O Mahabharata

Espiritualidade, Espiritismo, Gnose, Alquimia, Paranormalidade, Parapsicologia, Mediunidade, Sonhos, Religião e Filosofias de vida.

Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 06 Fev 2010, 10:04

Capítulo 26

A Provação de Draupadi

Prathikami foi até Draupadi como ordenado por seu mestre. Ele disse a ela: "Ó venerável princesa, Yudhisthira caiu no encanto do jogo de dados e apostou e perdeu até você. Agora você pertence a Duryodhana. Eu vim pela ordem de Duryodhana para levá-la à sua casa para servir como empregada doméstica, onde será o seu emprego doravante".

Draupadi, a esposa do imperador que realizou o Rajasuya, estava pasmada, com essa mensagem estranha. Ela perguntou: "Prathikami, o que você disse? Que príncipe apostaria sua mulher? Ele não tem mais nada para empenhar"?

Prathikami respondeu: "É porque ele já perdeu todas as outras propriedades e como não sobrou nada, ele jogou e ofereceu você como aposta".

Então, ele contou toda a história de como Yudhisthira perdeu toda sua riqueza e a apostou no fim, depois de perder primeiro seus irmãos e si mesmo.

Apesar da notícia ser suficiente para quebrar o coração e matar a alma, mesmo assim, Draupadi recuperou logo sua firmeza, e com um clarão de fúria nos olhos, disse: "Ó cocheiro, volte. Pergunte a ele que jogou o jogo se perdeu primeiro ele mesmo, ou sua esposa. Faça essa pergunta aberta na assembléia. Volte com sua resposta e depois poderá me levar".

Prathikami foi até a assembléia e, voltado para Yudhisthira, fez a ele a pergunta de Draupadi.

Yudhisthira ficou sem fala.

Então Duryodhana mandou Prathikami trazer Panchali em pessoa para perguntar ao seu marido. Prathikami voltou até Draupadi e disse com humildade: "Princesa, o malévolo Duryodhana deseja que você vá para a assembléia e faça a sua pergunta pessoalmente".

Draupadi respondeu: "Não. Volte à assembléia, faça a pergunta e exija uma resposta".

Prathikami fez assim.

Enfurecido, Duryodhana se voltou a seu irmão Dushasana e disse: "Este homem é um tolo e está com medo de Bhima. Vá e traga Draupadi mesmo se tiver que arrastá-la até aqui".

Assim ordenado, o malvado Dushasana partiu de imediato com alegria para sua missão. Ele foi até o palácio onde Draupadi estava, e gritou: "Venha, por que você demora? Agora você é nossa. Não seja tímida, bela mulher. Seja agradável conosco, agora que foi conquistada por nós. Venha para a assembléia" e com sua impaciência, ele ameaçou pegá-la à força.

Panchali se levantou trêmula, com o coração perfurado de tristeza, e tentou fugir em refúgio nos aposentos internos da rainha de Dhritarastra. Dushasana foi atrás dela, pegou-a pelos cabelos e a arrastou até a assembléia.

É com arrepio de repugnância que narramos como os filhos de Dhritarastra se rebaixaram para cometer o mais vil de todos os atos.

Logo que chegou na assembléia, Draupadi controlou sua angustia e apelou aos mais velhos presentes ali:

"Como permitiram que eu fosse apostada pelo rei que caiu na armadilha do jogo e foi enganado por pessoas maldosas, peritas na arte? Desde que ele não era mais um homem livre, como poderia apostar qualquer outra coisa"?

Então, ela levantou seus braços e elevou seus olhos em lágrimas de agonia suplicante e gritou com a voz quebrada por soluços:

"Se vocês amaram e respeitaram as mães que os geraram e os amamentaram, se vocês prezam a honra de sua esposa ou irmã ou filha, se vocês acreditam em Deus e dharma, não me abandonem neste horror mais cruel do que a morte".

Com essa súplica de partir o coração, como um pobre cervo ferido de morte, os mais velhos balançaram suas cabeças de tristeza e vergonha. Bhima não conseguia se controlar mais. Seu coração inchado encontrou alívio num rugido de fúria que fez as paredes estremecerem, voltou-se para Yudhisthira e disse com amargura:

"Mesmo jogadores profissionais abandonados não apostam as meretrizes que vivem com eles, e você, pior do que eles, entregou a filha de Drupada à mercê desses biltres. Não posso tolerar esta injustiça. Você é a causa deste crime hediondo. Irmão Sahadeva, faça fogo. Eu vou queimar essas mãos dele que jogou os dados".

Arjuna entretanto repreendeu Bhima com brandura: "Você nunca falou assim antes. A conspiração que nossos inimigos planejaram também nos envolveu em suas teias e nos incita à ação má. Não podemos sucumbir e jogar o jogo deles. Cuidado".

Com um esforço super humano, Bhima controlou sua ira.

Vikarna, filho de Dhritarastra, não suportou presenciar a agonia de Panchali. Ele se levantou e disse: "Ó heróis kshatriyas, por que estão em silêncio? Sou apenas um jovem, eu sei, mas seu silêncio me obriga a falar. Atenção, Yudhisthira foi seduzido para este jogo por um convite de baixo conluio e ele apostou sua senhora quando não tinha direito de fazê-lo, pois ela não pertence apenas a Yudhisthira. Por esse motivo apenas, a aposta é ilegal. Além disso, Yudhisthira já tinha perdido sua liberdade, e como não era mais um homem livre, como poderia ter o direito de oferecê-la como aposta? E há mais uma objeção. Foi Shakuni quem a sugeriu como aposta, o que é contra as regras do jogo, nenhum jogador pode demandar uma aposta específica. Se considerarmos todos esses pontos, devemos admitir que não ganhamos Panchali legalmente. Essa é a minha opinião".

Quando Vikarna falou com toda essa coragem, a sabedoria que Deus deu aos membros daquela assembléia iluminou suas mentes. Houve um grande clamor e aplausos. Eles gritavam: "Dharma foi salvo! Dharma foi salvo"!

Nesse momento, Karna se levantou e disse:

"Ó Vikarna, você se esqueceu que há membros mais velhos nesta assembléia e estabeleceu a lei apesar de ser apenas um adolescente. Com sua ignorância e ousadia, você feriu a própria família que lhe deu o nascimento, assim como a chama gerada pela madeira arani destrói sua própria fonte, a lenha. É mau o pássaro que suja seu próprio ninho. Logo no começo, quando Yudhisthira era um homem livre, ele penhorou tudo que possuía, e isso, é claro, inclui Draupadi. Por isso, Draupadi já era propriedade de Shakuni. Não há mais nada a ser dito sobre este assunto. Mesmo as roupas que eles usavam agora são de propriedade de Shakuni. Ó Dushasana, pegue as roupas dos Pandavas e as vestes de Draupadi e dê tudo para Shakuni".

