente
5. Baião Granfino
6. Benzinho
7. Coração Mole
8. Dois Corações
9. Fama de Valente
10. Filha de Januario
11. Fogueira de Sao Joao
12. Granjeiro
13. Ingratidão
14. Jeito Pra Tudo
15. Lua Branca
16. Machuca
17. Maxixe da Zeferina
18. Mineirinho
19. Minha Infância
20. Nação Dos Cariris
21. No Balanço
22. Ô Abre Alas
23. O Que Passou, Passou
24. Ponde Tu Vai, Luiz?
25. Quero Ver Você Voltar
26. Ranchinho de Paia
27. Riacho do Navio
28. Roseirinha
29. Sá Mariquinha
30. Sabino
31. Tacacá
32. Tem Dó
33. Tirar da Solidão
34. Tirar Lili
35. Vamos Embora
36. Velho Novo Exu

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A Brasileira
Chiquinha Gonzaga
Composição: Chiquinha Gonzaga e José Sena

Eu adoro uma morena sacudida
De olhos negros e faces cor de jambo
Lábios rubros, cabelos de azeviche
Que me mata, me enfeitiça, põe-me bambo
A cintura, Meu Deus, é delicada
O seu porte é faceiro e bem decente
As mãozinhas são enfeites, são berloques
Que fazem enlouquecer a toda gente

Ai morena a quem amo, a quem adoro
Não me sai um só momento da idéia
É faceira, dengosa e muito chique
Tem um pé... que beleza, que tetéia!

Há segredos, quem diz, naquele corpo
Tremeliques, desmaios, sensações
Que nos põe a cabeça andar à roda
Sonhando com delícias, com paixões
Seus dentes são marfim de alto preço
Sua boca um cofre perfumado
O resto do corpinho uma delícia
O melhor é não dizer, ficar calado

Ai morena a quem amo, a quem adoro
Não me sai um só momento da idéia
É faceira, dengosa e muito chique
Tem um pé... que beleza, que tetéia!
[BBvideo 425,350]http://www.youtube.com/watch?v=_6ameIYuCwY[/BBvideo]
"O mal de muita gente não é a falta de ideias, mas um excesso de confiança nas poucas que tem"

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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Xevious » 16 Fev 2010, 14:08

Fiquei curioso em saber oq ela fez nos 3 anos que morou em Portugal
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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Lancelot » 16 Fev 2010, 14:44

Xevious escreveu:Fiquei curioso em saber oq ela fez nos 3 anos que morou em Portugal


Nos anos que se seguem à união do casal, eles realizam três viagens à Europa.
Na última, em 1906, permanecem em Portugal por quase três anos.
Ela alega cansaço, mas é provável que queira se livrar de problemas que a atormentam no Rio. :thumbup:
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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Lancelot » 17 Fev 2010, 17:34

JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER
"O TIRADENTES"

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Lutador pela independência do Brasil: 1746-1792

Nasce por volta de 1746, em Pombal, distrito de S. José d'el-Rei.
Os pais são Domingos da Silva Santos (português) e Maria Antónia da Encarnação Xavier, nascida em São José (Brasil).
Aos nove anos fica órfão de mãe e muda-se, com seu pai e irmãos, para a sede da Vila (São José d’el-Rei).
Aos doze anos fica órfão de pai, ficando a morar com suas tias na Vila.
Um dos seus irmãos chega a capitão.
Mas é com outros dois, padres, que Tiradentes se instruí.
A letra é desembaraçada, vê-se que escreve, mais ainda por que não o faz com erros.
Tudo quer saber e, não tendo uma educação ortodoxa, a verdade é que é dentista, médico e engenheiro de sucesso.
Não tem jeito para o comércio, é verdade, nem como vendedor ambulante, nem depois como minerador (apesar dos seus vastos conhecimentos de mineralogia).

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Para se aferir do grau de incultura reinante basta dizer que, pretendendo elogiar os seus conhecimentos de mineralogia, o governador Luiz de Menezes afirma que ele tem uma grande inteligência "maneira lógica".
E no entanto, marca passo.
No exército, é sistematicamente preterido nas promoções.
E os portugueses, mesmo os da pior qualidade, lá vão subindo, paulatinamente.

