O Mahabharata

Espiritualidade, Espiritismo, Gnose, Alquimia, Paranormalidade, Parapsicologia, Mediunidade, Sonhos, Religião e Filosofias de vida.

O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 13 Jul 2009, 17:31

Todas as glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nota do Tradutor


Esta versão em português do Mahabharata acontece somente pela graça de meu amado Gurudeva, Sua Divina Graça Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Srila Prabhupada, Paramahamsa Thakur Mahashaya, aquele que presenteou o mundo com a Consciência de Krishna, pela graça de Sri Chaitanya Mahaprabhu.

Esta versão também foi elaborada plenamente de acordo com os Ensinamentos de Sua Divina Graça Srila Prabhupada, no padrão Gaudiya Vaishnava de Sriman Mahaprabhu. Por isso, algumas partes foram modificadas desta forma.

O Mahabharata original é composto de 1.500.000 versos em sânscrito, pelo grande sábio Sri Srimad Krishna-Dwaipayana Vyasa (Srila Vyasadeva), que é a encarnação literária do Senhor Krishna, que concedeu todo o Conhecimento Védico à humanidade de kali-yuga. Esta é uma versão condensada e escrita para crianças. Mas os adultos com certeza também podem apreciar o benefício desta Leitura Transcendental.

Sri Krishna é a Suprema Personalidade de Deus original e primordial, eterno, pleno de conhecimento, pleno de bem-aventurança, a fonte de todas as outras encarnações, a causa de todas as causas, a origem de tudo o que existe. Tudo acontece por Sua vontade suprema. Tudo vem de Deus, tudo é energia de Deus, tudo pertence a Deus, Ele é o dono de tudo, pois é o Criador, como está no primeiro verso do Brahma-Samhita:



isvarah paramah krsnah
sac-cid-ananda-vigrahah
anadir adir govindah
sarva-karana-karanam


"Krishna, conhecido como Govinda, é a Suprema Personalidade de Deus. Ele tem um corpo transcendental, eterno, perfeito, onipotente, onisciente, onipresente e bem-aventurado. Ele é a origem de tudo. Ele não tem nenhuma origem, e Ele é a causa primordial de todas as causas".

Como o próprio Supremo Senhor, Sri Krishna, explica no Srimad Bhagavad-gita, Capítulo Três (Karma-yoga):


19. Portanto, a pessoa deve atuar como uma questão de dever, sem se apegar aos frutos das atividades, porque se trabalhar sem apego, a pessoa alcança o Supremo.

20. Inclusive reis como Janaka e outros alcançaram a etapa da perfeição mediante a execução dos deveres prescritos. Portanto, deve executar seu trabalho unicamente para educar as pessoas em geral.

21. As pessoas comuns seguem os passos de um grande homem, qualquer que seja a ação que este execute, e quaisquer que sejam as normas que ele estabeleça mediante seus atos exemplares, serão seguidas por todo mundo.

22. Ó Arjuna! Não há trabalho prescrito para Mim dentro dos três sistemas planetários. Nem necessito nada, nem tenho que obter nada; ainda assim, Eu Me ocupo no trabalho.

23. Pois se Eu não Me ocupasse no trabalho, ó Arjuna (Partha), certamente todas pessoas seguiriam Meus passos.

24. Se Eu deixasse de trabalhar, então todos estes mundos iriam à ruína. Eu também seria a causa de população não desejada e, por conseguinte, destruiria a paz de todos os seres conscientes.


Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, Ele é a causa da Natureza Material, e tudo acontece por Sua vontade suprema. Krishna nunca é tocado ou influenciado pela Energia Material, pois Ele é o Senhor de Maya. Mas por Sua misericórdia infinita, Ele vem pessoalmente a este mundo material, para resgatar os seres caídos de volta ao Lar, de volta ao Supremo. Como Ele mesmo explica no Bhagavad-gita (4,6-9):

ajo 'pi sann avyayatma
bhutanam isvaro 'pi san
prakrtim svam adhisthaya
sambhavamy atma-mayaya


6. Mesmo que Eu não tenha nascimento e Meu corpo transcendental nunca se deteriore, e mesmo que Eu seja o Senhor de todos seres conscientes, ainda assim, Eu apareço em cada milênio na Minha forma original transcendental.

yada yada hi dharmasya
glanir bhavati bharata
abhyutthanam adharmasya
tadatmanam srjamy aham


7. Sempre que acontece um declínio da prática religiosa, e onde quer que seja, ó Arjuna (descendente de Bharata), e um aumento predominante da irreligião, nesse momento, Eu descendo pessoalmente.

paritranaya sadhunam
vinasaya ca duskrtam
dharma-samsthapanarthaya
sambhavami yuge yuge


8. Eu venho pessoalmente milênio após milênio a fim de redimir os piedosos e aniquilar os malvados, assim como para restabelecer os princípios da religião.

janma karma ca me divyam
evam yo vetti tattvatah
tyaktva deham punar janma
naiti mam eti so 'rjuna


9. Ó Arjuna! Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu advento e atividades nunca volta a nascer neste mundo material após deixar este corpo, mas alcança Minha morada eterna.

vita-raga-bhaya-krodha
man-maya mam upasritah
bahavo jnana-tapasa
puta mad-bhavam agatah


10. Muitas pessoas no passado que se livraram do apego, do temor e da ira, por estarem completamente absortas em Mim, e abrigadas em Mim, purificaram-se por meio do conhecimento sobre Mim, e assim, todas elas alcançaram o amor transcendental por Mim.

ye yatha mam prapadyante
tams tathaiva bhajamy aham
mama vartmanuvartante
manusyah partha sarvasah


11. Na medida em que se rendem a Mim, Eu recompenso a todas pessoas. Ó Arjuna (filho de Pritha)! Cada qual segue Meu caminho em todos os aspectos.

Assim, Krishna apareceu aqui neste planeta há cinco mil anos, aproximadamente, e veio com todos Seus companheiros transcendentais, energias, devotos, semideuses e tudo mais. Krishna e Seu irmão Balarama são a Suprema Personalidade de Deus original. Mas vieram para resgatar os seres caídos, aliviar o peso demoníaco do planeta e restabelecer os princípios religiosos verdadeiros. Por isso, Eles agiam como pessoas comuns, para dar exemplo. Claro que apesar de agirem como pessoas comuns, nunca vão ser pessoas comuns.


A História do Mahabharata não é uma história comum, ou mitologia, ou um romance fictício. É uma história real, que aconteceu realmente, e faz parte dos passatempos eternos e transcendentais da Suprema Personalidade de Deus. Todos os personagens são seres eternos, companheiros transcendentais do Supremo Senhor, que vêm junto com Ele, a fim de auxiliar nesses passatempos.

Agora, com certeza, esta História Sagrada do Mahabharata acontece em algum outro planeta de algum outro universo material.

O objetivo da publicação desta versão em português é dar às pessoas a oportunidade de ouvirem, cantarem e lembrarem estes passatempos transcendentais do Supremo Senhor. E assim purificarem sua existência com o aumento da fé e da compreensão a respeito da Consciência de Krishna, e despertarem seu amor puro por Krishna.

O Srimad Bhagavad-gita é o auge destes ensinamentos divinos. Quando Krishna manifesta todo Conhecimento Divino da Consciência de Krishna, por Sua misericórdia sem causa magnânima, para o benefício de todos os seres condicionados aqui nesta Sua Natureza Material. Portanto, o estudo sincero do Bhagavad-gita é fundamental e primordial para o avanço na Consciência de Krishna.

(http://nitai.gaura.sites.uol.com.br/gita_br.htm).

O Srimad Bhagavatam afirma (Bhag. 1.7.6-7):


"As misérias materiais dos seres vivos, que são supérfluas para eles, podem ser mitigadas pelo processo de religação do serviço amoroso devocional ao Senhor Krishna. Mas a massa em geral não sabe disso, por isso, o sábio Vyasadeva compilou a Literatura Védica, que está em relação com a Verdade Absoluta".

"Pela simples recepção auditiva (ou leitura) desta Literatura Védica, o sentimento amoroso pelo serviço devocional ao Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, desperta imediatamente para extinguir o fogo ardente da lamentação, ilusão e medo".

E como diz o famoso Verso Dez deste mesmo Capítulo (Bhag. 1.7.10):


suta uvaca
atmaramas ca munayo
nirgrantha apy urukrame
kurvanty ahaitukim bhaktim
ittham-bhuta-guno harih


"Todos os tipos de atmaramas (aqueles que sentem prazer no atma, eu espiritual), especialmente os que estão no caminho da auto-realização, apesar de estarem livres de todos tipos de dependência material, desejam prestar serviço devocional puro à Suprema Personalidade de Deus. Isso significa que o Senhor possui qualidades transcendentais e portanto pode atrair todos, inclusive os seres liberados".

Também outro verso famoso (Bhag. 1.5.11):


tad-vag-visargo janatagha-viplavo
yasmin prati-slokam abaddhavaty api
namany anantasya yaso 'nkitani yat
srnvanti gayanti grnanti sadhavah


"Essas narrações que estão repletas das descrições das glórias transcendentais do nome, fama, formas, passatempos, etc. do Supremo Senhor ilimitado estão cheias de palavras que destroem os pecados das vidas impiedosas da civilização mal dirigida deste mundo. Essas literaturas transcendentais, mesmo compostas imperfeitamente, são ouvidas, cantadas e aceitas por pessoas purificadas que são perfeitamente honestas".

Os últimos capítulos do livro original foram substituídos pelos Capítulos do Srimad Bhagavatam de Sua Divina Graça Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaja Prabhupada que é a autoridade autêntica sobre o assunto. Insistimos enfaticamente no estudo dos Livros transcendentais deixados por Sua Divina Graça como o Bhagavad-gita Como Ele É e o Srimad Bhagavatam. Os Capítulos do Srimad Bhagavatam foram traduzidos da Edição original em inglês, sem as ditas "correções" posteriores.

Agradeço aos nobres leitores pela indicação dos erros eventuais, para que possam ser corrigidos. E mais Néctar está a caminho, pela graça de Srila Prabhupada.

Boa leitura!

Visvavandya Dasa

São Paulo, segunda-feira, 8 de setembro de 2008
(Sri Radhashtami)
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 13 Jul 2009, 18:06

Capítulo 1

Ganapati, O Escrevente

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Senhor Ganapati

Bhagavan Vyasa, o célebre compilador dos Vedas, é filho do grande sábio Parashara. Foi ele quem presenteou o mundo com o grande épico Mahabharata.

Sri Narada instrui Srila Vyasadeva

Depois de conceber o Mahabharata, ele pensou como daria essa história sagrada ao mundo. Assim, meditou em Brahma, o Criador, que se manifestou perante ele. Vyasa o saudou com reverência e orou com mãos postas:

"Senhor, eu concebi uma obra excelente, mas não consigo pensar em alguém que possa escrever enquanto dito".