Ao ouvirem essas palavras cruéis de Karna, os Pandavas, perceberam que tinham de agüentar o teste de Dharma até o mais amargo fim, tiraram suas roupas para mostrar que estavam prontos para seguir o caminho da honra e justiça a todo custo.



Ao ver isso, Dushasana foi até Draupadi e começou a puxar seu sari à força. Toda a ajuda mundana tinha falhado, sem ter mais onde se abrigar, Draupadi em sua angústia desesperada se entregou em plenitude à misericórdia do Supremo Senhor Sri Krishna em seu coração, assim fez sua prece de rendição total a Krishna:

"Ó Senhor do Mundo, Deus que eu adoro e confio, não me abandone nesta situação horrível. Você é meu único refúgio. Proteja-me". E assim se entregou ao Senhor.

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Então, à medida que Dushasana fazia seu trabalho hediondo de puxar o sari de Draupadi para despi-la e os homens decentes estremeciam e desviavam o olhar, aí então, pela misericórdia do Senhor, um milagre aconteceu.

Dushasana puxava o sari avidamente para tentar despi-la em vão, pois à medida que ele puxava, um outro pedaço de sari novo em folha aparecia para cobrir o corpo de Draupadi, e logo se formou um monte de pano brilhante no meio da assembléia, até que Dushasana desistiu e se sentou com extrema fadiga.

A assembléia vibrou com esse milagre maravilhoso e as pessoas decentes louvaram Deus e choraram. Bhima com os lábios trêmulos, urrou com grande estrondo esse terrível juramento: "Que eu nunca vá para a morada sagrada de meus ancestrais se eu não rasgar o peito e beber o sangue do coração desse pecaminoso Dushasana, que é a vergonha da dinastia Bharata".

Imediatamente, ouviu-se o uivo de chacais. Asnos e pássaros carnívoros começaram a emitir brados dissonantes de todos os lados, como prognóstico de calamidades que acontecerão.

Dhritarastra realizou que esse incidente seria a causa da destruição de sua dinastia, e pelo menos uma vez, agiu com sabedoria e coragem. Ele chamou Draupadi para seu lado e tentou acalmá-la com palavras de carinho e afeição.

Então, voltou-se a Yudhisthira e disse: "Você é tão impecável que não pode ter nenhum inimigo. Perdoe com sua magnanimidade o mal feito por Duryodhana e apague tudo isso da sua memória. Pegue de volta seu reino e riqueza e tudo mais e seja livre e próspero. Volte para Indraprastha". E os Pandavas foram embora daquele salão maldito, confusos e atordoados, e viam um milagre em sua libertação repentina da calamidade. Mas era muito bom para persistir.

Depois que Yudhisthira e seus irmãos partiram, houve uma longa e furiosa discussão no palácio dos Kauravas. Incitado por Dushasana, Shakuni e outros, Duryodhana censurou seu pai por ter frustrado seus planos bem elaborados logo no limiar do sucesso.

Ele citou o aforismo de Brihaspati que nenhum artifício pode ser considerado errado se o seu objetivo for a destruição de inimigos formidáveis.

Ele falou em detalhes sobre a bravura dos Pandavas e expressou sua convicção de que a única forma de superar os Pandavas era a trapaça e obter vantagem com a altivez e senso de honra deles.

Nenhum kshatriya que se preze recusaria um convite para um jogo de dados. Duryodhana conseguiu que seu relutante pai louco de amor por ele aprovasse outro plano nefasto para seduzir Yudhisthira outra vez para um jogo de dados.

Assim, mandaram um mensageiro para Yudhisthira que já seguia para Indraprastha. Ele alcançou Yudhisthira antes que chegasse em seu destino e o convidou em nome do rei Dhritarastra para voltar.

Ao ouvir esse convite, Yudhisthira disse: "Bem e mal vêm do destino e não podem ser evitados. Se nós temos que jogar de novo, vamos jogar, isso é tudo. Um desafio nos dados não pode ser recusado em nome da honra. Eu tenho que aceitar". Na realidade, como Sri Vyasa afirma: "Nunca houve e nunca haverá um antílope de ouro! Mesmo assim, Rama perseguiu em vão um que parecia ser. Com certeza, quando calamidades são iminentes, o juízo é o primeiro a ser destruído".

Dharmaputra voltou para Hastinapura e entrou novamente num jogo de dados com Shakuni, apesar de todos na assembléia tentarem dissuadi-lo.

Ele parecia um mero peão movido pela mãe Kali para aliviar o peso do mundo.

A aposta do jogo era que o lado derrotado teria de ir com seus irmãos para o exílio na floresta e permanecer lá por doze anos e passar o décimo terceiro ano incógnito. Se fossem reconhecidos no décimo terceiro ano, teriam que ir para o exílio novamente por doze anos.

Nem é preciso dizer que Yudhisthira se encontrou com a derrota nessa ocasião também, e os Pandavas aceitaram os votos daqueles que vão para a floresta.

Todos os membros da assembléia baixaram suas cabeças de vergonha.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 09 Fev 2010, 16:45

Capítulo 27

A Ansiedade de Dhritarastra

Quando os Pandavas partiram para a floresta, houve um grande clamor de lamentação do povo que se aglomerou nas ruas, e as pessoas subiam em telhados, torres e árvores para vê-los ir.

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Os Pandavas vão para o exílio na floresta com Draupadi.

Os príncipes, que antes andavam em quadrigas de jóias ou em elefantes altivos acompanhados por música auspiciosa, agora andavam para longe de seu direito de herança com os pés descalços, acompanhados da multidão que chorava. Por todos os lados, vinha o choro: "Ó meu Deus! Ai de mim! Será que Deus não vê isso do Seu céu"?

O cego Dhritarastra mandou Vidura para ver e descrever a partida dos Pandavas para o exílio. Vidura respondeu: "Yudhisthira, o filho de Kunti, foi com sua cabeça coberta por um pano. Bhima foi atrás com seus olhos abaixados até os braços. Arjuna andava e espalhava a areia em seu caminho. Nakula e Sahadeva cobriram seus corpos com poeira e seguiam Yudhisthira de perto. Draupadi acompanhava Dharmaputra, seu cabelo despenteado cobria seu rosto e as lágrimas escorriam de seus olhos. Dhaumya, o sacerdote, foi junto com eles e cantava os hinos do Sama-veda, dirigidos a Yama, o senhor da Morte".