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Junto com vários integrantes da aristocracia mineira, entre eles poetas e advogados, começa a fazer parte do movimento dos inconfidentes mineiros, cujo objectivo principal era conquistar a Independência do Brasil.
Tiradentes era um excelente comunicador e orador.
Sua capacidade de organização e liderança fez com que fosse o escolhido para liderar a Inconfidência Mineira.
Em 1789, após ser acusado por Joaquim Silvério dos Reis, o movimento foi descoberto e interrompido pelas tropas oficiais.
Os inconfidentes foram julgados em 1792.
Alguns filhos da aristocracia ganharam penas mais brandas como, por exemplo, o açoite em praça pública ou o degredo.

1789, Rio de Janeiro.

A 1 de Maio aparece na cidade o coronel Joaquim Silvério.
Logo trata de visitar - e com que frequência – o conde de Resende.
No dia 2, grande azáfama.
Cubículos especiais são mandados construir nalgumas das piores prisões.
A sua guarda pessoal passa a ser constituída exclusivamente por portugueses.
Dois granadeiros são encarregados de vigilância extraordinária.
Informações sobre as origens de todos os seus soldados são solicitadas com urgência – estes são portugueses, aqueles são brasileiros....

Os granadeiros vigiam Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, por causa do ofício que aprendera com o padrinho.
Agora é alferes do Regimento pago por Vila Rica, Minas Gerais.
Andava a procurar gente que o ajudasse a libertar o Brasil através duma conspiração abominável.
Sabedor de tal crime, o governador de Minas havia encarregado o Coronel, amigo do suspeito, de seguir seus movimentos e comunicar seus achados directamente ao Vice-Rei.

Tiradentes sonha.
Ao ajudante de artilharia Nunes Cardoso, proclama:

- Esta terra há ser um dia maior que a Nova Inglaterra!
Mas as suas riquezas só as poderemos alcançar no dia em que nos libertarmos do jugo dos portugueses para sermos os senhores da terra que é nossa.

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Nunes Cardoso empalidece.
Roga-lhe que nunca mais se refira a tais assuntos…

Mas Tiradentes não desiste.
Pede a várias pessoas que lhe traduzam livros políticos ingleses, também a Declaração da Independência americana.
Alguns dos livros têm até referências elogiosas à República.
Em Vila Rica, na casa de João Rodrigues de Macedo, chegara mesmo a exibir a lista, por ele levantada, dos habitantes da capitania e comentara:

- Têm Vossas Mercês aqui todo este povo açoitado por um só homem, e nós todos a chorarmos como negros – ai, ai...
E de três em três anos vem um, e leva um milhão, e os criados levam outro tanto, e como hão-de passar os pobres filhos da América?
Se fosse outra nação já se tinha levantado!

Os amigos pedem-lhe que pare.
Além disso, tens estado a ser seguido por dois granadeiros, informam-no.
Tiradentes primeiro pensa liquidá-los.
Depois opta por regressar mais depressa a Minas, quem sabe se na mira de precipitar o golpe.
Pede um bacamarte emprestado e inicia os preparativos para a fuga.
Mas, vigiado como anda, logo se apercebe que é impossível fugir.
Esconde-se.

O decoro manda que não alberguem homem em casa.
Tiradentes, por sua recomendação, vai para casa do ourives Domingos Fernandes, guiado pelo Padre Inácio Nogueira, sobrinho da viúva.
Aí entra no dia sete de Maio pelas dez da noite.

O desaparecimento de Tiradentes provoca pânico entre os adversários.
Na manhã do dia oito pede ao Padre que visite o coronel Joaquim Silvério, que continua a julgar seu amigo.
O delator, que periodicamente envia relatórios escritos ao Vice-Rei sobre as actividades do amigo, finge-se preocupado.
Quer saber do paradeiro de Tiradentes para poder ajudá-lo.
Mas o Padre é jesuíta, contorna a inquirição, afirma não morar na Corte.
Silvério não desarma e, ao encontrar na rua, no dia seguinte, outro clérigo, pergunta pelo Padre Inácio.

A PRISÃO

Os vultos assomam às janelas.
Os mais afoitos saem à rua, timidamente, olham de longe, falam baixinho.
Uma centena de soldados comandados pelo Alferes Francisco Pereira Vidigal, impede o trânsito no quarteirão onde fica a casa do ourives Domingos Fernandes, contratador e marcador de prata.