Srila Vyasadeva e Sri Ganapati

Brahma exaltou Vyasa e disse: "Salve grande sábio, invoque Ganapati e peça-lhe para ser seu escrevente". Após dizer isso, desapareceu. O sábio Vyasa meditou em Ganapati que apareceu diante dele. Vyasa o recebeu com o devido respeito e pediu por sua ajuda:

"Senhor Ganapati, eu vou ditar a história do Mahabharata e imploro que fique feliz em ser o escrevente".

Ganapati respondeu: "Muito bem, farei como você deseja. Mas minha pena não deve parar enquanto eu escrever. Assim, você tem que ditar sem pausa ou hesitação. Eu só vou escrever nessa condição".

Vyasa concordou porém se precaveu com uma contra-proposta: "Assim seja, mas você tem que entender o significado do que eu ditar antes de escrever".

Ganapati sorriu e concordou com a condição. Dessa forma, o sábio começou a cantar a história do Mahabharata. De vez em quando, ele compunha algumas estrofes complexas que faziam Ganapati parar para pensar, e nesse intervalo, Vyasa compunha várias outras estrofes mentalmente. Desse jeito, o Mahabharata foi escrito por Ganapati sob o ditado de Vyasa.

Srila Vyasadeva e Sri Ganapati

Tudo isso aconteceu muito antes da descoberta da imprensa, quando a memória dos sábios era o único depósito dos livros. Vyasa ensinou este grande épico primeiramente a seu filho Shuka. Mais tarde, apresentou-o a muitos outros discípulos. Se não fizesse isso, talvez o livro não chegasse às futuras gerações.

A tradição fala que Narada contou a história do Mahabharata aos Devas (semideuses), enquanto Shuka a ensinou aos Gandharvas, Rakshasas e Yakshas (outros seres celestiais). Sabemos que o virtuoso e erudito Vaisampayana, um dos discípulos principais de Vyasa, revelou o Épico para benefício da humanidade. Janamejaya, filho do grande rei Parikshit, realizou um grande sacrifício onde convidou Vaisampayana para narrar a história. Em seguida, a história, contada por Vaisampayana, foi recitada por Suta na floresta de Naimisha numa assembléia de sábios liderados pelo rishi Shaunaka.

Suta se dirigiu à assembléia: "Eu tive a grande sorte de ouvir a história do Mahabharata composta por Vyasa para ensinar à humanidade dharma (religião pura) e os outros propósitos da vida. Terei prazer em narrar a vocês". Ao ouvir isso, os ascetas sentaram-se avidamente em volta dele.

Suta continuou: "Eu ouvi a história principal do Mahabharata e seus episódios narrativos quando foram contados por Vaisampayana no sacrifício realizado pelo rei Janamejaya. Depois disso, fiz peregrinações extensivas por vários locais sagrados bem como no campo onde aconteceu a grande batalha descrita no épico. Agora vim aqui para me encontrar com todos vocês". Assim, ele continuou a narrar a história completa do Mahabharata naquela grande assembléia.

Quando o grande rei Shantanu morreu, Chitrangada tornou-se o rei de Hastinapura e foi sucedido por Vichitravirya que teve dois filhos, Dhritarastra e Pandu. Como o mais velho nasceu cego, Pandu, o irmão mais novo, assumiu o trono. Durante seu reinado, Pandu cometeu uma certa ofensa e teve que se refugiar na floresta com suas duas esposas onde passaram muitos anos em penitência.

Nessa época na floresta, as duas esposas de Pandu, Kunti e Madri, deram à luz cinco filhos que ficaram famosos como os cinco Pandavas. Pandu morreu quando ainda estavam na floresta. Os sábios criaram os cinco Pandavas em seus primeiros anos de vida.

Quando Yudhisthira, o mais velho, fez dezesseis anos de idade, os sábios os levaram de volta a Hastinapura e os entregaram aos cuidados do nobre patriarca Bhisma.

Em pouco tempo, os Pandavas dominaram os Vedas e o Vedanta bem como todas as outras artes, especialmente as pertencentes aos kshatriyas (guerreiros da classe militar). Os Kauravas, filhos do cego Dhritarastra, ficaram com ciúmes dos Pandavas e tentaram prejudicá-los de várias maneiras.

Finalmente, Bhisma, o chefe da família, interveio para promover o entendimento mútuo e a paz entre eles. A partir daí, os Pandavas e os Kauravas começaram a reinar separadamente em suas capitais respectivas, Indraprastha e Hastinapura.

Algum tempo depois, teve um jogo de dados entre os Kauravas e os Pandavas de acordo com o código de honra dos kshatriyas na época. Shakuni, que jogou pelos Kauravas, derrotou Yudhisthira. Em conseqüência, os Pandavas foram exilados por um período de treze anos. Eles deixaram o reino e foram para a floresta com sua devotada esposa Draupadi.

Conforme as regras do jogo, os Pandavas tinham que passar doze anos exilados na floresta e o décimo terceiro ano, incógnitos. Quando retornaram e reclamaram a Duryodhana por sua herança paterna, ele, que já tinha usurpado o reino deles nesse período, recusou-se a devolver. A guerra veio em conseqüência. Os Pandavas derrotaram Duryodhana e recuperaram seu patrimônio.

Os Pandavas governaram o reino por trinta e seis anos. Depois passaram a coroa para seu neto Parikshit, e retornaram à floresta com Draupadi, onde viveram em voto de pobreza plena.

Essa é a essência da história do Mahabharata. Neste épico antigo e maravilhoso da Índia, há narrações ilustrativas e ensinamentos sublimes, além da descrição do excelente caráter divino dos Pandavas. O Mahabharata é de fato um verdadeiro oceano repleto de inumeráveis pérolas e jóias preciosas. Ele é, junto com o Ramayana, uma fonte viva da ética e cultura da Índia milenar.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Xevious » 13 Jul 2009, 21:40

eu vi o documentário A História da ÍNDIA
(por sinal absolutamente imperdível de se ver)
que explica que o foi inicialmente um poema de alguns acontecimentos legendários da India
mas logo mais ele passou a ser a própria história da india
como se fosse um Blog ou Twritter de tudo que acontecia naquela época
tudo que eles achavam importante incluíam no poema
e por assim foi por 800 anos :roll:
Conheça nossa TV Intonses Musica => http://www.livestream.com/intonsesmusica

Opiniões sobre a programação aqui
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 15 Jul 2009, 23:34

Capítulo 2

Devavrata

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"Você tem que ser minha mulher, quem quer que você seja". Disse o rei Shantanu à deusa Ganga que apareceu perante ele em forma humana, e inebriava seus sentidos com um encanto sobre-humano.

O rei ofereceu veementemente em troca do amor dela seu reino, sua fortuna, tudo que possuía, sua própria vida.

Ganga respondeu: "Salve rei, eu serei sua esposa, mas sob algumas condições. Nem você nem mais ninguém nunca deve me perguntar quem eu sou, ou de onde eu vim. Você nunca deve me impedir de fazer qualquer coisa, seja boa ou ruim, nem deve ficar zangado comigo por causa disso. Você nunca deve dizer nada que me desagrade. Se agir em contrário, vou abandoná-lo imediatamente. Você concorda"?


O rei apaixonado jurou a ela sua promessa, e ela se tornou sua esposa e viveu com ele.

O coração do rei foi cativado por sua modéstia e graça, bem como o amor sincero que ela lhe dedicava. O rei Shantanu e Ganga viveram uma vida de felicidade perfeita, esquecidos da passagem do tempo.

Ela deu à luz vários filhos; cada recém-nascido, ela levava ao Ganges e atirava no rio, e depois voltava para o rei com um sorriso na face.

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Shantanu ficava horrorizado e angustiado com tal conduta perversa, mas sofria em silêncio, ciente de sua promessa. Freqüentemente, ele imaginava quem era ela e de onde ela veio, e por que agia como uma bruxa assassina, mesmo assim, preso por sua palavra, e pelo seu amor extremo por ela, não pronunciava qualquer palavra de desaprovação ou condenação.

Assim, ela matou sete filhos. Quando nasceu o oitavo e ela foi jogá-lo no rio Ganges, Shantanu não pôde agüentar mais.

Ele gritou: "Pare, pare, por que você pratica esse assassinato horrendo e antinatural de seus próprios bebês inocentes"? Com essa explosão, o rei a conteve.

Ela respondeu: "Salve grande rei, você esqueceu sua promessa, pois seu coração está fixo em seu filho, e você não precisa mais de mim. Eu vou embora. Eu não matarei esta criança, mas ouça a minha história antes de me julgar. Estou muito constrangida de ter que fazer este papel odioso por causa da maldição de Vasistha. Eu sou a deusa Ganga, adorada por humanos e deuses. Vasistha amaldiçoou os oito Vasus para nascerem no mundo dos humanos, e comovido pelas súplicas deles depois, pediu que eu fosse a mãe deles. Eu os gerei para você, e foi para o seu bem que assim foi feito. Pois você irá aos reinos celestiais superiores por esse serviço prestado aos oito Vasus. Eu vou criar este filho para você durante algum tempo e o devolverei como meu presente a você".

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Após dizer essas palavras, a deusa desapareceu com a criança. Essa criança mais tarde ficou famosa como Bhisma. Os Vasus foram amaldiçoados por Vasistha num dia festivo quando foram passear com suas esposas numa montanha onde ficava o retiro de Vasistha no caminho. Um deles avistou a vaca de Vasistha, Nandini, que pastava ali.

Sua beleza divina o atraiu e ele a apontou para as damas. Todas elogiaram com alvoroço a graciosidade do animal, e uma delas pediu a seu esposo para pegar a vaca para ela.

Ele respondeu: "Qual a necessidade que nós, devas, temos do leite de vaca? Essa vaca pertence ao sábio Vasistha que é o dono de todo este lugar. Humanos com certeza se tornarão imortais ao beber seu leite. Mas não tem nenhuma vantagem para nós, pois já somos imortais. Será que vale a pena provocar a ira de Vasistha só para satisfazer um capricho"?

Mas ela não se convenceu. "Eu tenho uma amiga querida no mundo mortal, é para ela que fiz o pedido. Nós podemos fugir com a vaca antes de Vasistha voltar. Você tem que fazer isso por mim, porque eu quero muito". Finalmente, seu marido concordou. Todos os Vasus se juntaram para pegar a vaca com seu bezerro, e fugiram.

Quando Vasistha voltou para seu ashrama, não achou a vaca e o bezerro que eram indispensáveis para seus rituais diários.

Em pouco tempo, pelos seus poderes místicos, ele entendeu tudo que aconteceu. Tomado pela ira, ele bradou uma maldição para os Vasus. A única riqueza do sábio era sua austeridade, assim desejou que eles nascessem no mundo dos humanos. Quando os Vasus tomaram conhecimento da maldição, ficaram muito arrependidos, só que tarde demais, eles foram apelar para a misericórdia do sábio e implorar por seu perdão.

Vasistha disse: "A maldição tem que acontecer de qualquer forma. Prabhasa, o Vasu que capturou a vaca, terá vida longa no mundo com toda glória, mas os outros ficarão livres da maldição logo no nascimento. Minha palavra não pode ser quebrada, mas vou aliviar a maldição dessa forma".