Quando ouviu essas palavras, Dhritarastra ficou com muito mais temor e ansiedade do que antes. Ele disse: "O que os cidadãos dizem"?

Vidura respondeu: "Ó grande rei, direi com suas próprias palavras o que os cidadãos de todas castas e todos credos falam: 'Nossos líderes nos abandonaram. Que vergonha os mais velhos da dinastia Kuru que toleraram tudo isso que aconteceu! O mesquinho Dhritarastra e seus filhos expulsaram os filhos de Pandu para a floresta'. Enquanto os cidadãos nos culpam dessa forma, os céus mostram sinais não auspiciosos de relâmpagos sem nuvens, grandes tremores de terra, e outros presságios de mau agouro".

Enquanto Dhritarastra e Vidura conversavam assim, o sábio celestial Narada apareceu de repente diante deles, e disse: "Daqui a quatorze anos a partir deste dia, os Kauravas serão extintos em resultado ao crime cometido por Duryodhana"! E desapareceu do local.

Duryodhana e seus companheiros ficaram apavorados e se aproximaram de Drona com uma súplica para nunca abandoná-los, seja o que acontecesse.

Drona respondeu com gravidade: "Eu acredito que os sábios Pandavas têm nascimento divino e são inconquistáveis. Ainda assim, o meu dever é lutar pelos filhos de Dhritarastra que se apóiam em mim e cujo sal, eu como. Eu vou me empenhar por eles com coração e alma. Mas o destino é todo poderoso. Os Pandavas com certeza retornarão do exílio, com fúria ardente. Eu tenho de saber o que é ira pois destronei e desonrei Drupada por causa da minha ira por ele. Vingativo implacável, ele fez sacrifícios para ser abençoado com um filho capaz de me matar. Dizem que Dristadyumna é esse filho. E como o destino providenciou, ele é cunhado e amigo leal dos Pandavas. E as coisas acontecem conforme predestinado. Suas ações tendem para a mesma direção e seus dias estão contados. Não percam tempo em fazer o bem enquanto podem; realizem grandes sacrifícios, aproveitem os prazeres sem pecado, dêem esmolas aos necessitados. O castigo vai destruir vocês no décimo quarto ano. Duryodhana, faça as pazes com Yudhisthira, este é o meu conselho para você. Mas, é claro, você fará o que bem entender".

Duryodhana não ficou nem um pouco feliz com essas palavras de Drona.

Sanjaya perguntou a Dhritarastra: "Ó rei, por que está tão preocupado"?

O rei cego respondeu: "Como posso saber o que é paz depois de prejudicar os Pandavas"?

Sanjaya disse: "O que disse é mesmo verdade. A vítima do destino adverso primeiro se torna pervertida, e perde por completo seu senso de certo e errado. Tempo, que tudo destrói, não pega uma clava e quebra a cabeça da pessoa, mas por destruir seu juízo, faz que aja com insanidade em direção à sua própria ruína. Seus filhos insultaram Panchali com indecência e se colocaram no caminho da destruição".

Dhritarastra disse: "Eu não segui o caminho sensato de dharma e estadista mas me sujeitei a ser mal guiado por meu estúpido filho e, como você disse, nós começamos a correr direto para o abismo".

Vidura costumava avisar Dhritarastra seriamente. Ele sempre lhe dizia: "Seu filho cometeu um grande erro. Dharmaputra foi enganado. Não é seu dever levar seus filhos para o caminho da virtude e tirá-los do vício? Você tem que ordenar agora mesmo que os Pandavas voltem para o reino que você deu a eles. Chame Yudhisthira de volta da floresta e faça as pazes com ele. Você deve até reprimir Duryodhana à força se ele não obedecer à razão".

No princípio, Dhritarastra ouvia com um silêncio triste quando Vidura falava assim, pois ele sabia que Vidura era uma pessoa muito mais sábia que ele. Mas gradualmente sua paciência diminuía com os repetidos sermões.

Num dia, Dhritarastra não conseguiu agüentar mais, e explodiu: "Ó Vidura, você sempre fala a favor dos Pandavas e contra meus filhos. Você não quer o nosso bem. Duryodhana nasceu dos meus quadris. Como posso abandoná-lo? De que adianta aconselhar tal conduta desnaturada? Perdi minha fé em você e não preciso mais de você. Você está livre para ir para os Pandavas se desejar". Então, ele virou as costas para Vidura, e entrou em seus aposentos.

Vidura sentiu com muita tristeza que a destruição da dinastia Kuru era certeza, assim aceitou as palavras de Dhritarastra e dirigiu uma quadriga com cavalos velozes até a floresta onde os Pandavas viviam.

Dhritarastra ficou ansioso com muito remorso. Ele refletiu consigo mesmo: "O que foi que eu fiz? Eu fortaleci Duryodhana mais ainda, ao mandar o sábio Vidura para os Pandavas".

Mais tarde, ele chamou Sanjaya e pediu-lhe para levar uma mensagem de arrependimento a Vidura onde implorava para perdoar as palavras insensatas dum pai infeliz, e voltasse.

Sanjaya foi com pressa até o retiro onde os Pandavas viviam e os encontrou vestidos com pele de veado, rodeados de sábios.

Ele também viu Vidura ali, a quem falou a mensagem de Dhritarastra e acrescentou que o rei cego morreria com o coração partido se ele não voltasse.

Vidura de bom coração, que era encarnação de Dharma, ficou comovido e voltou para Hastinapura.

Dhritarastra abraçou Vidura e a diferença entre eles foi lavada com as lágrimas da afeição mútua.

Certo dia, o sábio Maitreya veio à corte de Dhritarastra e foi bem recebido com grande respeito.

Dhritarastra suplicou por suas bênçãos e perguntou: "Ó senhor venerável, com certeza se encontrou com meus amados filhos, os Pandavas, em Kurujangala. Eles estão bem? A afeição mútua habitará nossa família sem qualquer diminuição"?

Maitreya disse: "Encontrei com Yudhisthira por acaso na floresta Kamyaka. Os sábios locais vieram para vê-lo. Eu soube dos eventos que ocorreram em Hastinapura, e me admiro de que tais coisas foram permitidas enquanto Bhisma e você mesmo estão vivos".