O cerco aperta-se.
A casa parece deserta.
Um soldado informa que um homem se escondeu no sótão com uma arma na mão.
Vidigal, incerto, acaba por mandar forçar a entrada.
Irrompe no sótão, rodeado por dezenas de soldados.
O homem olha-os de frente mas não reage, não fala.
Entrega-se.
Veste o dólman. Põe o chapéu.

- Que pretendia fazer com o bacamarte?

- Resistir, mas são tantos…

- Tenho bom negócio a propor-lhe.

O outro cai na esparrela e eis o Padre Inácio arrastado para o palácio do Vice-Rei.
Pessoa comum, não resiste às ameaças, inclusivamente de morte.
A teia começa a ser tecida.

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No dia 21 de Abril de 1792 Tiradentes é enforcado no Largo do Lampadário, no Rio de Janeiro.
Dos Inconfidentes, é o único executado, serve de exemplo.
O seu corpo é esquartejado.
Pedaços dele são espalhados pela estrada que vai para Vila Rica.
Uma gaiola com a sua cabeça é alçada a um poste cravado no centro de Vila Rica.

De morte assim matada, Tiradentes morre solteiro.
Deixa porém dois filhos menores, Joaquina e João.

Apesar da terem declarado infame o nome do pai e o da família, João é adoptado por um comerciante.
Seguirá a carreira militar.

Joaquina vive com a mãe até à maioridade.
Portanto pobre, afastada do mundo e de todos, privada de auxílio pelo clima de terror.

Eugénia Maria de Jesus, a companheira de Tiradentes, dizem que é bonita, despretensiosa, clara, de olhos azuis.
Mas a pobreza tudo mata.

Tiradentes será herói e lenda, elas de nada sabem.

1746: Nasce em Pombal, distrito de S. José d’el Rei (hoje Tiradentes), Minas Gerais.
Os pais, Domingos da Silva Santos, nascido em Portugal, e Maria Antónia da Encarnação Xavier, nascida na Vila de São José d’el Rei (Brasil).
1755: Morre Maria Antónia, o viúvo e os órfãos mudam-se de vez para a Vila de São José.
1757: Órfão de pai.
1780: Arregimenta-se como soldado.
1781: É promovido a Alferes.
1786: A mando do governador da capitania de Vila Rica, leva brilhantemente a cabo estudos demográficos, geográficos, geológicos, mineralógicos - quer de aplicação civil, quer militar.
1788: Envolve-se na Inconfidência contra a Coroa portuguesa
1789: Como conspirador, é preso no Rio de Janeiro.
1792: É enforcado em praça pública e depois esquartejado.

[BBvideo 425,350]http://www.youtube.com/watch?v=l5C31A2Vfvo[/BBvideo]
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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Xevious » 17 Fev 2010, 18:23

Na época de Tiradentes os brasileiros se revoltaram porque 1/4 das riquesas das minerações iam para os Portugueses.
Mas e agora, que o imposto do cidadão chega a 40%, devemos então criar um novo tiradentes?
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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Lana Bonitoca » 24 Fev 2010, 12:03

Muito interessante, uma coisa é ser obrigado a ler isso em livros de história sabendo que vão cobrar na prova, outra é ler por curiosidade.

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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Lancelot » 24 Fev 2010, 16:46

Napoleão Bonaparte

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1769: Nasce em Ajácio, Córsega, em 15 de Agosto
1779: Escola militar de Brienne
1784: Artilheiro na escola militar de Paris.
1789: Revolução Francesa, na Córsega, tem papel activo na resistência.
1793: Comanda um batalhão de artilharia em Toulon.
1794/95: Brigadeiro, participa na campanha de Itália.
Comanda a guarnição de Paris, esmaga insurreição monárquica, salva a Convenção, que o designa general-em-chefe do exército do interior.
1796/97: Comandante-em-chefe do exército de Itália.
Casa com Josefina.
Vitórias em Nice, Lodi, Milão, Arcole, Rivoli.
1798: Campanha do Egipto.
1799: É eleito primeiro cônsul.
1800: Batalha de Marengo.
1802: Cônsul vitalício.
1804: Napoleão e Josefina coroados imperadores de França.
1805: Batalhas de Trafalgar e de Austerlitz.
1806: Em 21 de Novembro ordena o bloqueio a Inglaterra.
1810: Casa com a princesa Maria Luísa de Áustria.
1812: Invade a Rússia mas retira no Inverno.
1814: Abdica em Abril, parte para a ilha de Elba.
1815: Regressa a França, fuga de Luís XVIII. Cem dias de governo, derrota em Waterloo.
Abdica. Exílio na ilha de Santa Helena, onde morre em 5 de Maio de 1821.
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Ilha de Santa Helena