Depois disso, Vasistha voltou a se concentrar em suas austeridades, cujos efeitos se enfraqueceram levemente por causa de sua ira. Sábios que praticam austeridades adquirem o poder de amaldiçoar, mas cada exercício desse poder reduz seu saldo de mérito.

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Os Vasus sentiram-se aliviados e foram procurar a deusa Ganga, assim suplicaram a ela: "Nós imploramos que você seja a nossa mãe. Nós pedimos para o nosso bem que você desça à Terra e se case com um homem digno. Jogue-nos na água assim que nascermos e nos libere da maldição". A deusa atendeu a prece deles, veio para a Terra e se tornou esposa de Shantanu.

Depois que a deusa Ganga deixou Shantanu e desapareceu com a oitava criança, o rei abandonou todos prazeres sensuais e governou o reino com um espírito de ascetismo. Num certo dia, ele andava pelas margens do Ganges quando avistou um menino que tinha a beleza e forma de Devendra, o rei dos deuses.

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O menino se divertia e atirava uma fileira de flechas para fazer um dique e represar as águas do Ganges, brincava com o poderoso rio como uma criança brinca com sua mãe indulgente. O rei ficou maravilhado com a visão, quando a deusa Ganga se revelou a ele e apresentou o menino como seu próprio filho.


Ela disse: "Salve rei, este é o oitavo filho que gerei para você. Eu o criei até agora. Seu nome é Devavrata. Ele domina as artes marciais e se iguala a Parashurama em poder. Ele é mestre nos Vedas e no Vedanta por ser discípulo de Vasistha, e é mestre nas artes e ciências conhecidas como Shukra. Receba de volta esta criança que é um grande arqueiro e estadista mestre".


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Devavrata, que mais tarde passaria à se chamar Bishma, futuro tio de krishna.

Ela abençoou o menino, deu-o a seu pai, o rei, e desapareceu.
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 16 Jul 2009, 20:13

Capítulo 3

O Voto de Bhisma

O rei recebeu com muita alegria no coração e no seu reino o brilhante e jovem príncipe Devavrata e coroou-o como Yuvaraja, seu sucessor legítimo.

Passaram-se quatro anos. Certo dia, o rei passeava pelas margens do Yamuna quando de repente o ar se encheu com um perfume fragrante tão sublime que ele foi procurar a origem, até que se deparou com uma donzela muito encantadora que parecia uma deusa. Um sábio tinha dado a ela uma bênção de que emanaria um perfume divino de seu corpo, que agora impregnava toda a floresta.

Desde quando a deusa Ganga o deixou, o rei se manteve com os sentidos controlados, mas a visão dessa donzela tão divinamente bela abalou seu autocontrole e produziu em seu íntimo um desejo ardente incontrolável. Ele pediu a ela que fosse sua esposa.


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Shantanu and Satyavati by Ravi Varma.

A donzela respondeu: "Sou uma pescadora, a filha do líder dos pescadores. Faça o favor de falar com ele e pedir seu consentimento". A voz dela era tão meiga quanto sua forma.

O pai dela era um homem astuto.

Ele disse: "Salve rei, não há dúvida que esta donzela, como todas outras, tem que se casar com alguém, e você com certeza é digno dela. Ainda assim terá que me fazer uma promessa antes de tê-la".

Shantanu respondeu: "Se for só uma promessa, eu concordo".

O líder dos pescadores disse: "O filho que nascer desta donzela será o rei depois de você".

Apesar de enlouquecido pela paixão, o rei não pôde fazer essa promessa e deixar de lado o divino Devavrata, filho de Ganga, que é o herdeiro legítimo da coroa.

Era um prêmio que não poderia ser ganho sem vergonha. Assim, ele voltou à sua capital, Hastinapura, triste com seu desejo reprimido. Ele não revelou o assunto a ninguém e sofreu em silêncio.

Um dia, Devavrata perguntou a seu pai: "Pai, você tem tudo que deseja. Por que está assim tão triste? Por que você parece se isolar num sofrimento secreto"?

O rei respondeu: "Meu querido filho, o que você disse é verdade. Sofro uma tortura mental com dor e ansiedade. Você é meu único filho e está sempre preocupado com as ambições militares. A vida no mundo é incerta e as guerras são incessantes. Se acontecer alguma adversidade a você, nossa família será extinta. Claro que você vale por cem filhos. Ainda assim, os sábios versados nas escrituras dizem que no mundo transitório ter apenas um filho é o mesmo que não ter nenhum filho. Não é bom que a perpetuação de nossa família dependa apenas duma única vida, e acima de qualquer outra coisa, eu desejo a perpetuação da nossa família. Essa é a causa da minha angústia". O pai prevaricou de vergonha em revelar a história completa a seu filho.

O inteligente Devavrata percebeu que havia alguma causa secreta para a condição mental de seu pai, e ao questionar o cocheiro do rei, soube do encontro com a donzela pescadora nas margens do rio Yamuna. Ele foi até o líder dos pescadores e pediu a mão de sua filha em nome de seu pai.

O pescador foi respeitoso, porém firme: "Minha filha tem condições verdadeiras de ser a esposa do rei. Por que seu filho não pode ser rei? Você foi corado como seu herdeiro legítimo e vai suceder seu pai naturalmente. Esse é o impedimento no caminho".

Devavrata respondeu: "Eu dou minha palavra que o filho nascido dessa donzela será o rei. E eu renuncio ao meu direito de herdeiro legítimo em favor dele", e dessa forma ele fez um juramento.

O líder dos pescadores disse: "Salve o melhor da dinastia Bharata, você fez o que ninguém mais nascido com sangue real fez até então. Você é um herói de verdade. Você pode levar minha filha pessoalmente ao rei, seu pai. Porém, ouça o que vou lhe dizer com paciência pois falo como o pai da moça.

Não tenho dúvida que você cumprirá sua palavra, mas como vou saber se seus filhos renunciarão a seu direito de nascimento? Seus filhos serão naturalmente heróis poderosos como você, e será muito difícil resistir se eles quiserem conquistar o reino à força. Essa é a dúvida que me atormenta".

Quando ouviu essa pergunta difícil feita pelo pai da moça, Devavrata, que desejava satisfazer o desejo do rei, fez a sua renúncia suprema. Ele jurou com mãos postas ao pai da donzela: "Eu nunca vou me casar e vou me dedicar a uma vida de castidade contínua".

Depois que ele pronunciou essas palavras de renúncia, os deuses choveram flores sobre ele, e gritaram, "Bhisma", "Bhisma", que ressoou no céu. "Bhisma" significa aquele que se submeteu a um voto terrível e cumpriu. O nome se tornou o célebre epíteto de Devavrata a partir desse momento. O filho de Ganga levou a donzela Satyavati para seu pai.

Shantanu teve dois filhos com Satyavati, Chitrangada e Vichitravirya, que assumiram o trono um após o outro. Vichitravirya teve dois filhos, Dhritarastra e Pandu, que nasceram respectivamente de suas duas rainhas, Ambika e Ambalika.

Os filhos de Dhritarastra, cem em número, eram conhecidos como os Kauravas. Pandu teve cinco filhos que ficaram famosos como os Pandavas. Bhisma viveu muito, honrado por todos como o nobre patriarca até o fim da famosa batalha em Kurukshetra.


Continua
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 21 Jul 2009, 23:47

A Árvore Genealógica

Shantanu e filhos:

Com Ganga:Bhisma


Com Satyavati:Chitrangada e Vichitravirya

Com Ambika:Dhritarastra e Kauravas

Com Ambalika: Pandu e Pandavas
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 21 Jul 2009, 23:50

Capítulo 4

Amba e Bhisma

Chitrangada, o filho de Satyavati, foi morto numa batalha por um Gandharva. Como não deixou filhos, seu irmão, Vichitravirya, era o herdeiro legítimo e foi devidamente coroado rei. E como era menor, Bhisma governou o reino em seu nome até alcançar a maioridade.

Quando Vichitravirya chegou na adolescência, Bhisma foi procurar uma noiva para ele. Pois tinha ouvido falar que as filhas do rei de Kashi iriam escolher seus maridos conforme os costumes tradicionais dos kshatriyas, assim foi consegui-las para seu irmão.

Os governantes de Kosla, Vanga, Pundra, Kalinga e outros príncipes e nobres foram para o swayamvara (torneio) em Kashi, todos com o melhor de si. As princesas eram muito famosas por sua beleza e virtudes, seria uma competição ardente para ganhá-las.

Bhisma era muito famoso entre os kshatriyas como guerreiro poderoso. Primeiro, todos pensaram que o herói determinado veio meramente para assistir as festividades do swayamvara. Mas quando descobriram que ele também era um pretendente, as jovens princesas ficaram muito desapontadas. Elas não sabiam que ele veio em nome de seu irmão, Vichitravirya.

Os príncipes começaram a insultar Bhisma: "Esse excelentíssimo e sábio descendente da dinastia Bharata se esquece que é muito velho e também esquece de seu voto de celibato. O que esse velho senhor veio fazer neste swayamvara? Ele não tem vergonha"? As princesas que iam escolher seus maridos mal olhavam para o velho senhor, e o desdenhavam.

Bhisma começou a ficar irado. Ele desafiou todos os príncipes presentes ao mesmo tempo para um duelo e derrotou todos juntos. E pondo as três princesas em sua quadriga, partiu para Hastinapura.

Mas antes de prosseguirem muito, Shalva, o rei de Saubala, que estava apaixonado por Amba, interceptou-o e o desafiou. Pois essa princesa tinha escolhido Shalva como marido mentalmente. Shalva foi derrotado após uma breve luta, sem nenhum espanto, pois Bhisma era um arqueiro inigualável. Mas a pedido da princesa, Bhisma poupou sua vida.

Depois de chegar em Hastinapura com as princesas, Bhisma fez os preparativos para seu casamento com Vichitravirya. Quando todos estavam reunidos para o casamento, Amba zombou de Bhisma e se dirigiu a ele: "Salve filho de Ganga, você sabe o que está definido nas escrituras. Eu escolhi mentalmente Shalva, o rei de Saubala, como meu esposo. Você me trouxe aqui à força. Por saber disso, faça o que deve ser feito, você que é versado nas escrituras".

Bhisma admitiu a força de sua objeção e a mandou para Shalva com uma escolta apropriada. O casamento de Ambika e Ambalika, as duas irmãs mais novas, com Vichitravirya foi devidamente solenizado.

Amba foi muito feliz para Shalva e contou-lhe tudo o que aconteceu: "Eu escolhi você mentalmente como meu esposo desde o início. Bhisma me mandou de volta a você. Case comigo de acordo com as escrituras".

Shalva respondeu: "Bhisma me derrotou na frente de todos, e levou você embora. Eu estou arruinado. Por isso, não posso mais aceitar você como minha esposa. Volte para ele e faça o que ele mandar". Com essas palavras, Shalva a mandou de volta para Bhisma.