Depois, Maitreya viu Duryodhana que também estava na corte e o avisou, para o seu próprio bem, para não prejudicar mas sim fazer as pazes com os Pandavas, que não eram apenas poderosos em si próprios mas ligados a Krishna e Drupada.

O obstinado e imbecil Duryodhana simplesmente riu, bateu em suas coxas com menosprezo, arrastou o pé no chão e sem dar nenhuma resposta, virou-se e foi embora.

Maitreya ficou bravo, mirou Duryodhana e disse: "Você é tão arrogante que bate em suas coxas com menosprezo por alguém que quer o seu bem? Suas coxas serão quebradas pela maça de Bhima e você morrerá no campo de batalha". Ao ouvir isso, Dhritarastra saltou, caiu aos pés do sábio e implorou perdão.

Maitreya disse: "Minha maldição não funcionará se seu filho fizer as pazes com os Pandavas. De outra forma, terá efeito", e se retirou indignado da assembléia.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 11 Fev 2010, 11:55

Capítulo 28

A Promessa de Krishna

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Monumento para Sri krishna em Dwaraka, India.

Logo que a notícia da morte de Shishupala por Krishna chegou em seu amigo Shalva, ele ficou furioso e sitiou Dwaraka com uma poderosa força militar.

Krishna não tinha voltado para Dwaraka ainda, o velho avô Ugrasena era responsável pela defesa da cidade. O cerco descrito no Mahabharata parece muito com as guerras atuais.

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Dwaraka era uma fortaleza construída com alta proteção de guarnições numa ilha provida com os melhores meios de defesa. No cerco, havia grandes tendas e barracas, boa comida em abundância e armas, e as tropas tinham a presença de muitos guerreiros ilustres.

Ugrasena declarou um racionamento estrito sobre o consumo e diversões em geral durante o período de sítio. Todas as pontes foram destruídas e o tráfego de navios foi bloqueado para os portos do reino.

Foram colocados cravos de ferro nas valas em redor da fortaleza e as muralhas foram restauradas.

Todas entradas da cidade foram protegidas com arame farpado, e alto controle de entrada e saída com palavras-chave. Assim, qualquer arranjo que pudesse fortalecer ainda mais a cidade que era invulnerável por natureza não foi esquecido.

Os soldados receberam aumento de salário. E os servidores voluntários eram testados com rigidez antes de aceitos como soldados.

O sítio foi tão severo que as tropas sofreram grandes privações. Quando Krishna voltou, ficou muito comovido em ver o sofrimento de Sua amada cidade, assim atacou e derrotou Shalva, e o obrigou a retirar o cerco imediatamente.

Foi só depois disso que Krishna soube dos eventos que aconteceram em Hastinapura, o jogo de dados e o exílio dos Pandavas. De imediato, Ele partiu para a floresta onde os Pandavas viviam.

Junto com Krishna, foram vários kshatriyas, como muitos das tribos Bhoja e Vrishni, Dristaketu, o rei de Chedi, e os Kekayas que eram todos fiéis aos Pandavas.

Todos estavam muito indignados com razão depois que souberam da perfídia de Duryodhana e bradavam que a Terra beberia o sangue dessas pessoas tão más.

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Draupadi se aproximou de Sri Krishna e, com a voz afogada em lágrimas e quebrada por soluços, contou a história de sua aflição. Ela disse: "Fui arrastada para a assembléia quando estava vestida apenas com uma roupa simples. Os filhos de Dhritarastra me insultaram de forma ultrajante e exultavam com minha agonia. Eles acharam que eu virei sua escrava e me pegaram e trataram com tal. Mesmo Bhisma e Dhritarastra se esqueceram de meu berço e linhagem e da minha relação com eles. Ó Janardhana, até mesmo meus maridos não me protegeram da zombaria e insultos obscenos daqueles rufiões sórdidos. A força física de Bhima e o arco Gandiva de Arjuna também não estavam disponíveis. Sob tamanha provocação assim, mesmo os fracos encontrariam força e coragem para atacar o vil ofensor à morte. Os Pandavas são heróis renomados mas mesmo assim Duryodhana vive! Eu, a nora do imperador Pandu, fui arrastada pelo cabelo. Eu, a esposa de cinco heróis, fui desonrada. Ó Madhusudana, até mesmo Você me deserdou". Ela começou a tremer, sem poder continuar mais, pois entrou em convulsão pelo pesar.

Krishna ficou muito comovido e consolou Draupadi que chorava. Ele disse. "Aqueles que a atormentaram serão feridos à morte num charco de sangue duma batalha perdida. Enxugue seus olhos. Eu prometo solenemente que todos danos dolorosos que você sofreu serão amplamente punidos. Eu ajudarei os Pandavas de todas as formas. Você será a imperatriz. Os céus podem cair, o Himalaia pode romper em pedaços, a terra pode afundar ou o mar sem fim pode secar, mas, Eu lhe digo com sinceridade, Minha palavra ficará em pé. Eu prometo isto", e Krishna fez um juramento solene perante Draupadi.

Esse juramento, como será visto, está em perfeito acordo com o propósito dos avataras do Senhor, como as Escrituras declaram (Bg. 4.7-8):

"Ó descendente de Bharata, sempre e onde houver um declínio da religião pura, e um aumento predominante da irreligião, nesse caso, Eu descendo em pessoa".

"A fim de proteger os devotos e eliminar os impiedosos, e restabelecer a verdadeira religião pura, Eu advenho pessoalmente Era após Era".

Dristadyumna também consolou sua irmã e lhe contou como o castigo alcançaria os Kauravas.

Ele disse: "Eu matarei Drona, Shikhandi causará a queda de Bhisma. Bhima tirará a vida do malévolo Duryodhana e seus irmãos. Arjuna matará Karna, o filho do cocheiro".

Sri Krishna disse: "Quando essa calamidade atingiu vocês, Eu estava em Dwaraka. Se estivesse em Hastinapura, nunca teria permitido esse jogo de dados fraudulento que aconteceu. Mesmo não convidado, Eu teria ido lá e despertado Drona, Kripa e os outros mais velhos para seu senso de dever. Eu teria impedido, a todo custo, esse jogo de dados destrutivo. Enquanto Shakuni enganava vocês, Eu lutava contra o rei Shalva que sitiou Minha cidade. Só depois de derrotá-lo que soube do jogo de dados e a subseqüente história sórdida. Fico muito triste em não poder remover o sofrimento de vocês de imediato mas vocês sabem, alguma água se perde antes que a barragem seja restaurada".