Em 1768 o estado genovês vendeu a Córsega à França.
Em 1769 nasce Napoleão.
Muitos conselheiros desaprovaram a compra a Luís XV.
Se o rei lhes tivesse dado ouvidos, o que seria de Napoleão?
E da França?

Carlos Bonaparte, de origem italiana, é um notável da ilha.
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Carlos Bonaparte
Vive modestamente com a sua família.
Aos dezoito casa com Letícia Ramolino.
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Letícia Ramolino
Filha de um funcionário do governo genovês.

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Pasquale Paoli
Quando os franceses tomam posse da ilha, o general Pasquale Paoli desencadeia a luta de resistência.
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Pasquale Paoli
Este líder corso irá ser o ídolo da juventude de Napoleão que, com nove anos, entrará na escola militar de Brienne.
O pai viera para França como deputado pela Córsega e conseguira três bolsas para os filhos.
Segundo Bainville, o carácter do jovem fortalece-se na escola de Brienne, "pois sofre a grande prova dos espíritos orgulhosos, ardentes e tímidos, ou seja, o contacto com estrangeiros hostis."
Os seus camaradas alcunham-no de la-paille-au-nez, pois pronuncia o seu nome com acento corso, o que soa como "Napolioné".
É uma criança triste, sensível, pouco amante das brincadeiras próprias da idade.
Não é um aluno brilhante.
Um dos seus professores define-o como "uma rocha de granito aquecida por um vulcão".
Em 1785 passa um exame para entrar em artilharia.
O examinador anota:
- "Corso de carácter e de nascimento, este rapaz poderá ir longe se as circunstâncias lhe forem favoráveis".
Nesse ano, morre Carlos Bonaparte com um cancro no estômago.
Letícia fica sem recursos, com a família a seu cargo, mas Napoleão já só tem mais um exame antes de começar a receber soldo do exército.
Dezasseis anos e ei-lo oficial.
Não deslumbra o professor que o examina, o ilustre Laplace.
Mas está contente consigo próprio.
Do pequeno corso, que só falava o dialecto da sua ilha, ao oficial do exército real foi um grande passo.
Em Valence, praça onde é colocado, lê poucos livros militares.
Prefere literatura política, principalmente Rousseau.
Nele procura argumentos para libertar a Córsega - o mito de Paoli continua a obceca-lo.
Consegue uma licença e vai passa-la à ilha, levando um baú cheio de livros.
Tácito, Montaigne e Corneille, que recita de memória.
Sonha escrever uma história da Córsega.
O que mais deseja é vir a ser um homem de letras.

O GENERAL BONAPARTE

Mas ainda tarda o começo de uma grande carreira militar.
Durante a Revolução muitos generais de brigada são facilmente nomeados e destituídos.
Ganhou o apreço de Robespierre.
Mas quanto tempo se aguentará este no poder?
Participa na campanha de Itália.
O seu génio militar começa a dar nas vistas, mas chega o 9 de Termidor e o fim do Terror.
Robespierre é deposto.
Napoleão é detido por ordem do seu amigo Salicetti.
Tempos de revolução, amizade frágil...
Depois é libertado.
Mas consideram-no suspeito.
Em 1795, as autoridades de Paris afastam-no da frente italiana e destinam-no ao exército da Vendeia, infantaria.
Recusa.
"A artilharia é que é a minha arma".
Tempos difíceis.
José envia-lhe algum dinheiro.
Junot, seu ajudante de campo, reparte com ele os escassos recursos.
Quer casar-se com a bela Pauline Bonaparte mas Napoleão convence-o a desistir:
- "Tu não tens nada, ela nada tem. Qual é o total? Nada."
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Pauline Bonaparte

Conhece Josefina de Beauharnais, uma crioula graciosa ("pior do que se fosse bonita", dirá alguém), viúva de um general que morreu na guilhotina durante o Terror.
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Tem 32 anos, mais 6 do que Bonaparte.
Casam em 9 de Março de 1796.
Ambos falseiam as idades para reduzir a diferença.
Prenda de casamento:
-Barras oferece ao jovem general o comando supremo do exército de Itália.
É o que ambiciona há muito tempo.