Ela voltou para Hastinapura e contou a Bhisma o que aconteceu. O patriarca tentou convencer Vichitravirya a se casar com ela. Mas Vichitravirya recusou terminantemente a se casar com uma donzela cujo coração tinha sido dado a outro.

Amba voltou para Bhisma e pediu a ele que se casasse com ela pois não havia outro recurso. Era impossível Bhisma quebrar seu juramento, mas ficou com muita pena de Amba. E depois de algumas tentativas em vão de convencer Vichitravirya a mudar de idéia, ele disse a ela que não tinha outro jeito senão voltar para Shalva de novo e tentar persuadi-lo.

Antes de qualquer coisa, ela era muito orgulhosa para fazer isso, e morou em Hastinapura por muitos anos. Finalmente, em completo desespero, ela foi até Shalva, mas ele foi inflexível na recusa.

A bela Amba com olhos de lótus passou seis anos amargos em tristeza e desespero. Seu coração endureceu com tanto sofrimento e toda sua meiguice se transformou num ódio rancoroso e aterrador contra Bhisma que era a causa da ruína de sua vida.

Ela procurou em vão por um campeão entre os príncipes para lutar e matar Bhisma, e vingar sua honra, mas mesmo os melhores guerreiros tinham medo de Bhisma e não davam atenção a seu apelo.

Por último, ela recorreu a duras penitências para obter a graça do senhor Subrahmanya. Ele apareceu amavelmente perante ela e deu a ela uma guirlanda de flores de lótus sempre frescas, e disse que qualquer um que usasse a guirlanda seria o inimigo de Bhisma.

Amba pegou a guirlanda e novamente procurou entre todos os kshatriyas algum que aceitasse a guirlanda como um presente do Senhor de seis faces e como paladino de sua causa. Mas ninguém tinha a coragem para enfrentar Bhisma.


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Senhor Parashurama, 6ª encarnação de Vishnu.

Finalmente, ela foi ao rei Drupada que se recusou a atendê-la. Daí, ela pendurou a guirlanda no portão do palácio de Drupada e foi para a floresta. Ela encontrou alguns ascetas a quem contou sua pesarosa história. Eles a aconselharam para procurar Parashurama e suplicar por Sua ajuda. Ela seguiu o conselho deles.

Depois de ouvir sua história triste, Parashurama ficou comovido e disse: "Querida filha, o que você quer? Posso pedir a Shalva para se casar com você, se desejar"?

Amba disse: "Não, eu não quero isso. Eu não quero me casar mais, nem ter um lar, ou felicidade. Só me resta uma única coisa na vida, vingança de Bhisma. O único bem que desejo é a morte de Bhisma".

Parashurama, comovido com a angústia dela junto com seu ódio mortal pela raça kshatriya, abraçou sua causa e lutou com Bhisma. Foi um combate longo e equilibrado entre os dois maiores guerreiros mestres de artes marciais da era. Mas no fim, Parashurama teve que admitir a derrota. Ele disse a Amba: "Fiz tudo que eu pude e falhei. Renda-se à mercê de Bhisma. É tudo que resta a você".

Consumida pela angústia e ódio, e movida pela paixão da vingança, Amba foi para o Himalaia e praticou rigorosas austeridades para obter a graça de Shiva, agora que todos os recursos humanos de ajuda se esgotaram. Shiva apareceu perante ela e concedeu-lhe uma bênção, de que em seu próximo nascimento ela mataria Bhisma.

Amba ficou impaciente por esse renascimento que lhe daria a satisfação de seu coração. Ela fez uma pira e entrou dentro do fogo, assim despejou o fogo de seu coração dentro do fogo ardente da pira.

Pela graça do Senhor Shiva, Amba nasceu filha do rei Drupada. Alguns anos após seu nascimento, ela viu a guirlanda de flores sempre frescas que ainda permanecia pendurada no portão do palácio e intocada por causa do medo. Ela a pôs em seu pescoço. Seu pai Drupada ficou aterrorizado com sua audácia, pois achava que despertaria a ira de Bhisma sobre ele.

Ele mandou sua filha embora da capital para o exílio na floresta. Ela praticou austeridades na floresta e depois de muito tempo, adquiriu o poder de se transformar em homem, e ficou famoso como o guerreiro Shikhandi.

Com Shikhandi como seu escudo, Arjuna atacou Bhisma na batalha de Kurukshetra. Bhisma sabia que Shikhandi tinha nascido mulher, e de acordo com seu código de honra kshatriya, nunca lutaria com ele sob qualquer circunstância.

Foi assim que Arjuna pôde lutar escoltado por Shikhandi e vencer Bhisma, especialmente porque Bhisma sabia que sua longa e exaustiva provação na Terra havia chegado ao fim e conseqüentemente tinha que ser derrotado.

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À medida que as flechas perfuravam Bhisma em sua última luta, ele destacava aquelas que entravam mais fundo e dizia: "Esta é uma flecha de Arjuna e não de Shikhandi". Assim caiu esse grande guerreiro.


Continua
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 24 Jul 2009, 14:36

Devayani e Kacha

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No começo do universo, houve uma dura guerra entre os deuses e os demônios, (devas contra asuras), para o domínio dos três mundos (inferior, intermediário e superior). Ambos beligerantes tinham preceptores ilustres. Brihaspati eminente conhecedor dos Vedas era o guia espiritual dos devas, enquanto os asuras se apoiavam no conhecimento profundo de Shukracharya.

Os asuras tinham a vantagem formidável que somente Shukracharya possuía o segredo de sanjivini, chamar os mortos de volta à vida. Assim, os asuras que morriam na batalha eram trazidos de volta à vida, uma e outra vez, e continuavam a lutar contra os devas. Os devas portanto estavam em grande desvantagem nessa longa e dura guerra com seus inimigos naturais.

Eles procuraram Kacha, filho de Brihaspati, e pediram sua ajuda. Ele teria que ganhar a confiança de Shukracharya e o persuadir a aceitá-lo como discípulo. Depois de admitido em sua intimidade e confiança, teria que obter de qualquer forma o segredo de sanjivini e remover aquele grande empecilho que causava tanto sofrimento aos devas.

Kacha atendeu ao pedido e foi se encontrar com Shukracharya que morava na capital de Vrishaparva, o rei dos asuras. Kacha foi para a casa de Shukra, e depois das saudações devidas, disse a ele: "Eu sou Kacha, neto do sábio Angira e filho de Brihaspati. Sou um brahmachari (estudante celibatário) que procura conhecimento sob sua tutela".

A lei dizia que um professor sábio não podia recusar um aluno digno que o procurasse para ser educado. Portanto, Shukra concordou e disse: "Kacha, você pertence a uma boa família. Eu aceito você como meu aluno, com muita satisfação, pois assim poderei expressar meu respeito por Brihaspati".

Kacha passou muitos anos com Shukracharya, fazia seus deveres com perfeição na residência de seu mestre. Shukracharya tinha uma filha encantadora, Devayani, que gostava muito dele. Kacha se dedicou a agradá-la e servi-la com música, dança, brincadeiras e conseguiu ganhar a afeição dela, porém sem detrimento de seus votos de brahmacharya (celibato).

Quando os asuras souberam disso, ficaram preocupados pois suspeitavam que a intenção de Kacha era de alguma forma roubar o segredo sanjivini de Shukracharya. Assim se preveniram naturalmente para evitar tal calamidade.

Certo dia, quando Kacha estava ocupado em pastorear o gado de seu mestre, os asuras o raptaram, esquartejaram em vários pedaços e deram sua carne aos cães. Quando o gado voltou sem Kacha, Devayani ficou preocupada, e correu para seu pai e reclamou chorando: "O sol se pôs, seu sacrifício de fogo noturno já foi feito, e Kacha ainda não voltou para casa. O gado voltou sozinho. Tenho medo que algo ruim aconteceu a Kacha. Eu não posso viver sem ele".

O pai afeiçoado empregou a arte sanjivini e invocou o jovem morto a aparecer. Kacha voltou à vida imediatamente e cumprimentou o mestre com sorrisos. Perguntado por Devayani sobre o motivo de sua demora, ele disse a ela que pastoreava o gado quando os asuras vieram e o mataram. Como voltou à vida ele não sabia, mas estava de volta à vida, e aqui estava ele.

Numa outra ocasião, Kacha foi colher flores na floresta para Devayani, e novamente os asuras o pegaram e mataram. Fizeram uma pasta do seu corpo e misturaram com a água do mar. Como não voltava depois de um longo tempo, Devayani foi a seu pai como antes, que trouxe Kacha de volta à vida com seu poder sanjivini, e ouviu dele tudo que aconteceu.

Pela terceira vez, os asuras mataram Kacha e muito espertos dessa vez, queimaram seu corpo, misturaram as cinzas com vinho e serviram a Shukracharya que bebeu sem desconfiar de nada. Mais uma vez as vacas voltaram para casa sem seu pastor, e mais uma vez Devayani se aproximou de seu pai com seu apelo desesperado por Kacha.

Shukracharya tentou consolar sua filha em vão: "Apesar de eu trazer Kacha de volta à vida várias vezes, parece que os asuras estão decididos a matá-lo. Na real, a morte é o destino de todos, não é certo que uma alma sábia como você lamente por causa disso. Você tem sua vida inteira pela frente para poder aproveitá-la, você é jovem e linda, e tem a boa vontade do mundo a seu favor".

Devayani amava Kacha profundamente, e desde que o mundo é mundo, palavras sábias nunca curaram a dor do luto. Ela disse: "Kacha, o neto de Angira e filho de Brihaspati, era um rapaz imaculado, que era devotado e incansável em seu serviço. Eu o amava muito, e agora que ele foi morto, minha vida se tornou vazia e insuportável. Então eu vou seguir o caminho dele". E Devayani começou a jejuar. Shukracharya, desolado com o sofrimento de sua filha, ficou muito irado com os asuras, e percebeu que seu pecado hediondo de assassinar um brahmana seria um golpe violento na boa fortuna deles.

Ele empregou a arte sanjivini e chamou Kacha. Pelo poder de sanjivini, Kacha voltou à vida mas estava disperso no vinho dentro do corpo de Shukracharya e por isso não pôde sair, apenas respondeu de onde estava.

Shukracharya exclamou espantado: "Ó brahmachari, como você entrou dentro de mim? Isso também foi obra dos asuras? Isso é muito ruim e me dá vontade de matar os asuras imediatamente, e de me juntar aos devas. Mas me conte toda a história".

Kacha narrou tudo, apesar de toda inconveniência imposta por sua posição.

Vaisampayana continuou: "O elevado e austero Shukracharya de grandeza inestimável ficou irado com a trapaça feita com seu vinho, e proclamou para o benefício da humanidade": "A virtude abandonará a pessoa que por falta de conhecimento beber vinho. Ela será objeto do escárnio de todos. Essa é a minha mensagem à humanidade, que deve ser considerada como uma injunção imperativa das escrituras". Depois, voltou-se à sua filha Devayani e disse: "Querida filha, tem um problema para você resolver. Para Kacha viver, ele tem que rasgar meu estômago para poder sair, o que significa a minha morte. Sua vida só pode ocorrer com a minha morte".

