A Provação de Draupadi
Prathikami foi até Draupadi como ordenado por seu mestre. Ele disse a ela: "Ó venerável princesa, Yudhisthira caiu no encanto do jogo de dados e apostou e perdeu até você. Agora você pertence a Duryodhana. Eu vim pela ordem de Duryodhana para levá-la à sua casa para servir como empregada doméstica, onde será o seu emprego doravante".
Draupadi, a esposa do imperador que realizou o Rajasuya, estava pasmada, com essa mensagem estranha. Ela perguntou: "Prathikami, o que você disse? Que príncipe apostaria sua mulher? Ele não tem mais nada para empenhar"?
Prathikami respondeu: "É porque ele já perdeu todas as outras propriedades e como não sobrou nada, ele jogou e ofereceu você como aposta".
Então, ele contou toda a história de como Yudhisthira perdeu toda sua riqueza e a apostou no fim, depois de perder primeiro seus irmãos e si mesmo.
Apesar da notícia ser suficiente para quebrar o coração e matar a alma, mesmo assim, Draupadi recuperou logo sua firmeza, e com um clarão de fúria nos olhos, disse: "Ó cocheiro, volte. Pergunte a ele que jogou o jogo se perdeu primeiro ele mesmo, ou sua esposa. Faça essa pergunta aberta na assembléia. Volte com sua resposta e depois poderá me levar".
Prathikami foi até a assembléia e, voltado para Yudhisthira, fez a ele a pergunta de Draupadi.
Yudhisthira ficou sem fala.
Então Duryodhana mandou Prathikami trazer Panchali em pessoa para perguntar ao seu marido. Prathikami voltou até Draupadi e disse com humildade: "Princesa, o malévolo Duryodhana deseja que você vá para a assembléia e faça a sua pergunta pessoalmente".
Draupadi respondeu: "Não. Volte à assembléia, faça a pergunta e exija uma resposta".
Prathikami fez assim.
Enfurecido, Duryodhana se voltou a seu irmão Dushasana e disse: "Este homem é um tolo e está com medo de Bhima. Vá e traga Draupadi mesmo se tiver que arrastá-la até aqui".
Assim ordenado, o malvado Dushasana partiu de imediato com alegria para sua missão. Ele foi até o palácio onde Draupadi estava, e gritou: "Venha, por que você demora? Agora você é nossa. Não seja tímida, bela mulher. Seja agradável conosco, agora que foi conquistada por nós. Venha para a assembléia" e com sua impaciência, ele ameaçou pegá-la à força.
Panchali se levantou trêmula, com o coração perfurado de tristeza, e tentou fugir em refúgio nos aposentos internos da rainha de Dhritarastra. Dushasana foi atrás dela, pegou-a pelos cabelos e a arrastou até a assembléia.
É com arrepio de repugnância que narramos como os filhos de Dhritarastra se rebaixaram para cometer o mais vil de todos os atos.
Logo que chegou na assembléia, Draupadi controlou sua angustia e apelou aos mais velhos presentes ali:
"Como permitiram que eu fosse apostada pelo rei que caiu na armadilha do jogo e foi enganado por pessoas maldosas, peritas na arte? Desde que ele não era mais um homem livre, como poderia apostar qualquer outra coisa"?
Então, ela levantou seus braços e elevou seus olhos em lágrimas de agonia suplicante e gritou com a voz quebrada por soluços:
"Se vocês amaram e respeitaram as mães que os geraram e os amamentaram, se vocês prezam a honra de sua esposa ou irmã ou filha, se vocês acreditam em Deus e dharma, não me abandonem neste horror mais cruel do que a morte".