Chega a Nice.
O exército francês, menos numeroso que o inimigo austríaco e piemontês, está faminto, mal municiado, descalço e esfarrapado.
Os generais mais antigos mostram-se insolentes para aquele rapazote insignificante, baixo, mal uniformizado, de cabelo comprido, com acento corso.
Mas Napoleão é quem manda, não haja dúvidas.
Severo, mantém-os à distância.
Afável com os soldados, devolve-lhes a esperança, arenga à moda antiga, própria de quem leu Plutarco e Tito Lívio.
"Soldados, estais nus e mal alimentados. Eu levar-vos-ei às planícies mais férteis do mundo.
Ricas províncias e grandes cidades cairão em vosso poder.
Ali ireis encontrar honra, glória e riqueza."

A ETAPA TRIUNFAL

Napoleão acreditou que, ao fazer-se coroar na Notre-Dame pelo papa, seria admitido no círculo dos soberanos legítimos.
Poderia assim abrandar a crispação internacional.
Ilusão!
A aristocracia europeia está decidida a fustigar a arrogância do "soldado de fortuna".
Uma nova coligação, encabeçada pelos Ingleses, confronta-se de novo com a França.
Napoleão projecta a invasão da Inglaterra, mas vê-se obrigado a pôr de parte o seu intento, após a destruição da esquadra franco-espanhola pelo almirante Nelson em Trafalgar.
Dirige em seguida os seus exércitos para o centro da Europa e aniquila as tropas austro-russas na maior vitória da sua carreira militar, a batalha de Austerlitz, em 1805.
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Austerlitz
No dia seguinte ao da batalha, o próprio imperador austríaco solicita-lhe um armistício.
Em 1806, a Prússia é vencida em Iena.
"Querida", escreve ele à mulher, "utilizei uma excelente estratégia contra os Prussianos.
Ontem obtive uma grande vitória.
Estive muito próximo do rei da Prússia, por pouco não o consegui aprisionar, a ele e à rainha...
Sinto-me maravilhosamente bem.
" Em 1807, o czar da Rússia negoceia a paz no acordo de Tilsit.
Estas vitórias permitem a formação de um vasto império, com estados governados por parentes, amigos e aliados do imperador.
Napoleão nomeia-se rei de Itália (Norte da península), ocupa os Estados Pontifícios, cede a Holanda ao seu irmão Luís, Nápoles a José (mais tarde entregue a Murat, casado com uma irmã de Bonaparte) e a Vestefália a Jerónimo, a quem obriga a anular o casamento com uma americana para poder desposar a princesa Catarina de Württemberg.
Eugène de Beauharnais, filho de Josefina, torna-se genro do rei da Baviera.
É um delírio de snobismo monárquico que, ainda hoje, muitos historiadores têm dificuldade em compreender num homem inteligente como Napoleão. Com dezasseis estados alemães constitui a Confederação do Reno e, com algumas províncias polacas, cria o grão-ducado de Varsóvia, ambos dependentes da França.
A arquitectura das fronteiras políticas modifica-se ao sabor da sua criatividade.
Quando, mais tarde, em Santa Helena, lhe perguntam qual foi o período mais feliz da sua vida, responde:
-"Talvez o de Tilsit... Sentia-me vitorioso, ditando leis, rodeado de uma corte de reis e de imperadores."
Mas o glorioso edifício do Império começava a abrir fendas.