Devayani começou a chorar e disse: "Ai de mim! É morte para mim de qualquer forma. Pois se você também morrer, eu não sobreviverei". Shukracharya procurou uma forma de resolver o problema. A solução real relampejou em sua mente.

Ele disse a Kacha: "Ó filho de Brihaspati, agora entendo o seu objetivo em vir aqui e você realmente conseguiu! Eu tenho que trazê-lo de volta à vida para o bem de Devayani, mas igualmente para o bem dela, eu não posso morrer. A única solução é iniciá-lo na arte Sanjivini para que possa me trazer de volta à vida depois que eu morrer quando for aberta uma saída através das minhas entranhas para você. Você usará o conhecimento que lhe darei e me reviverá, para que Devayani não sofra pela falta de nenhum de nós dois".

Assim, Shukracharya ensinou a arte Sanjivini a Kacha. Imediatamente, Kacha saiu do corpo de Shukracharya, assim como a lua cheia emerge de uma nuvem, enquanto o grande preceptor caiu morto e dilacerado.

Mas Kacha imediatamente trouxe Shukracharya de volta à vida com seu novo dom Sanjivini. Kacha prostrou-se para Shukracharya e disse: "O professor que dá conhecimento ao ignorante é um pai. Além disso, como eu saí de seu corpo, você é minha mãe também".

Kacha continuou por muitos anos sob a tutela de Shukracharya. Quando o período de seu voto terminou, ele se despediu de seu mestre para retornar ao mundo dos deuses.

Quando ia partir, Devayani falou com ele humildemente: "Ó neto de Angira, você conquistou meu coração por sua conduta impecável, suas grandes conquistas e nobreza de nascença. Eu amo você com muita ternura, mesmo quando seguia seriamente seu voto brahmachari. Agora, você tem que corresponder ao meu amor e me fazer feliz por se casar comigo. Tanto Brihaspati quanto você são plenamente dignos de serem honrados por mim".

Naquele tempo, não era incomum que mulheres brâmanes inteligentes e cultas expressassem seu pensamento com franqueza honorável. Mas Kacha disse: "Ó pessoa imaculada, você é filha do meu mestre e sempre digna do meu respeito. Tive minha vida de volta ao nascer do corpo de seu pai. Portanto, sou seu irmão. Não é próprio que você, minha irmã, peça para se casar comigo".

Devayani tentou persuadi-lo em vão. "Você é filho de Brihaspati e não do meu pai. Se eu fui a causa da sua volta à vida, é porque eu amava você, e sempre o amei como meu esposo. Não é bom que você despreze alguém como eu, impecável e devotada a você".

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Kacha respondeu: "Não tente me persuadir à ilegalidade. Você está muito mais atraente do que nunca, enrubescida com ira. Mas eu sou seu irmão. Dê-me adeus. Sirva perfeitamente, sempre e continuamente, meu mestre Shukracharya".

Com essas palavras, Kacha despediu-se gentilmente e procedeu ao reino de Indra, o rei dos deuses. Shukracharya consolou sua filha.



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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 25 Jul 2009, 01:56

O Casamento de Devayani

Numa tarde quente, Devayani e as filhas de Vrishaparva, o rei dos asuras, brincavam agradavelmente na floresta e foram descansar nas águas refrescantes dum lago silvestre, deixaram suas roupas na margem antes de entrar na água. Um vento forte misturou as roupas num monte embolado, e quando elas vieram pegá-las, aconteceram trocas naturais. A princesa Sarmishtha, filha do rei, pôs as roupas de Devayani, que ficou brava e reclamou com sarcasmo sobre o inconveniente da filha de um discípulo usar as roupas da filha do mestre.

Essas palavras foram ditas em tom de brincadeira, mas a princesa Sarmishtha ficou muito irada e disse com arrogância: "Você não sabe que seu pai se curva humildemente com reverência ao meu pai real todos os dias? Você não é a filha de um mendigo que vive sob a generosidade de meu pai? Você se esquece que eu sou da casta nobre que orgulhosamente dá, enquanto você vem da casta que mendiga e recebe, como se atreve a falar assim comigo".

Sarmishtha continuou e ficava cada vez mais irada na medida em que falava, até o ponto da agressão física, assim deu um tapa na face de Devayani e a empurrou dentro dum poço seco. As donzelas asuras pensaram que Devayani tinha morrido e voltaram para o palácio.

Devayani não morreu com a queda no poço mas ficou em uma situação triste pois não conseguia escalar o poço para sair. O imperador Yayati da dinastia Bharata caçava na floresta e por uma grande sorte chegou ao lugar onde estava o poço, à procura de água para saciar sua sede. Quando olhou dentro do poço, ele viu algo brilhante, e ao olhar mais perto, ficou surpreso ao ver uma linda donzela deitada no fundo do poço.

Ele perguntou: "Quem é você, linda donzela, com brincos brilhantes e unhas vermelhas? Quem é seu pai? Qual é sua linhagem? Como caiu dentro do poço"? Ela respondeu: "Sou a filha de Shukracharya. Ele não sabe que eu caí neste poço. Tire-me daqui", e estendeu sua mão. Yayati pegou sua mão para ajudá-la a sair do poço.

Devayani não queria voltar à capital do rei dos asuras. Ela não se sentia segura para voltar, pois lembrava continuamente a conduta de Sarmishtha. Ela disse a Yayati: "Você pegou uma donzela por segurar em sua mão direita, e por isso deve se casar com ela. Eu percebo que você tem tudo para ser digno de me esposar".

Yayati respondeu: "Alma adorável, eu sou um kshatriya e você, uma donzela brahmana. Como posso me casar com você? Como Shukracharya, digno de ser o mestre de todo o universo, permitirá que sua filha seja esposa dum kshatriya como eu? Venerável dama, volte para casa". Após dizer essas palavras, Yayati retornou à sua capital.

Uma donzela kshatriya podia se casar com um brahmana, segundo a tradição antiga, mas era considerado um erro se uma donzela brahmana se casasse com um kshatriya. O mais importante era manter intacto o status da mulher. Pois anuloma, ou o ato da mulher se casar com um homem de classe superior, era legítimo enquanto o contrário, ou pratiloma, casar-se com um homem de classe inferior, é proibido pelo shastra.

Devayani não tinha intenção de voltar para casa. Assim, ficou na floresta sob a sombra de uma árvore com muita tristeza. Shukracharya amava Devayani mais do que a si próprio. Depois de esperar muito pelo retorno de sua filha que tinha ido brincar com suas amigas, ele mandou uma mulher procurar por ela.

A mensageira conseguiu encontrá-la finalmente depois de uma cansativa busca perto da árvore onde estava sentada em depressão, com os olhos vermelhos de raiva e mágoa. Ela perguntou o que tinha acontecido.

Devayani disse: "Amiga, vá imediatamente e diga a meu pai que nunca mais pisarei na capital de Vrishaparva", e a mandou de volta a Shukracharya.

Extremamente afligido pela triste situação de sua filha, Shukracharya foi rapidamente ao seu encontro.

Ele a abraçou e disse: "É por causa de suas próprias ações, boas ou más, que as pessoas ficam felizes ou infelizes. As virtudes e vícios dos outros não nos afetarão nem um pouco". Assim tentou consolar sua filha com essas palavras sábias.

Ela respondeu com tristeza e rancor: "Pai, deixe meus méritos e falhas de lado pois são da minha conta. Mas me diga se está certo quando Sarmishtha, a filha de Vrishaparva, disse que você é simplesmente um menestrel que canta odes para reis? Ela me chamou de filha dum mendigo que vive das esmolas ganhas com adulação. E não satisfeita com esse ultraje arrogante, ela me esbofeteou e me empurrou dentro dum poço aqui perto. Não posso mais permanecer em mais nenhum território do pai dela". E Devayani começou a chorar.

Shukracharya defendeu-se com orgulho e disse: "Devayani, você não é filha dum menestrel da corte. Seu pai não vive às custas de adulação. Você é filha de alguém que é reverenciado por todo o mundo. Indra, o rei dos deuses, sabe disso, e Vrishaparva não ignora a dívida que tem comigo. Mas nenhuma pessoa digna exalta seus próprios méritos, e não vou dizer mais nada a meu respeito. Levante-se, você é uma jóia sem igual entre as mulheres, que traz prosperidade à sua família. Seja paciente. Vamos voltar para casa".

Bhagavan Vyasa ensina a humanidade nessa passagem com as seguintes palavras de recomendação ditas por Shukracharya à sua filha:

"A pessoa que conquista o mundo é aquela que supera o abuso de seus vizinhos. Aquela que controla sua ira é como um cavaleiro que domina um cavalo indomado, o verdadeiro condutor e não apenas aquele que segura as rédeas mas deixa o cavalo ir para onde quer. Aquela que desprende sua ira como a serpente o lamaçal, é a verdadeira heroína. Aquela que não se perturba apesar dos maiores tormentos impostos por outros, realizará seu objetivo. Aquela que nunca fica irada é superior ao ritualista que executa perfeitamente e com fervor durante cem anos os sacrifícios ordenados nas escrituras. Servos, amigos, irmãos, cônjuges, filhos, virtude e verdade abandonam a pessoa que dá vazão à sua ira. A pessoa sábia não leva em conta as palavras de moças e rapazes".

Devayani disse a seu pai com humildade: "Eu sou realmente uma menina, mas acho que não tão jovem para se beneficiar com essa grande verdade ensinada por você. Mesmo assim, não é próprio viver com pessoas sem senso de decência e decoro. A pessoa sábia não fica na companhia daqueles que falam mal de sua família. Não importa o quanto sejam ricas, pessoas mal-educadas são as verdadeiras chandalas (párias) sem classe. As virtuosas não devem se misturar com elas. Minha mente arde com a ira provocada pelos insultos da filha de Vrishaparva. As feridas causadas por armas podem cicatrizar com o tempo, queimaduras se curam gradualmente, mas feridas causadas por palavras permanecem doloridas durante toda a vida".

Shukracharya foi até Vrishaparva e com os olhos fixos bem sério disse:

"Rei, apesar dos pecados da pessoa não serem punidos imediatamente, é certo que mais cedo ou mais tarde vão destruir o gérmen da prosperidade. Kacha, o filho de Brihaspati, era um brahmachari que conquistou seus sentidos e nunca cometeu nenhum pecado. Ele me serviu com fidelidade e nunca se desviou do caminho da virtude. Seus assessores tentaram matá-lo. Eu tolerei isso. Minha filha, que tem sua honra elevada, teve que ouvir palavras de desonra pronunciadas por sua filha. Além disso, ela foi empurrada dentro de um poço por sua filha. Ela não pode mais permanecer em seu reino. Sem ela, eu também não posso mais viver aqui. Portanto, eu vou embora do seu reino".