Com essa súplica de partir o coração, como um pobre cervo ferido de morte, os mais velhos balançaram suas cabeças de tristeza e vergonha. Bhima não conseguia se controlar mais. Seu coração inchado encontrou alívio num rugido de fúria que fez as paredes estremecerem, voltou-se para Yudhisthira e disse com amargura:
"Mesmo jogadores profissionais abandonados não apostam as meretrizes que vivem com eles, e você, pior do que eles, entregou a filha de Drupada à mercê desses biltres. Não posso tolerar esta injustiça. Você é a causa deste crime hediondo. Irmão Sahadeva, faça fogo. Eu vou queimar essas mãos dele que jogou os dados".
Arjuna entretanto repreendeu Bhima com brandura: "Você nunca falou assim antes. A conspiração que nossos inimigos planejaram também nos envolveu em suas teias e nos incita à ação má. Não podemos sucumbir e jogar o jogo deles. Cuidado".
Com um esforço super humano, Bhima controlou sua ira.
Vikarna, filho de Dhritarastra, não suportou presenciar a agonia de Panchali. Ele se levantou e disse: "Ó heróis kshatriyas, por que estão em silêncio? Sou apenas um jovem, eu sei, mas seu silêncio me obriga a falar. Atenção, Yudhisthira foi seduzido para este jogo por um convite de baixo conluio e ele apostou sua senhora quando não tinha direito de fazê-lo, pois ela não pertence apenas a Yudhisthira. Por esse motivo apenas, a aposta é ilegal. Além disso, Yudhisthira já tinha perdido sua liberdade, e como não era mais um homem livre, como poderia ter o direito de oferecê-la como aposta? E há mais uma objeção. Foi Shakuni quem a sugeriu como aposta, o que é contra as regras do jogo, nenhum jogador pode demandar uma aposta específica. Se considerarmos todos esses pontos, devemos admitir que não ganhamos Panchali legalmente. Essa é a minha opinião".
Quando Vikarna falou com toda essa coragem, a sabedoria que Deus deu aos membros daquela assembléia iluminou suas mentes. Houve um grande clamor e aplausos. Eles gritavam: "Dharma foi salvo! Dharma foi salvo"!
Nesse momento, Karna se levantou e disse:
"Ó Vikarna, você se esqueceu que há membros mais velhos nesta assembléia e estabeleceu a lei apesar de ser apenas um adolescente. Com sua ignorância e ousadia, você feriu a própria família que lhe deu o nascimento, assim como a chama gerada pela madeira arani destrói sua própria fonte, a lenha. É mau o pássaro que suja seu próprio ninho. Logo no começo, quando Yudhisthira era um homem livre, ele penhorou tudo que possuía, e isso, é claro, inclui Draupadi. Por isso, Draupadi já era propriedade de Shakuni. Não há mais nada a ser dito sobre este assunto. Mesmo as roupas que eles usavam agora são de propriedade de Shakuni. Ó Dushasana, pegue as roupas dos Pandavas e as vestes de Draupadi e dê tudo para Shakuni".
Ao ouvirem essas palavras cruéis de Karna, os Pandavas, perceberam que tinham de agüentar o teste de Dharma até o mais amargo fim, tiraram suas roupas para mostrar que estavam prontos para seguir o caminho da honra e justiça a todo custo.
Ao ver isso, Dushasana foi até Draupadi e começou a puxar seu sari à força. Toda a ajuda mundana tinha falhado, sem ter mais onde se abrigar, Draupadi em sua angústia desesperada se entregou em plenitude à misericórdia do Supremo Senhor Sri Krishna em seu coração, assim fez sua prece de rendição total a Krishna:
"Ó Senhor do Mundo, Deus que eu adoro e confio, não me abandone nesta situação horrível. Você é meu único refúgio. Proteja-me". E assim se entregou ao Senhor.

Então, à medida que Dushasana fazia seu trabalho hediondo de puxar o sari de Draupadi para despi-la e os homens decentes estremeciam e desviavam o olhar, aí então, pela misericórdia do Senhor, um milagre aconteceu.