OS ÚLTIMOS ANOS

O fracasso da campanha da Rússia incita os inimigos de Napoleão a aliar-se e a dar-lhe batalha.
Em Leipzig, na chamada Batalha das Nações, em 1813, as tropas francesas são derrotadas pelos austro-russos.
"Só o general Bonaparte pode agora salvar o imperador Napoleão", diz ele próprio.
Mas engana-se.
Pouco depois, 600 000 russos, alemães e ingleses invadem a França e, em Março de 1814, entram em Paris.
Ao saber que José capitulou ante os generais inimigos, comenta:
- "Que cobardia!", e acrescenta "Desde que eu não esteja, só fazem disparates."
Abandonado pelos seus marchais, vê-se obrigado a abdicar e é desterrado para a ilha de Elba.
A grande aventura parecia ter chegado ao fim.

Napoleão cai e Luís XVIII restaura a dinastia bourbónica.
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Luís XVIII
As dissensões surgidas no interior do país levam-no a regressar a França. No dia 20 de Março de 1815 entra triunfalmente em Paris.
Confrontadas novamente com os exércitos aliados (Grã-Bretanha, Áustria e Prússia), são as forças napoleónicas definitivamente derrotadas em Waterloo pelo general Wellington, em 18 de Junho de 1815.
O imperador entrega-se aos Ingleses e é por estes deportado para Santa Helena, uma pequena ilha perdida no Atlântico sul, "para lá de África", como dizem os seus carcereiros.
Ali, sozinho com as suas reflexões, dirá:
- "O infortúnio também encerra glória e heroísmo.
Se tivesse morrido no trono, com a auréola da omnipotência, a minha história ficaria incompleta para muita gente.
Hoje, mercê da desgraça, posso ser julgado por aquilo que realmente sou."

Em 5 de Maio de 1821, com uma violenta tempestade assolando a ilha, Napoleão morre, segundo a opinião do médico que o assistiu, não de um cancro no estômago, como seu pai, mas de uma úlcera provocada por uma má dieta e, sobretudo, pela ansiedade.
Um antigo companheiro de armas envolve-o no capote que usou na Batalha de Marengo.
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[BBvideo 425,350]http://www.youtube.com/watch?v=Zh333RSrYFs[/BBvideo]
"O mal de muita gente não é a falta de ideias, mas um excesso de confiança nas poucas que tem"

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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor HumbertoReis » 24 Fev 2010, 17:55

A história de Napoleão é muito interessante. Há perspicácia, inteligência e perseverança.

Sua coroação como Imperador foi - pelo o que li em estudos da nobiliária - aceita pela realeza européia. Dessa forma, um de seus descendentes varonis carrega um título nobre.

Sendo assim - e acreditando no que li - o seu descente varonil direto poderia concorrer para Rei da França em pé de igualdade com o pretendente das demais dinastias, no caso de um plebiscito decidir pelo regresso da monarquia naquele país.

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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Lancelot » 19 Mar 2010, 21:12

Lisboa está cheia de testemunhos de Santo António – o seu santo mais querido e popular.
Os museus e bibliotecas portuguesas possuem quase tudo o que um erudito pode querer saber sobre este português fora do vulgar, que viveu nos primórdios da nacionalidade.
Porém para a maioria dos lisboetas que não vão às bibliotecas e raramente aos museus, o dia 13 de Junho não passa de um agradável feriado em honra de Santo António, onde se aproveita para ir comer caldo verde e sardinhas assadas, de preferência junto aos bairros da Sé e ver as marchas populares.
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As crianças já não pedem umas moedas para enfeitar o trono do Santo e as meninas solteiras provavelmente já não lhe pedem um namorado.
Tanta popularidade, depois do seu nascimento, leva-nos a recordar aspectos da vida deste santo, passada entre Lisboa, Coimbra e Pádua.

Desde 1140 que D. Afonso Henriques, o nosso primeiro rei, tentava a conquista de Lisboa aos Mouros, feito que só teve êxito sete anos depois, em 1147, depois de prolongado cerco imposto aos aguerridos Almóadas e com o oportuno apoio dos Cruzados, em número treze mil (grande exército de homens cristãos que vieram do Norte da Europa, rumo à Terra Santa, para expulsarem os Muçulmanos. Usavam uma cruz de pano como insígnia, daí o seu nome.
Houve oito Cruzadas desde 1096 a 1270).
Lisboa era pois uma cidade recém-cristã, quando na sua catedral foi a baptizar o menino Fernando Martins de Bulhões – Santo António, filho da fidalga D. Teresa Tavera, descendente de Fruela, rei das Astúrias e de seu marido Martinho ou Martins de Bulhões..