Então, Krishna se despediu e voltou para Dwaraka com Subhadra, a esposa de Arjuna, e seu filho, Abhimanyu.

Dristadyumna voltou para Panchala e levou consigo os filhos de Draupadi.


Continua...
Editado pela última vez por Margarida em 11 Fev 2010, 12:39, em um total de 1 vez.
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Xevious » 11 Fev 2010, 12:22

Margarida escreveu:"A fim de proteger os devotos e eliminar os impiedosos, e restabelecer a verdadeira religião pura, Eu advenho pessoalmente Era após Era".


Impiedoso, é uma derivação de piedoso, ou seja aquele que perdoa
ou no caso aquele que não perdoa

Neste trecho é prometida a morte de todos inimigos, dos amigos, de Krisha
não se fala em nenhum momento de alguma forma de piedade com eles

neste caso, Krishna, esta sendo tão 'impiedoso' quanto os opositores a ele :roll:
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 12 Fev 2010, 17:14

Capítulo 29

Pashupata

No começo de sua estada na floresta, Bhima e Draupadi costumavam, em ocasiões, argumentar com Yudhisthira.

Eles pleiteavam que só a ira justa se adequava a um kshatriya e que paciência e tolerância sob menosprezo e insultos não eram dignos dele.

Eles citavam autoridades de peso e argumentavam com veemência em suporte à sua controvérsia. Yudhisthira respondia com firmeza que eles tinham de cumprir sua promessa e que a tolerância era a maior virtude de todas.

Bhima ardia de impaciência para atacar e matar Duryodhana imediatamente e conquistar o reino de volta. Ele achava que era indigno para guerreiros continuarem a viver mansamente na floresta.

Bhima disse a Yudhisthira: "Você fala como aqueles que recitam mantras Védicos e ficam satisfeitos com o som das palavras apesar de ignorantes sobre seu significado. Seu intelecto ficou confuso. Você nasceu como kshatriya mas não pensa e se comporta como um. Você se tornou um brahmana por temperamento. Você sabe, as Escrituras prescrevem severidade e empreendimento para um kshatriya. Não podemos deixar os malévolos filhos de Dhritarastra seguirem seu caminho. É em vão o nascimento dum kshatriya que não conquista seus inimigos traiçoeiros. Esta é a minha opinião, e para mim, se eu for para o inferno por matar um adversário traiçoeiro, esse inferno é paraíso. Sua tolerância nos queima mais que o fogo. Queima Arjuna e eu dia e noite, e nos deixa com insônia. Esses infames usurparam nosso reino por meio de fraude e gostam disso, enquanto você fica deitado como uma jibóia que faz a sesta. Você diz que temos de cumprir nossa promessa. Como pode o mundialmente famoso Arjuna viver incógnito? Será que o Himalaia pode ser escondido atrás dum punhado de grama? Como podem Arjuna, Nakula e Sahadeva, de coração de leão, viverem escondidos? Será que a famosa Draupadi pode andar sem ser reconhecida por outros? Mesmo se fizermos essas coisas impossíveis, o filho de Dhritarastra descobrirá com seus espiões. Assim, a promessa que fizemos é impossível de ser realizada, e nos foi imposta apenas para assegurar que ficaremos fora por outros treze anos. Os shastras também me apóiam quando afirmam que uma promessa roubada não é uma promessa. Um punhado de capim dado a um boi cansado é penitência suficiente como expiação por quebrar uma promessa dessa. Você tem que decidir matar nossos inimigos imediatamente. Não há dever mais elevado para um kshatriya".

Bhima nunca se cansava de forçar sua opinião. Draupadi também se referia à desonra que sofreu nas mãos de Duryodhana, Karna e Dushasana e citava autoridades das Escrituras que faziam Yudhisthira pensar com ansiedade.

Às vezes, ele respondia com máximas comuns de ciência política e se referia à força relativa das partes. Ele dizia: "Nossos inimigos têm aliados como os Bhurishravas, Bhisma, Drona, Karna e Asvathama. Duryodhana e seus irmãos são mestres em batalha. Muitos príncipes feudais, bem como monarcas poderosos, estão do lado deles agora. Bhisma e Drona, na verdade, não respeitam o caráter de Duryodhana, mas não o abandonarão e estão prontos para sacrificar suas vidas do lado dele no campo de batalha. Karna é um guerreiro bravo e habilidoso, bem versado no uso de todas as armas. O curso da guerra é imprevisível e o sucesso é incerto. Não há necessidade de precipitação". Assim, Yudhisthira gerenciava a dificuldade em restringir a impaciência dos Pandavas mais jovens.

Mais tarde, conforme o conselho de Vyasa, Arjuna foi para o Himalaia praticar austeridades com o propósito de conseguir armas dos Devas. Arjuna se despediu de seus irmãos e foi dizer adeus a Panchali.

Ela disse: "Ó Dhananjaya, que você prospere em sua missão. Que Deus lhe dê tudo que Kuntidevi esperou e desejou quando você nasceu. Nossa felicidade, vida, honra e prosperidade dependem de você. Volte depois de conseguir novas armas". Assim, Panchali o incentivou avante com palavras auspiciosas.

É notável que apesar da voz ser de Draupadi, a esposa, a bênção foi de Kunti, a mãe: "Que Deus lhe dê tudo que Kuntidevi esperou e desejou quando você nasceu".

Arjuna atravessou densas florestas e chegou no monte Indrakila, onde encontrou um velho brâmane. O asceta sorriu e falou com afeição a Arjuna:

"Filho, você se veste com armadura e carrega armas. Quem é você? Armas não têm utilidade aqui. O que você procura nessas vestes de kshatriya aqui nesta terra de ascetas e santos que conquistaram a ira e a paixão"? Era Indra, o rei dos deuses, que veio para ter o prazer de se encontrar com seu filho.

Arjuna se prostrou a seu pai e disse: "Eu procuro armamento. Abençoe-me com armas". Indra respondeu: "Ó Dhananjaya, qual a utilidade de armas? Peça prazeres ou queira ir aos mundos superiores para aproveitar a diversão celestial".

Arjuna respondeu: "Ó rei dos deuses, eu não procuro os prazeres dos mundos superiores. Eu cheguei aqui depois de deixar Panchali e meus irmãos na floresta. Eu procuro só armas".

Indra de mil olhos disse: "Se você for abençoado com a visão do Senhor Shiva, de três olhos, e obter a graça Dele, receberá armas divinas. Faça penitências para Shiva".
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Ao dizer isso, Indra desapareceu. Então, Arjuna subiu o Himalaia e fez penitências para obter a graça de Shiva.