O rei dos asuras ficou muito aborrecido ao ouvir essas palavras e disse: "Eu não sabia dessas acusações postas em minha porta. Se você me abandonar, vou entrar no fogo e morrer".

Shukracharya respondeu: "Eu me importo mais com a felicidade da minha filha do que o destino de você e dos seus asuras, pois ela é aquilo que eu mais prezo e amo, muito mais do que minha própria vida. Se você conseguir apaziguá-la, então ficará tudo bem. De outro modo, eu irei embora".

Vrishaparva e seu séqüito foram até a árvore onde Devayani ficou e atiraram-se a seus pés em súplica.

Devayani era teimosa e disse: "Sarmishtha disse que eu sou filha dum mendigo por isso deve ser minha serviçal e me obedecer na casa onde meu pai me der em casamento".

Vrishaparva consentiu e pediu a seus auxiliares para trazerem sua filha Sarmishtha.

Sarmishtha reconheceu seu erro e ajoelhou-se em submissão. Ela disse: "Seja como minha companheira Devayani deseja. Meu pai não deve perder seu preceptor por um erro cometido por mim. Eu serei sua serva". Devayani foi acalmada e voltou para a casa de seu pai.

Numa outra ocasião, Devayani encontrou-se com Yayati, e repetiu seu pedido de que ele deveria se casar com ela pois tinha pegado em sua mão direita. Yayati repetiu sua objeção de novo, pois um kshatriya como ele não podia se casar legalmente com uma brahmana. Finalmente, ambos foram a Shukracharya e pediram seu consentimento para o casamento. Esse foi um exemplo de casamento pratiloma que aconteceu num caso excepcional. Os shastras sem dúvida prescrevem o que é direito e proíbem o que é errado mas um casamento que se tornou efetivo não pode ser invalidado.

Yayati e Devayani passaram muitos dias felizes. Sarmishtha ficou como criada dela. Num dia, Sarmishtha se encontrou com Yayati em segredo e pediu-lhe com insistência para ser sua esposa também. Ele atendeu ao pedido dela e se casaram sem o conhecimento de Devayani.

Mas Devayani descobriu e naturalmente ficou muito brava. Ela foi reclamar com seu pai, e Shukracharya aborrecido amaldiçoou Yayati com velhice prematura.

Yayati assim atacado com senilidade bem no auge de sua masculinidade, suplicou com humildade pelo perdão de Shukracharya, que não tinha esquecido do salvamento de Devayani no poço, e por fim cedeu.

Ele disse: "Salve rei, você perdeu a glória da juventude. A maldição não pode voltar atrás, mas se conseguir convencer alguém a trocar sua juventude com sua velhice, a troca será efetiva". Assim, ele abençoou Yayati e se despediu.



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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 26 Jul 2009, 01:09

Capítulo 7

Yayati

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Yayati salvando Devayani

O imperador Yayati foi um dos ancestrais dos Pandavas. Ele não conhecia derrota. Seguia as instruções das Escrituras Sagradas (shastras), adorava os deuses e venerava seus ancestrais com devoção intensa. Ele ficou famoso como um governante dedicado ao bem-estar de seus súditos.

Mas como foi dito antes, ele ficou velho prematuramente devido à maldição de Shukracharya, por ter enganado sua esposa Devayani. Nas palavras do poeta do Mahabharata:

"Yayati alcançou a velhice que destrói a beleza e traz sofrimento". Não é necessário descrever o sofrimento da juventude seca de repente pela idade, onde os horrores da perda são acentuados pelas dores da recordação.

Yayati, que se viu velho de súbito, ainda era perseguido pelo desejo do prazer sensual. Ele teve cinco filhos lindos, todos virtuosos e realizados. Yayati os chamou e apelou comoventemente pela afeição deles:

"A maldição de seu avô Shukracharya me fez velho sem esperar e prematuramente. Eu não satisfiz as alegrias de minha vida. E por não saber o que me aguarda, vivo uma vida de restrição, até me nego aos prazeres permitidos. Um de vocês tem que carregar o peso da minha velhice e me dar sua juventude em troca. Aquele que concordar com isso e me conceder sua juventude será o soberano do meu reino. Eu desejo aproveitar a vida com o vigor total da juventude".

Ele perguntou primeiro ao filho mais velho. Esse filho respondeu: "Salve grande rei, mulheres e servos zombarão de mim caso eu aceite sua velhice. Eu não posso suportar isso. Peça aos meus irmãos mais novos que são muito mais queridos por você do que eu mesmo".

Quando perguntou ao segundo filho, ele se recusou polidamente com essas palavras: "Pai, você me pede para aceitar a velhice que destrói não apenas o vigor e a beleza mas também, como posso perceber, a sabedoria. Não sou forte o bastante para tal".

O terceiro filho respondeu: "Um homem velho não pode montar um cavalo ou um elefante. Sua voz falha. Que poderei fazer nesse estado lastimável? Eu não posso concordar".

O rei ficou bravo e desapontado com seus três filhos que se negaram a atender seu pedido, mas tinha esperança de uma resposta melhor com seu quarto filho, a quem ele disse: "Você tem que aceitar a minha velhice. Se você trocar sua juventude comigo, eu a devolverei a você depois de algum tempo e aceitarei a velhice de volta com a qual eu fui amaldiçoado".

O quarto filho implorou para ser perdoado pois isso era algo que ele não poderia consentir de jeito nenhum. Um idoso precisa da ajuda de outros até para manter seu corpo limpo, uma situação muito penosa. Não, ele amava muito seu pai mas não podia fazer isso.

Yayati ficou muito triste com a recusa dos quatro filhos. Ainda assim, sem perder a esperança, ele suplicou ao seu último filho que nunca tinha se oposto a nenhum pedido seu: "Você tem que me salvar. Sofro demais com esta velhice e suas rugas, debilidade e cabelos grisalhos como resultado da maldição de Shukracharya. É uma condenação muito penosa. Se você aceitar para si todas essas debilidades, eu aproveitarei a vida só um pouco mais e devolverei sua juventude, assim reassumirei minha velhice e todos seus pesares. Rogo que você não recuse como seus irmãos mais velhos fizeram".

Puru, o filho caçula, comovido pelo amor filial, disse: "Pai, eu dou a você com muita alegria minha juventude para aliviá-lo dos pesares da velhice e dos cuidados requeridos por esse estado. Seja feliz".

Ao ouvir essas palavras, Yayati o abraçou. No momento em que tocou seu filho, Yayati se tornou jovem. Puru, que aceitou a velhice de seu pai, governou o reino e obteve grande renome. Yayati aproveitou a vida por muito tempo, e não satisfeito, foi por último ao jardim de Kuvera onde passou muitos anos com uma jovem apsara (dançarina celestial).

Depois de longos anos gastos com esforços em vão para saciar o desejo pela indulgência, ele caiu na real.

Ao reencontrar Puru, ele disse: "Querido filho, o desejo sensual nunca se sacia com a indulgência, assim como o fogo alimentado com ghi (óleo de manteiga). Eu ouvi sobre isso, e li sobre isso, mas até agora, não tinha realizado. Nenhum objeto de desejo, milho, ouro, gado, mulheres, nada disso nunca satisfaz o desejo duma pessoa. Nós só alcançamos a paz com o equilíbrio mental em relação a gostos e aversões. Assim é o estado brahman (auto-realização). Pegue sua juventude de volta e governe bem o reino com sabedoria e bondade".

Com essas palavras, Yayati reassumiu sua velhice. Puru, que recobrou sua juventude, foi coroado rei por Yayati, que se retirou para a floresta. Ele passou seu tempo lá em vida austera, e no devido curso, alcançou o céu.
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 30 Ago 2009, 22:45

Capítulo 8

Vidura

O sábio Mandavya, que adquiriu poder mental e conhecimento das escrituras, passou seus dias em penitência e na prática da verdade.

Ele vivia num ashrama (retiro espiritual) na floresta perto da cidade. Certo dia, ele estava absorto em contemplação silenciosa na sombra de uma árvore fora de sua cabana de folhas, quando os soldados do rei perseguiam um bando de ladrões que fugia pela floresta.

Os fugitivos entraram no ashrama pois acharam que era um lugar conveniente para se esconderem. Eles puseram o saque num canto e se esconderam. Os soldados do rei chegaram no ashrama pelo rastro deles.

O comandante dos soldados perguntou a Mandavya, enlevado na profunda meditação, em tom imperioso: "Você viu os ladrões passarem? Para onde eles foram? Responda logo para podermos persegui-los e capturá-los".

O sábio, absorto no yoga, permaneceu em silêncio. O comandante repediu a pergunta com insolência. Mas o sábio não ouviu nada. Nesse meio tempo, alguns soldados entraram no ashrama e descobriram os bens roubados escondidos ali. Assim, avisaram o comandante. Todos entraram e acharam os bens roubados e os ladrões escondidos.

O comandante pensou: "Agora sei porque o brahmana fingiu ser um sábio silencioso. Ele é na verdade o chefe desses ladrões. Ele que liderou esse assalto". Então, ordenou que seus soldados guardassem o local, e foi contar ao rei que o sábio Mandavya foi pego com os bens roubados.

O rei ficou muito bravo com a audácia do chefe dos ladrões que vestiu o hábito dum sábio brahmana, para enganar as pessoas. Sem parar para verificar os fatos, ele ordenou que o terrível criminoso, como supunha, fosse empalado.

O comandante voltou ao retiro, empalou Mandavya e levou os objetos roubados para o rei.

O sábio virtuoso, apesar de empalado numa lança, não morreu. Por ele estar em yoga quando foi empalado, permaneceu vivo pelo poder do yoga. Sábios que viviam em outras partes da floresta chegaram em seu retiro e perguntaram a Mandavya como ele ficou nessa situação terrível.

Mandavya respondeu: "Quem devo culpar? Os servidores do rei, que protege o mundo, que me infligiram este castigo".

O rei ficou surpreso e aterrorizado quando soube que o sábio empalado ainda estava vivo e que havia outros sábios em volta dele na floresta. Ele foi com pressa para a floresta com seus servidores e ordenou que o sábio fosse tirado da lança imediatamente. Então, ele se prostrou a seus pés e implorou humildemente para ser perdoado pela ofensa cometida involuntariamente.

Mandavya não estava com raiva do rei. Ele foi direto a Dharma, o juiz divino, que estava sentado em seu trono, e perguntou a ele: "Que crime cometi para merecer essa tortura"?

O senhor Dharma (também conhecido como Yamaraja ou Dharmaraja, semideus encarregado da punição), que conhecia o grande poder do sábio, respondeu com toda a humildade: "Salve sábio. Você torturou pássaros e abelhas. Você não sabe que todas ações, boas ou más, mesmo pequenas, produzem seu resultado inevitavelmente, bom ou mau"?

Mandavya ficou surpreso com a resposta do deus Dharma e perguntou: "Quando cometi essa ofensa"? O senhor Dharma respondeu: "Quando você era criança".

Mandavya então proferiu uma maldição para Dharma: "Essa punição que você decretou está muito além dos limites para um erro cometido por uma criança em ignorância. Portanto, nasça como um mortal no mundo".