Há dúvidas quanto ao apelido do pai, bem como se era ou não descendentes de cavaleiros celtas.
Sabe-se sim que D. Teresa nascera em Castelo de Paiva e o marido numa terra próxima.
Viviam em casa própria no bairro da Sé quando o recém-nascido veio a este mundo, no ano de 1145, embora alguns apontem como data de nascimento 1190 ou 1191.
Fernando frequentou a escola da Sé e até aos 15 anos viveu com os pais e com uma irmã de nome Maria.
Aos 20 anos professou nos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em Lisboa, no Mosteiro de São Vicente de Fora.
Nesta ordem monástica prosseguirá os seus estudos teológicos.
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Rumou a Coimbra ao mosteiro de Santa Cruz, onde tinha à sua disposição a melhor biblioteca monacal do País.
Nesse tempo era a abadia de Cluny, em França, que possuía uma das maiores bibliotecas da Europa, com um total de 570 volumes manuscritos, porque ainda não tinha sido inventada a imprensa.
Aqui em Coimbra, sendo já sacerdote toma o hábito de franciscano, em 1220.
Segundo os seus biógrafos, Santo António terá lido muito, e não foi por acaso que se tornaria pregador.
O mundo cristão vivia intensamente a época das Cruzadas.
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A chamada «guerra santa» desencadeada contra o Islão.
E da parte dos Muçulmanos dava-se a inversa, luta contra os cristãos.
Ambos acreditavam que a fé os levaria à vitória.
De Oriente a Ocidente os exércitos batalham, e neste turbilhão surgem novas formas de espiritualidade.
Em 1209 Francisco de Assis (S. Francisco) abandona o conforto e luxo da casa paterna, para, com outros companheiros, se recolher numa pequena comunidade, dando origem a uma nova reflexão sobre a vivência do Evangelho.
É a aproximação à Natureza, à vida simples e à redescoberta da dignidade da pobreza preconizada pelos primeiros cristãos.
Em poucos anos, homens e mulheres, alguns ainda bem jovens e filhos de famílias abastadas e poderosas sentem-se atraídos por esta vida de despojamento e sacrifício, com os olhos postos no exemplo de Cristo.
A Portugal também chegaram ecos deste novo misticismo.

Em Janeiro de 1220 são degolados em Marrocos, pelos muçulmanos, cindo frades menores (franciscanos) e todo o mundo cristão sofre um enorme abalado.
A própria Clara de Assis (Santa Clara), praticamente da mesma idade que Santo António (nasceu em 1193 ou 1194) vai querer partir para Marrocos para converter os sarracenos, mas Francisco de Assis seu amigo de infância e seu orientador espiritual não lho permite.
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Francisco de Assis
Por cá o nosso futuro Santo António, já ordenado padre, decide mudar de Ordem religiosa e também ele passa a envergar o hábito dos franciscanos.
É nesta ocasião que muda o nome de baptismo de Fernando para António e vai viver com outros frades no ermitério de Santo Antão (ou António) dos Olivais, na altura um pouco afastado de Coimbra, nuns terrenos doados por D. Urraca, mulher do rei D. Afonso II.
Em meados de 1220 chegam, com grande pompa religiosa, ao convento de Santa Cruz de Coimbra, as relíquias dos mártires de Marrocos e esse acontecimento vai ser decisivo no rumo da vida de Santo António.
Parte para Marrocos, sentindo também ele que é chamado a participar na conversão dos chamados infiéis.
Porém adoece gravemente e não podendo cumprir aquilo a que se propunha, teve de embarcar de regresso a Lisboa.
Só que o barco é apanhado numa tempestade e o Santo vê o seu itinerário alterado ao sabor de uma vontade superior.
Acaba por aportar à Sicília num período de grandes conflitos armados entre o Papa Gregório IX e o rei da Sicília, Frederico II.
Relembra-se que várias regiões do que é hoje a Itália unificada eram reinos independentes e este ambiente de guerras geradoras de insegurança e perigos.