Shiva com Sua esposa divina Umadevi entraram na floresta disfarçados de caçadores numa corrida de perseguição.

A caçada ficava cada vez mais veloz e furiosa até que um javali selvagem correu em direção a Arjuna, que atirou uma flecha nele com seu arco Gandiva no mesmo instante em que o caçador Shiva o transpassou com uma seta de seu arco Pinaka.

Arjuna gritou alto: "Quem é você? Por que percorre esta floresta com sua esposa? Como ousa atirar numa caça que eu alvejei"?

O caçador respondeu em tom de desprezo: "Esta floresta, cheia de caça, pertence a nós, que vivemos aqui. Você não parece forte o suficiente para ser um mateiro. Seus membros e porte condizem com vida fácil luxuosa. Eu que devo perguntar o que você faz aqui". Ele também acrescentou que foi Seu dardo que matou o javali, e se Arjuna pensasse diferente era bem vindo para lutar sobre isso.

Nada poderia deixar Arjuna mais feliz. Ele saltou e fez chover flechas que eram como serpentes em Shiva. Para seu espanto, elas pareciam não ter efeito no caçador e caíam para trás sem ferir como uma chuva de tempestade que bate no pico duma montanha.

Quando não tinha mais flechas, ele atacou Shiva com seu arco. Mas parecia que não se importou com isso e arrancou o arco com facilidade das mãos de Arjuna, e começou a rir.

Arjuna, desarmado com facilidade humilhante por alguém que parecia ser um simples caçador da floresta, ficou desnorteado, quase sem acreditar. Mas destemido, ele sacou sua espada e continuou o combate.

A espada se espatifou em pedaços quando bateu na duríssima estrutura do caçador. Não havia mais nada a fazer além de agarrar o formidável desconhecido. Mas novamente ele foi derrotado.

O caçador o agarrou como se fosse um gancho de ferro e o trouxe para tão perto que Arjuna ficou totalmente indefeso. Vencido e derrotado, Arjuna procurou a ajuda divina com humildade e meditou em Shiva. Quando fez isso, um clarão de luz iluminou sua mente perturbada, e de imediato soube quem era o caçador na realidade.

Ele caiu aos pés do Senhor, e com a voz embargada de arrependimento e adoração, orou por perdão. "Eu o perdôo", disse Shiva com um sorriso e devolveu-lhe seu arco Gandiva, bem como as outras armas, que tinha perdido no combate. Ele também concedeu a Arjuna a maravilhosa pashupata, Sua arma suprema.

O corpo de Arjuna, ferido na luta desigual, foi restaurado e aperfeiçoado pelo toque divino do Senhor de três olhos, e se tornou cem vezes mais forte e brilhante do que era antes.

"Vá para o reino celestial e preste o devido respeito a seu pai, Indra", disse Shiva, e desapareceu da visão como o Sol poente.

Arjuna ficou tomado de alegria e exclamou: "Eu vi mesmo o Senhor face a face e fui abençoado com Seu toque divino? O que mais eu preciso"?

Nesse instante, Matali, o cocheiro de Indra, apareceu ali com sua quadriga e levou Arjuna para o reino dos deuses.


continua
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 28 Abr 2010, 22:31

Todas as glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

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Sri Krishna e o irmão Balarama.

Mahabharata

Volume 2


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Sri krishna e seu irmão Balarama, com as Gopis.

Capítulo 30

Aflição Não É Coisa Nova

Balarama e Krishna vieram com Seu séqüito para a moradia dos Pandavas na floresta. Profundamente angustiado com o que viu, Balarama disse a Krishna:

"Ó Krishna, parece que virtude e maldade produzem frutos contrários nesta vida. Pois veja, o malévolo Duryodhana governa seu reino vestido de seda e ouro, enquanto o virtuoso Yudhisthira vive na floresta e se veste com cascas de árvores. Ao ver tal prosperidade sem mérito e privação sem motivo, as pessoas perdem sua fé em Deus. O louvor da virtude nos shastras parece mera falsidade quando vemos os resultados de bem e mal neste mundo. Como Dhritarastra justificará sua conduta e se defenderá quando estiver face a face com o deus da morte? Até mesmo as montanhas e a Terra choram com a visão dos imaculados Pandavas a morar nas florestas com a abençoada Draupadi, nascida do fogo de sacrifício".

Satyaki, que estava sentado perto, disse: "Ó Balarama, não é hora para lamentação. Temos de esperar até que Yudhisthira nos peça para cumprirmos nosso dever com os Pandavas? Enquanto Você e Krishna e todos Seus outros parentes estiverem vivos, por que os Pandavas devem desperdiçar seus anos preciosos na floresta? Vamos reunir nossas forças e atacar Duryodhana. Com o exército dos Vrishnis, temos força suficiente para destruir os Kauravas. Por que, e qual a necessidade de frustrar o manejo do arco fanfarrão de Karna e cortar sua cabeça. Vamos matar Duryodhana e seus aliados no campo de batalha e entregar o reino a Abhimanyu se os Pandavas quiserem manter sua palavra e permanecerem na floresta. Isto é bom para eles e digno de nós como homens de valor".

Vasudeva, que ouvia com atenção, disse: "O que você disse é verdade. Mas os Pandavas não gostarão de receber das mãos de outros aquilo que conquistaram pelo seu próprio mérito. Draupadi sozinha, nascida numa dinastia de heróis, nem quer ouvir falar sobre isso. Yudhisthira nunca abandonará o caminho da justiça por amor ou medo. Quando o período estipulado para o exílio acabar, os reis de Panchala, Kekaya e Chedi, bem como Nós mesmos, uniremos nossas forças para ajudar os Pandavas conquistarem seus inimigos".

Yudhisthira ficou muito feliz com essas palavras de Krishna. Ele disse: "Sri Krishna conhece minha mente. A verdade é maior do que o poder ou a prosperidade e tem de ser preservada a todo custo e não o reino. Quando Ele quiser que lutemos, verá que estaremos prontos para lutar. Os heróis da dinastia Vrishni podem retornar agora com a certeza de que nos encontraremos novamente quando o tempo estiver maduro". Com essas palavras, Yudhisthira se despediu Deles.