O senhor Dharma assim amaldiçoado pelo sábio Mandavya encarnou como Vidura que nasceu filho da criada de Ambalika, esposa de Vichitravirya, com ele.

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A intenção desse episódio é mostrar que Vidura é encarnação de Dharma. As personalidades ilustres deste mundo consideram Vidura um mahatma que é inigualável em seu conhecimento sobre dharma, shastras e ciência política, bem como totalmente livre de apego e ira. Bhisma o nomeou conselheiro chefe do rei Dhritarastra, quando ainda era adolescente.

Vyasa afirmou que ninguém nos três mundos pode se igualar a Vidura em virtude e conhecimento. Quando Dhritarastra permitiu o jogo de dados, Vidura caiu a seus pés e protestou solenemente: "Ó rei e senhor, não posso aprovar essa ação. A rivalidade se estabelecerá entre seus filhos como resultado. Imploro, não permita isso".

Dhritarastra tentou dissuadir seu filho malévolo de várias formas. E lhe disse: "Não continue com esse jogo. Vidura não o aprova, o sábio Vidura de intelecto sublime que sempre deseja o nosso bem-estar. Ele diz que o jogo se destina a produzir um ódio aterrador que nos consumirá bem como o nosso reino".

Mas Duryodhana não atendeu a esse conselho. Levado pelo louco afeto por seu filho, Dhritarastra rendeu-se à vontade dele e enviou a Yudhisthira o convite fatal para o jogo.
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 31 Ago 2009, 23:46

Capítulo 9

Kunti Devi

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Shura, o avô de Sri Krishna, era um ilustre descendente da dinastia Yadava. Sua filha Pritha era famosa por sua beleza e virtudes. Seu primo Kuntibhoja não tinha filhos, por isso Shura deu sua filha Pritha em adoção a ele. A partir daí, ela ficou conhecida como Kunti, devido ao nome de seu pai adotivo.

Quando Kunti era uma menina, o sábio Durvasa ficou por um tempo hospedado como convidado na casa de seu pai, e ela o serviu durante um ano com todo cuidado, paciência e devoção. Ele ficou tão agradecido a ela que lhe deu de presente um mantra divino. Ele disse: "Se você chamar qualquer semideus e pronunciar este mantra, ele se manifestará perante você e a abençoará com um filho igual a ele em glória".

Ele deu a ela essa bênção pois havia previsto com seu poder de yoga o infortúnio que estava reservado para seu futuro marido.

A curiosidade impaciente da juventude fez Kunti testar a veracidade e eficácia do mantra, assim ao pronunciá-lo invocou o deus do Sol, quem ela viu a brilhar no céu. Imediatamente, o céu ficou encoberto com nuvens escuras, que serviram de cobertura para o deus do Sol se aproximar da linda princesa Kunti, e ficou em pé diante dela a admirá-la com a alma ardente. Kunti, encantada com a gloriosa visão do visitante em sua frente, perguntou: "Salve senhor, quem é o senhor"?

O Sol respondeu: "Querida donzela, eu sou o Sol. Fui trazido aqui pelo encanto do mantra gerador de filho que você pronunciou".

Kunti estava aterrorizada e disse: "Sou uma menina não casada dependente de meu pai. Não estou preparada para ser mãe e não quero isso. Eu só queria testar o poder da bênção que me foi concedida pelo sábio Durvasa. Por favor, vá embora e perdoe essa minha tolice infantil". Mas o deus do Sol não podia voltar atrás por causa do poder do mantra sobre ele. Ela, do seu lado, estava apavorada de ser condenada pela sociedade. O deus do Sol entretanto a assegurou: "Você nunca será culpada. Após gerar meu filho, você recuperará sua virgindade".

Kunti engravidou pela graça do deus do Sol, quem concede luz e vida para o mundo. Nascimentos divinos acontecem imediatamente sem os nove meses da gestação mortal.

Ela deu à luz Karna que nasceu com armadura e brincos divinos, e era brilhante e belo como o Sol. Mais tarde, ele se tornou um dos maiores heróis do mundo. Depois que a criança nasceu, Kunti ficou virgem de novo como resultado da bênção concedida pelo Sol.

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Ela pensou muito no que fazer com a criança. Para esconder seu erro, ela pôs a criança numa caixa selada e colocou-a para flutuar no rio. Aconteceu que um cocheiro sem filhos viu a caixa flutuante e a pegou, assim quando abriu, ficou surpreso e muito feliz ao encontrar dentro uma criança deslumbrantemente bela. Ele a levou para sua esposa que derramou todo seu amor de mãe sobre a criança. Assim Karna, o filho do deus do Sol, teve o destino de ser criado como filho dum cocheiro.

Quando chegou a época de Kunti se casar, Kuntibhoja convidou todos os príncipes da vizinhança para o swayamvara pois a princesa era muito famosa por sua extrema beleza e virtude. Kunti colocou o colar de flores no pescoço do rei Pandu, o ilustre representante da dinastia Bharata, cuja personalidade encobria o brilho de todos os outros príncipes presentes. O casamento foi devidamente solenizado e ela acompanhou seu esposo à sua capital Hastinapura.


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Rainha Kunti e Pandu por Riwayat Berkas

Com o conselho de Bhisma e conforme o costume da época, Pandu se casou com sua segunda esposa Madri, irmã do rei de Madra. Antigamente, os reis se casavam com duas ou três esposas para assegurarem a progênie e não meramente para o prazer sensual.

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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 07 Out 2009, 23:46

Capítulo 10

A Morte de Pandu

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Certo dia, o rei Pandu saiu para caçar. Um sábio e sua esposa também se divertiam na floresta e assumiram a forma de um casal de cervos. Pandu atirou uma flecha no macho, em ignorância do fato que era um sábio disfarçado. Com o ferimento mortal, o rishi amaldiçoou Pandu dessa forma: "Pecador, você encontrará a morte no momento em que saborear os prazeres da cama".

Pandu ficou arrasado com essa maldição e se retirou para a floresta com suas esposas depois de confiar seu reino a Bhisma e Vidura, e lá viveu uma vida de plena abstinência.

Kunti percebeu que Pandu desejava ter filhos, mas estava impedido devido à maldição do rishi sobre ele, então lhe contou a história do mantra que recebeu de Durvasa. Ele ordenou imediatamente a Kunti e Madri que usassem o mantra, e foi assim que os cinco Pandavas nasceram dos deuses com Kunti e Madri.

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Eles nasceram e foram criados na floresta entre os ascetas. O rei Pandu viveu por muitos anos na floresta com suas esposas e filhos. Numa certa primavera, Pandu e Madri se esqueceram de seus pesares no arrebatamento da atração com a vida excitante em volta deles, as flores vibrantes, o verde, os pássaros e outras criaturas da floresta.

Apesar dos intensos e repetidos protestos de Madri, a determinação de Pandu se esgotou devido à encantadora influência da estação, e a maldição do sábio fez efeito de imediato, assim Pandu caiu, morto.

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Madri não pode conter o seu pesar. E por se sentir responsável pela morte do rei, entrou na pira de seu esposo e se queimou, após implorar a Kunti para ficar e ser a mãe de seus dois gêmeos órfãos.

Os sábios da floresta levaram Kunti e os Pandavas desolados e em luto para Hastinapura e os confiaram a Bhisma.

Yudhisthira tinha dezesseis anos nessa época. Quando os sábios chegaram em Hastinapura e relataram a morte de Pandu na floresta, todo o reino foi tomado de tristeza. Vidura, Bhisma, Vyasa, Dhritarastra e outros executaram os rituais de funeral.

Todas as pessoas do reino lamentaram como uma perda pessoal. Vyasa disse a Satyavati, a avó: "O passado se foi de forma agradável, mas o futuro tem muita tristeza reservada. O mundo passou sua juventude como um sonho alegre e agora vai entrar em desilusão, pecado, tristeza e sofrimento. O tempo é inexorável. Você não precisa esperar para ver os sofrimentos e infortúnios que acontecerão com esta dinastia. O melhor para você é sair da cidade e passar o resto de seus dias em retiro na floresta". Satyavati concordou e foi para a floresta com Ambika e Ambalika. Essas três rainhas idosas passaram do ascetismo santo para as regiões superiores da bem-aventurança e se pouparam dos pesares de seus filhos.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 09 Out 2009, 23:52

Capítulo 11

Bhima

Os cinco filhos de Pandu e os cem filhos de Dhritarastra cresceram com alegria e diversão em Hastinapura. Bhima excedia todos em força física. Ele costuma maltratar Duryodhana e os outros Kauravas, batia neles e os arrastava pelo cabelo.

Grande nadador, ele mergulhava, nos lagos, com um ou mais deles imobilizados em seus braços, e ficava no fundo até eles quase se afogarem. Quando eles subiam numa árvore, ele ficava no chão e chacoalhava a árvore até fazê-los cair como frutas maduras.

Os corpos dos filhos de Dhritarastra estavam sempre doloridos com machucados em resultado das brincadeiras físicas de Bhima. Não é para menos que os filhos de Dhritarastra desenvolveram um ódio profundo por Bhima desde a infância.

Durante o crescimento dos príncipes, Kripacharya lhes ensinou a arte do arco e flecha, as artes marciais e outras que os príncipes devem saber. A inveja de Duryodhana em relação a Bhima deturpou sua mente e o fez cometer muitos atos impróprios.

Duryodhana estava muito preocupado. Seu pai era cego, por isso o reino foi governado por Pandu. Quando ele morrer, Yudhisthira, o herdeiro legítimo, seria o rei em seguida. Duryodhana pensou que como seu pai cego era muito incapaz, tinha que prevenir a ascensão de Yudhisthira ao trono, e idealizou um plano para matar Bhima.

Ele organizou o esquema para executar sua decisão, pois achava que o poder dos Pandavas se reduziria com a morte de Bhima.

Duryodhana e seus irmãos planejaram afogar Bhima no Ganges, aprisionar Arjuna e Yudhisthira, então tomar o reino e assumirem o governo. Assim, Duryodhana foi com seus irmãos e os Pandavas para nadarem no Ganges.

Depois das brincadeiras esportivas, eles dormiram em suas tendas, exaustos. Bhima tinha excedido mais que os outros e como sua comida foi envenenada, sentiu-se sonolento e adormeceu na margem do rio. Duryodhana o amarrou com cipós silvestres e o jogou no rio.

O malévolo Duryodhana preparou o local com vários cravos pontiagudos implantados no leito do rio. Isso feito de propósito para que Bhima fosse empalado nos cravos ao cair no fundo, e perdesse sua vida. Felizmente, não tinha nenhum cravo no lugar onde Bhima caiu. Cobras-d'água venenosas picaram seu corpo.

O efeito do veneno que ele ingeriu com a comida foi anulado pelo veneno das serpentes e Bhima não sofreu mal nenhum, e depois, o rio o jogou de volta para a margem.