Dushasana puxava o sari avidamente para tentar despi-la em vão, pois à medida que ele puxava, um outro pedaço de sari novo em folha aparecia para cobrir o corpo de Draupadi, e logo se formou um monte de pano brilhante no meio da assembléia, até que Dushasana desistiu e se sentou com extrema fadiga.
A assembléia vibrou com esse milagre maravilhoso e as pessoas decentes louvaram Deus e choraram. Bhima com os lábios trêmulos, urrou com grande estrondo esse terrível juramento: "Que eu nunca vá para a morada sagrada de meus ancestrais se eu não rasgar o peito e beber o sangue do coração desse pecaminoso Dushasana, que é a vergonha da dinastia Bharata".
Imediatamente, ouviu-se o uivo de chacais. Asnos e pássaros carnívoros começaram a emitir brados dissonantes de todos os lados, como prognóstico de calamidades que acontecerão.
Dhritarastra realizou que esse incidente seria a causa da destruição de sua dinastia, e pelo menos uma vez, agiu com sabedoria e coragem. Ele chamou Draupadi para seu lado e tentou acalmá-la com palavras de carinho e afeição.
Então, voltou-se a Yudhisthira e disse: "Você é tão impecável que não pode ter nenhum inimigo. Perdoe com sua magnanimidade o mal feito por Duryodhana e apague tudo isso da sua memória. Pegue de volta seu reino e riqueza e tudo mais e seja livre e próspero. Volte para Indraprastha". E os Pandavas foram embora daquele salão maldito, confusos e atordoados, e viam um milagre em sua libertação repentina da calamidade. Mas era muito bom para persistir.
Depois que Yudhisthira e seus irmãos partiram, houve uma longa e furiosa discussão no palácio dos Kauravas. Incitado por Dushasana, Shakuni e outros, Duryodhana censurou seu pai por ter frustrado seus planos bem elaborados logo no limiar do sucesso.
Ele citou o aforismo de Brihaspati que nenhum artifício pode ser considerado errado se o seu objetivo for a destruição de inimigos formidáveis.
Ele falou em detalhes sobre a bravura dos Pandavas e expressou sua convicção de que a única forma de superar os Pandavas era a trapaça e obter vantagem com a altivez e senso de honra deles.
Nenhum kshatriya que se preze recusaria um convite para um jogo de dados. Duryodhana conseguiu que seu relutante pai louco de amor por ele aprovasse outro plano nefasto para seduzir Yudhisthira outra vez para um jogo de dados.
Assim, mandaram um mensageiro para Yudhisthira que já seguia para Indraprastha. Ele alcançou Yudhisthira antes que chegasse em seu destino e o convidou em nome do rei Dhritarastra para voltar.
Ao ouvir esse convite, Yudhisthira disse: "Bem e mal vêm do destino e não podem ser evitados. Se nós temos que jogar de novo, vamos jogar, isso é tudo. Um desafio nos dados não pode ser recusado em nome da honra. Eu tenho que aceitar". Na realidade, como Sri Vyasa afirma: "Nunca houve e nunca haverá um antílope de ouro! Mesmo assim, Rama perseguiu em vão um que parecia ser. Com certeza, quando calamidades são iminentes, o juízo é o primeiro a ser destruído".
Dharmaputra voltou para Hastinapura e entrou novamente num jogo de dados com Shakuni, apesar de todos na assembléia tentarem dissuadi-lo.
Ele parecia um mero peão movido pela mãe Kali para aliviar o peso do mundo.
A aposta do jogo era que o lado derrotado teria de ir com seus irmãos para o exílio na floresta e permanecer lá por doze anos e passar o décimo terceiro ano incógnito. Se fossem reconhecidos no décimo terceiro ano, teriam que ir para o exílio novamente por doze anos.
Nem é preciso dizer que Yudhisthira se encontrou com a derrota nessa ocasião também, e os Pandavas aceitaram os votos daqueles que vão para a floresta.
Todos os membros da assembléia baixaram suas cabeças de vergonha.
Continua...