Arjuna ainda estava fora no Himalaia e a ansiedade e a impaciência de Bhima ficaram terrivelmente insuportáveis. Ele disse a Yudhisthira:

"Você sabe que nossa vida depende de Arjuna. Ele já está fora há muito tempo, e não tivemos notícias dele. Se ele se foi por nossa causa, nem o rei de Panchala, nem Satyaki nem mesmo Sri Krishna poderão nos salvar, e eu mesmo não posso sobreviver a essa perda. Tudo isso se deve àquele insano jogo de dados, nossos pesares e sofrimentos, bem como a crescente força de nossos inimigos. Morar na floresta não é dever prescrito para um kshatriya. Devemos chamar Arjuna imediatamente e empreender a guerra contra os filhos de Dhritarastra, com a ajuda de Sri Krishna. Eu só ficarei satisfeito quando os demoníacos Shakuni, Karna e Duryodhana estiverem mortos. Depois que esse dever específico for cumprido, você poderá, se quiser, voltar para a floresta e viver uma vida de ascetismo. Não é pecado matar por uso da estratégia um inimigo que apelou para a estratégia. Ouvi dizer que o Atharva-veda tem encantos que podem comprimir o tempo e reduzir sua extensão. Se pudéssemos, com isso, comprimir treze anos em treze dias, e teríamos toda razão para fazer isso, permitiria que no décimo quarto dia, eu mate Duryodhana".

Ao ouvir essas palavras de Bhima, Dharmaputra o abraçou com afeição e tentou acalmar seu ímpeto. "Querido irmão, quando o período de treze anos acabar, Arjuna, o herói, com seu arco Gandiva, e você mesmo lutarão e matarão Duryodhana. Seja paciente até lá. Duryodhana e seus seguidores, que se afundaram em pecado, não podem escapar. Esteja certo disso". Enquanto os pesarosos irmãos debatiam dessa forma, o grande sábio Brihadaswa chegou no eremitério dos Pandavas e foi recebido com as devidas honras.

Depois de algum tempo, Yudhisthira disse a ele: "Venerável sábio, nossos inimigos trapaceiros nos chamaram para esse jogo de dados e nos enganaram, assim levaram nosso reino e riqueza, e exilaram meus heróicos irmãos, bem como Panchali e eu mesmo, na floresta. Arjuna, que nos deixou faz muito tempo para conseguir armas divinas, não voltou ainda e nós temos muita saudade dele. Ele voltará com armas divinas? E quando ele voltará? Com certeza, nunca houve ninguém mais neste mundo que sofre com tanta tristeza como eu".

O grande sábio respondeu: "Não deixe sua mente se afundar em tristeza. Arjuna voltará com armas divinas e conquistará seus inimigos no devido curso do tempo. Você disse que não tem mais ninguém no mundo tão triste como você. Isso não é verdade, apesar de todos, testados pela adversidade, terem inclinação para reivindicar a superioridade na tristeza, pois aquilo que sentimos é maior do que aquilo que vemos ou ouvimos falar. Você ouviu falar sobre o rei Nala de Nishadha? Ele passou por muito mais sofrimento na floresta do que você. Ele foi enganado num jogo de dados por Pushkara. Ele perdeu sua riqueza e reino e teve de ir para o exílio na floresta. Com menos sorte do que você, ele não tinha a companhia de seus irmãos ou brâmanes. A influência do demônio Kali, o espírito da Era da escuridão, retirou sua discriminação e bom senso. E sem saber o que fazia, abandonou sua esposa que o acompanhou, e vagueou pela floresta, solitário e quase louco. Agora, compare o seu estado com o dele. Você tem a companhia de seus heróicos irmãos e esposa dedicada, e tem o apoio de alguns brâmanes sábios em sua adversidade. Sua mente é sadia e sóbria. A autopiedade é natural, mas você não está assim tão mal".

O sábio narrou então a vida de Nala que compõe vinte e oito capítulos do grande épico. O sábio concluiu com essas palavras:

"Ó Pandava, Nala foi testado com sofrimentos mais aflitivos do que os seus, ainda assim ele triunfou sobre todos e sua vida terminou feliz. Você tem o alívio dum intelecto não nublado e a sociedade dos seus mais queridos e próximos. Você passa a maior parte de seu tempo na contemplação exaltada de dharma e na conversa com brâmanes que são bem versados nos Vedas e Vedantas. Suporte suas provações e sofrimento com firmeza, pois são o destino da pessoa e não peculiar de você".

Assim o sábio Brihadaswa consolou Yudhisthira.


Continua...
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 30 Ago 2010, 05:55

Capítulo 31

Agastya

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Os brâmanes que estavam com Yudhisthira em Indraprastha o acompanharam na floresta. Era difícil manter um estabelecimento tão grande.

Certo tempo depois que Arjuna foi em sua busca pela pashupata, um sábio brâmane chamado Lomasha veio à morada dos Pandavas.

Ele aconselhou Yudhisthira a minimizar sua comitiva antes de sair em peregrinação pois seria muito difícil mover dum lugar a outro com um grande cortejo.

Yudhisthira, que há muito sentia essa dificuldade, anunciou a seus seguidores que eles não eram acostumados a dificuldade e vida dura com pouca comida e o tinham acompanhado só por lealdade, agora podiam voltar a Dhritarastra ou, se preferissem, para Drupada, o rei de Panchala.

Depois, com o séqüito bem reduzido, os Pandavas partiram em peregrinação a lugares sagrados, e aprenderam as histórias e tradições de cada um deles. A história de Agastya é uma delas.

Agastya, certa vez, viu alguns espíritos ancestrais que balançavam a cabeça para baixo, e perguntou a eles quem eram e como ficaram naquela situação desagradável.

Eles responderam: "Caro filho, somos seus ancestrais. Se não pagar sua dívida conosco por se casar e ter filhos, não haverá ninguém depois de você para nos oferecer oblações. Por isso, recorremos a essa austeridade, para persuadi-lo a nos salvar desse risco".

Quando Agastya ouviu isso, decidiu se casar.

O monarca do reino de Vidarbha não tinha filhos, por isso era muito preocupado. Ele recorreu a Agastya para conseguir sua bênção. Quando lhe deu a bendição, Agastya anunciou ao rei que ele seria pai de uma linda filha, e ele estipulou, que lhe seria dada em casamento.

Logo, a rainha deu à luz uma menina que foi chamada Lopamudra. Ela cresceu e se tornou uma donzela de tão rara beleza e encanto que ficou célebre no mundo kshatriya. Mas nenhum príncipe ousava cortejá-la com medo de Agastya.