Duryodhana pensou que Bhima tinha morrido quando foi jogado no rio infestado de serpentes venenosas e cheio de cravos. Assim, ele voltou para a cidade com o resto do grupo em grande alegria.

Quando Yudhisthira perguntou sobre o paradeiro de Bhima, Duryodhana disse que ele veio antes deles para a cidade.

Yudhisthira acreditou em Duryodhana e logo que chegou em casa, perguntou à sua mãe se Bhima estava lá.

Sua pergunta ansiosa teve a resposta de que Bhima não tinha voltado ainda, o que fez Yudhisthira suspeitar de alguma brincadeira de mau gosto feita contra seu irmão. Então, voltou para a floresta com seus irmãos e procuraram em toda parte. Mas não conseguiram encontrar Bhima. Voltaram para casa com muita tristeza.

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Algum tempo depois, Bhima acordou e caminhou vagaroso de volta para casa. Kunti e Yudhisthira o receberam e abraçaram com muita alegria. Em conseqüência do veneno que entrou em seu organismo, Bhima ficou mais forte do que antes.

Kunti procurou Vidura e lhe contou em segredo:

"Duryodhana é mau e cruel. Ele tentou matar Bhima pois deseja governar o reino. Estou preocupada".

Vidura respondeu: "O que você disse é verdade, mas mantenha seus pensamentos para si mesma. Pois se o malévolo Duryodhana for acusado ou culpado, sua ira e ódio só aumentarão. Seus filhos são abençoados com vida longa. Você não precisa ter medo por causa disso".

Yudhisthira também avisou Bhima e disse: "Mantenha o silêncio sobre esse assunto. De agora em diante, temos que ser cautelosos e nos cuidar, e nos proteger".

Duryodhana ficou surpreso de ver Bhima voltar vivo. Sua inveja e ódio aumentaram. Ele lamentou profundamente e saiu a reclamar.
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 11 Out 2009, 23:31

Capítulo 12

Karna

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karna, filho da Rainha Kunti e irmão de Arjuna.

Os Pandavas e os Kauravas aprenderam as artes militares primeiro com Kripacharya e depois com Drona. Certo dia, foi marcado um teste para a exibição de suas habilidades com o uso das armas na presença da família real, bem como do público que foi convidado para assistir o desempenho de seus amados príncipes. Tinha uma grande multidão muito entusiasmada.

Arjuna demonstrou habilidade sobre-humana com suas armas e o grande público ficou arrebatado com admiração e afeição. A fronte de Duryodhana ficou escura de inveja e ódio.

Perto do final do dia, ouviu-se de repente um som que vinha da entrada da arena, alto e forte como um trovão, o som produzido pelo bater de braços poderosos em desafio. Todos os olhos se voltaram para aquela direção. Eles viram entrar através da multidão, que abriu caminho em silêncio temeroso, um jovem divino de quem parecia emanar luz e poder. Ele olhava orgulhoso em sua volta, fez um cumprimento negligente a Drona e Kripa, e andou firme em direção a Arjuna. Os irmãos, sem saberem, pela amarga ironia do destino, de seu sangue comum, estavam face a face, pois era Karna.

Karna se dirigiu a Arjuna com a voz tão profunda como um trovão estrondoso: "Arjuna, vou demonstrar muito mais habilidade do que você".

Com a permissão de Drona, Karna, o amante da guerra, ali mesmo na frente do público, duplicou todos os feitos de Arjuna com grande facilidade. A excitação de Duryodhana foi grande. Ele se atirou com seus braços em volta de Karna e disse: "Bem-vindo! Salve você de braços poderosos, quem a boa fortuna nos enviou. Eu e este reino dos Kurus estamos sob seu comando".

Karna disse: "Eu, Karna, sou muito grato, ó rei. Eu só desejo duas coisas, o seu amor e um combate individual com Partha (Arjuna)".

Duryodhana apertou Karna novamente contra seu peito e disse: "Minha prosperidade é toda para o seu prazer".

Enquanto o coração de Duryodhana derramava amor, uma fúria mortal preencheu Arjuna, que se sentiu afrontado. Ele mirou Karna seriamente, que estava em pé, firme como o pico de uma montanha, e recebia as saudações dos irmãos Kauravas, e disse: "Ó Karna, vou matá-lo imediatamente e enviá-lo para o inferno reservado aos intrusos não convidados e tagarelas inconvenientes".

Karna deu uma risada sarcástica: "Esta arena está aberta para todos, ó Arjuna, e não só para você. Poder é a sanção da soberania e a lei se baseia nisso. Mas o que adianta só falar, que é a arma dos fracos? Atire flechas em vez de palavras".

Assim desafiado, Arjuna, com a permissão de Drona, abraçou seus irmãos com pressa e se posicionou pronto para o combate. Enquanto Karna, deixou a companhia dos irmãos Kurus e o confrontou com a arma em punho.

Os pais divinos dos heróis tentaram encorajar sua prole e testemunhar esse combate mortal, assim Indra, o senhor das nuvens de raios, e Bhaskara, com seus raios infinitos, apareceram no céu ao mesmo tempo.

Quando viu Karna, Kunti o reconheceu como seu primeiro filho e desmaiou. Vidura pediu para as amas cuidarem dela, e assim que acordou., ficou tomada de angústia, sem saber o que fazer.

Quando estavam prestes a iniciar o combate, Kripa, conhecedor das regras de combate individual, parou entre os dois e se dirigiu a Karna:

"Este príncipe, que está pronto para lutar com você, é filho de Pritha e Pandu, e descendente da dinastia Kuru. Revele, ó de braços poderosos, sua ascendência e dinastia descendente que tornam ilustre o seu nascimento. Partha só poderá lutar com você depois de saber a sua linhagem, pois os príncipes com alto nascimento não podem entrar em combates individuais com qualquer aventureiro desconhecido".

Ao ouvir essas palavras, Karna abaixou sua cabeça como as pétalas duma flor de lótus sob o peso da água da chuva.

Duryodhana se levantou de imediato e disse: "Se o combate não pode acontecer só porque Karna não é um príncipe, isso pode ser solucionado facilmente. Eu corôo Karna como rei de Anga". Então, com o consentimento de Bhisma e Dhritarastra, realizou todos os ritos necessários e nomeou Karna soberano do reino de Anga, e lhe deu a coroa, as jóias e outras insígnias reais.

Naquele momento, quando o combate entre os jovens heróis parecia que ia começar, o velho cocheiro, Adhiratha, que era o pai adotivo de Karna, entrou na arena, com o bastão na mão e tremia de medo.

Logo que o viu, Karna, o recém coroado rei de Anga, abaixou sua cabeça e se ajoelhou em humildade com toda a reverência filial. O homem idoso o chamou de filho, abraçou-o com seus braços magros e trêmulos, e chorou de alegria com lágrimas de amor que molharam sua cabeça já úmida pela água da coroação.

Ao ver isso, Bhima bramiu uma risada alta e gritou: "Ó vejam, ele é só o filho dum cocheiro! Pegue o chicote de condutor que condiz com a sua ascendência. Você não é digno de ser morto pelas mãos de Arjuna. Nem deve governar Anga como um rei".

Com essa fala ultrajante, os lábios de Karna tremeram de angústia e sem fala, olhou em direção ao sol poente com um profundo suspiro.

Mas Duryodhana interrompeu indignado:

"Ó Vrikodara (Bhima), você é injusto ao falar assim. O valor é a marca de um kshatriya. Nem tem sentido delinear grandes heróis e grandes rios por suas origens. Posso citar muitos exemplos de grandes personalidades de nascimento humilde e eu sei que há dúvidas estranhas sobre a sua própria origem. Olhe para esse guerreiro, sua bela forma e porte, sua armadura e brincos, e sua habilidade com as armas. Claro que existe um mistério em relação a ele. Como pode um tigre nascer de um antílope? Você disse que ele não é digno de ser o rei de Anga? Eu acho que ele é capaz para governar o mundo inteiro".

Com uma fúria generosa, Duryodhana levou Karna em sua quadriga e partiu.

O Sol se pôs e a multidão se dispersou com tumulto. Vários grupos discutiam sob a luz de lâmpadas, alguns glorificavam Arjuna, outros, Karna, e outros ainda, Duryodhana, conforme suas predileções.

Indra previu que um combate final seria inevitável entre seu filho Arjuna e Karna. Assim, assumiu a forma de um brahmana e foi se encontrar com Karna, que tinha reputação de caridoso, e lhe pediu de esmola seus brincos e armadura. O deus do Sol já tinha avisado Karna num sonho que Indra tentaria enganá-lo dessa forma.

Mesmo assim, Karna não conseguia recusar nenhum presente que lhe fosse pedido. No mesmo instante, cortou os brincos e a armadura que nasceram com ele e lhes deu ao brahmana.

Indra, o rei dos deuses, ficou muito surpreso e feliz. Depois de aceitar o presente, elogiou Karna por ter feito o que ninguém mais faria, e envergonhado com generosidade, disse a Karna para pedir qualquer bênção que desejasse.

Karna respondeu: "Eu desejo obter a sua arma, a Shakti, que tem o poder de matar os inimigos". Indra concedeu a bênção, mas com uma condição fatídica, ele disse: "Você poderá usar esta arma contra um só inimigo apenas, e ela matará quem quer que ele seja. Mas depois dessa morte, esta arma não estará mais à sua disposição e retornará a mim". Ao dizer essas palavras, Indra desapareceu.

Karna foi até Parashurama e se tornou seu discípulo pois fingiu ser um brahmana para ele. Ele aprendeu com Parashurama o mantra para usar a arma suprema conhecida como brahmastra.

Certo dia, Parashurama estava deitado com a cabeça encostada no colo de Karna quando um verme escavador entrou dentro da coxa de Karna. Começou a sangrar e a dor era terrível. Mas Karna agüentou tudo sem mesmo tremer pois não queria perturbar o descanso de seu mestre. Parashurama acordou e viu o sangue que tinha escorrido da ferida.

Ele disse: "Caro aluno, você não é um brahmana. Só um kshatriya consegue ficar imóvel sob tortura física. Diga-me a verdade".

Karna confessou que mentiu ao se apresentar como brahmana e que de fato era filho dum cocheiro.

Parashurama com sua ira pronunciou a seguinte maldição para ele: "Porque você enganou seu guru, a brahmastra que você aprendeu vai falhar no momento fatal. Você não será capaz de lembrar o mantra quando chegar a sua hora".

Foi por causa dessa maldição, quando entrou em crise na sua última luta com Arjuna, que Karna não conseguiu lembrar do encanto da brahmastra, apesar de ter lembrado até o momento. Karna se tornou amigo fiel de Duryodhana e permaneceu leal aos Kauravas até o fim.

Depois da morte de Bhisma e Drona, Karna se tornou o líder do exército Kaurava e lutou com muito brilho por dois dias. No fim, a roda de sua quadriga ficou presa na lama, e teve de abandoná-la pois não conseguiu desatolar. E nessa situação, Arjuna o matou. Kunti ficou muito amargurada, e com muito remorso por ter escondido a verdade até então.
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