Em Maio de 1221 os franciscanos vão reunir-se no chamado Capítulo Geral da Ordem, onde Santo António está presente.
No final os frades regressam às suas comunidades de Montepaolo, perto de Bolonha, onde, a par da vida contemplativa e de oração, cabe também tratarem das tarefas domésticas do convento.
Aqui os outros frades reparam na grande modéstia daquele estrangeiro (Santo António) e jamais suspeitaram dos seus profundos conhecimentos teológicos.
Findo aquele período de reflexão, como que um noviciado, os frades franciscanos são chamados à cidade de Forlì para serem ordenados e Santo António é escolhido para fazer a conferência espiritual.
E começa a falar.
Ninguém até ali percebera até que ponto ele era conhecedor das Escrituras e como a sua fé e os seus dotes oratórios eram invulgares.
Pelo que se sabe quando começou a falar imediatamente cativou os outros frades e a sua vida seria a partir daquele dia de pregador da palavra de Cristo.
Percorrerá diversas regiões da actual Itália, entre 1223 e 1225.
Por sugestão do próprio São Francisco vai ser mestre de Teologia em Bolonha, Montpelier e Toulouse.
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Pádua
Quando S. Francisco morre, em 1226, Santo António vai viver para Pádua.
Aqui vai começar por fazer sermões dominicais, mas as suas palavras tão cheias de alegorias eram de tal modo acessíveis ao povo mais ou menos crente, que passam palavra e casa vez mais se junta gente nas igrejas para o ouvir.
Da igreja passa para os adros para conter as multidões que não param de engrossar.
Dos adros passa a falar em campo aberto e é escutado por mais de 30 mil pessoas.
É um caso raro de popularidade.
A multidão segue-o e começa a fama de que faz milagres.
Os rapazes de Pádua têm mesmo que fazer de guarda-costas do Santo português tal a multidão à sua volta.
As mulheres tentam aproximar-se dele para cortarem uma pontinha do seu hábito de frade como uma relíquia.
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Papa Alexandre IV
O bispo de Óstia, mais tarde papa com o nome de Alexandre IV, pede-lhe que escreva sermões para os dias das principais festas religiosas que eram já muitas na época.
Mais tarde seria este papa a canonizá-lo.
Santo António assim faz.
São hoje importantíssimos esses documentos escritos, porque Santo António com pregador escreveu pouco.
Apenas lhe são atribuídos Sermones per Annum Dominicales (1227-1228) e In Festivitatibus Sanctorum Sermones (1230) .
Sentindo-se doente, o santo pediu que o levassem para Pádua onde queria morrer, mas foi na trajectória, num pequeno convento de Clarissas, em Arcela, que Santo António «emigrou felizmente para as mansões dos espíritos celestes».
Era o dia 13 de Junho de 1231.
Depois, como é sabido, foi canonizado, em 1232, ainda se não completara um ano sobre a sua morte.
Caso único na história da Igreja Católica.
Já que nem São Francisco de Assis teve tal privilégio.
Os santos como Santo António, há muito que desceram dos altares para conviverem connosco, os simples mortais, que tomamos como nosso protector e amigo.
O seu sumptuoso sepulcro, em mármore verde em Pádua, na igreja de Santo António é o tributo do povo que o amou e é muito mais do que um lugar de peregrinação e de oração.
Através dos séculos, a sua fama espalhou-se por todos os continentes.
No dia 13 de Junho de cada ano, Lisboa e Pádua comemoram igualmente a passagem por este mundo de um português que pregou a fé e morreu em Pádua.
Como todos os santos é universal.
[BBvideo 425,350]http://www.youtube.com/watch?v=sXMQlaUPJfw[/BBvideo]
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Re: Personalidades do nosso mundo

Mensagempor Xevious » 25 Mar 2010, 00:57

Lana Bonitoca escreveu:Muito interessante, uma coisa é ser obrigado a ler isso em livros de história sabendo que vão cobrar na prova, outra é ler por curiosidade.

Bah sô tri interessado em história

mas só se for assim
a 'do colégio' era mais é saber as datas só :mad:

ao ver o post do Santo Antonio
me lembro do topico do Santo do Dia que a Margarida fazia
eu cheguei a ver ele todo, só por curiosidade em ver a história dos santos
não por serem santos exatamente, mas sempre dava pra sacar um pouco como era a época deles :roll:
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