Mais tarde, o sábio Agastya veio a Vidarbha e demandou a mão da filha do rei. O rei ficou relutante em dar a princesa criada com tanta delicadeza em casamento a um sábio que vivia uma vida primitiva de habitante da floresta mas ao mesmo tempo temia a ira do sábio se dissesse não, e ficou mergulhado em tristeza.

Lopamudra, muito preocupada, descobriu a causa da infelicidade do pai e expressou sua prontidão, bem como seu desejo, de casar com o sábio.

O rei ficou aliviado, e o casamento de Agastya e Lopamudra foi celebrado devidamente. Quando a princesa se preparou para acompanhar o sábio, ele mandou que ela abandonasse suas roupas caras e jóias valiosas.

Sem questionar, Lopamudra distribuiu suas jóias e roupas reais para suas companheiras e atendentes, assim, ela se vestiu com pele de veado e cascas de árvores, e acompanhou o sábio com alegria.


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Lopamudra, esposa de Agastya.

Durante o tempo que Lopamudra e Agastya passaram na prática de austeridade e meditação em Gangadwara, surgiu um forte e permanente amor entre eles. Com a vida conjugal, a modéstia de Lopamudra diminuiu devido à falta de privacidade dum eremitério na floresta. E num dia, com vergonha e humildade, ela revelou sua mente a seu marido.

Ela disse: "Meu desejo é ter a cama real, as belas roupas e as jóias valiosas que eu tinha quando estava no palácio de meu pai e que você também tenha roupas e ornamentos esplêndidos. Assim poderemos aproveitar a vida com o coração feliz".

Agastya respondeu com um sorriso: "Eu não tenho nem a riqueza nem os recursos para prover o que você quer. Não somos mendigos que moram na floresta"?

Mas Lopamudra conhecia o poder místico de seu senhor yogi, e disse: "Senhor, você é todo poderoso pela força de suas austeridades. Você pode obter toda fortuna do mundo num instante se simplesmente desejar".




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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 05 Set 2010, 17:25

Capítulo 32

Rishyashringa

É um erro achar que é fácil para uma pessoa levar uma vida de castidade se foi criada em ignorância completa sobre prazeres sensuais. A virtude guardada apenas pela ignorância é muito insegura como ilustra a história seguinte. O Ramayana também conta, mas não com tantos detalhes.

Vibhandaka, que era brilhante como Brahma, o criador, vivia com seu filho Rishyashringa na floresta. Este nunca se encontrou com qualquer mortal, homem ou mulher, exceto seu pai.

Certa vez, o estado de Anga sofreu uma terrível carestia. As plantações secaram devido à falta de chuva e as pessoas morriam por falta de comida. Todos os seres vivos sofriam. Romapada, o rei do país, aproximou-se dos brâmanes para receber conselhos sobre algum meio para salvar o reino da fome.

Os brâmanes responderam: "Melhor dos reis, há um jovem sábio chamado Rishyashringa que vive uma vida de castidade perfeita. Convide-o para seu reino. Ele adquiriu o poder, por suas austeridades, de trazer chuva e abundância onde quer que ele esteja".

O rei discutiu com os conselheiros da corte sobre uma forma de trazer Rishyashringa do eremitério do sábio Vibhandaka. E conforme o conselho deles, ele reuniu as cortesãs mais atraentes da cidade e confiou-lhes a missão de trazer Rishyashringa para Anga.

As damas ficaram num dilema. Num lado, temiam desobedecer o rei. Noutro, também temiam a ira do sábio. Finalmente, elas se prepararam para ir, com confiança na Providência para ajudá-las, na realização duma boa ação para salvar a terra atacada pela fome.

Elas foram devidamente bem equipadas antes que seu empreendimento partisse para o eremitério na floresta. A líder desse grupo de cortesãs construiu um belo jardim dentro dum grande barco, com árvores e plantas artificiais, e com uma imitação de ashrama no centro.

Ela atracou o barco num rio perto do eremitério de Vibhandaka, e as cortesãs foram em visita ao eremitério com os corações palpitantes. Para a sorte delas, o sábio não estava em casa. Assim, perceberam que era o momento oportuno e mandaram uma das damas mais lindas para o filho do sábio.

Então, ela disse a Rishyashringa: "Grande sábio, você está bem? Tem raízes e frutas suficientes? As penitências dos rishis na floresta procedem com satisfação? A glória de seu pai cresce constantemente? Seu estudo dos Vedas progride"? Era assim que os rishis costumavam se cumprimentar naquele tempo.

O jovem penitente nunca viu antes uma forma humana tão bela nem ouviu uma voz tão meiga.

O anseio do instinto por sociedade, especialmente pelo sexo oposto, mesmo sem ver nenhuma mulher antes, começou a trabalhar dentro de sua mente no momento que se deparou com aquela forma graciosa.

Ele pensou que ela era um jovem sábio como ele, e sentiu uma estranha alegria irreprimível que surgia da sua alma. Ele respondeu, com seus olhos fixos no interlocutor:

"Você parece um brahmachari brilhante. Quem é você? Eu me prostro a você. Onde fica seu eremitério? Quais austeridades você pratica"? e prestou a ela as oferendas de costume.

Ela disse a ele: "Meu ashrama fica a uma distância de três yojanas daqui. Trouxe frutas para você. Não sou digno de receber suas reverências, mas retribuirei sua recepção e saudação como é nosso costume". Ela o abraçou com ternura, deu-lhe doces para comer, enfeitou-o com colares de flores perfumadas e serviu-lhe bebidas.

Ela o abraçou novamente, e disse que essa era sua forma de saudação para convidados de honra. Ele achou isso muito agradável.

Pouco depois, com medo que o sábio Vibhandaka voltasse, a cortesã se despediu de Rishyashringa ao dizer que era hora de realizar o sacrifício agnihotra e saiu gentilmente do eremitério.

Quando Vibhandaka voltou para o eremitério, ficou chocado ao ver o local tão desleixado com doces espalhados por todos os lados, pois a limpeza não foi feita. As plantas e arbustos pareciam arrancados e amassados.

A face de seu filho não tinha o lustre de costume mas parecia nublada e perturbada por uma tempestade de paixão. Os deveres simples cotidianos do eremitério foram negligenciados.

Vibhandaka ficou irritado e perguntou a seu filho: "Querido menino, por que você não coletou a lenha do fogo sagrado? Quem quebrou essas belas plantas e arbustos? Você ordenhou a vaca? Alguém veio aqui para lhe servir? Quem lhe deu esse colar de flores estranho? Por que você está tão preocupado"?


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