O Mahabharata

Espiritualidade, Espiritismo, Gnose, Alquimia, Paranormalidade, Parapsicologia, Mediunidade, Sonhos, Religião e Filosofias de vida.

Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 05 Nov 2009, 22:52

Capítulo 13

Drona

Drona, filho de um brahmana chamado Bharadwaja, após completar seus estudos dos Vedas e Vedangas, dedicou-se à arte do arco e flecha e se tornou um grande mestre.

Drupada, filho do rei de Panchala, que era amigo de Bharadwaja, foi colega de Drona no monastério, onde cresceu uma generosa intimidade juvenil entre os dois.

Drupada, com seu entusiasmo juvenil, costumava dizer a Drona que daria metade de seu reino a ele quando ascendesse ao trono. Depois de sua formatura, Drona se casou com a irmã de Kripa, e tiveram um filho chamado Asvathama.

Drona tinha um apego apaixonado pela esposa e filho, e por causa deles, desejava obter fortuna, algo que nunca havia ligado antes. Quando soube que Parashurama distribuiria sua fortuna para os brahmanas, foi primeiro a ele. Mas era tarde demais pois Parashurama já tinha dado toda fortuna e ia se retirar na floresta. Mas, preocupado em dar algo a Drona, Parashurama se ofereceu para ensinar-lhe o uso das armas, de que era mestre supremo.

Drona aceitou com alegria, e de grande arqueiro, que já era, passou a mestre insuperável da arte militar, digno de ser bem vindo como preceptor em qualquer principado, nesta era da guerra.

Enquanto isso, Drupada ascendeu ao trono de Panchala com a morte de seu pai. Com a lembrança de sua intimidade infantil e as afirmações de Drupada em querer servi-lo, até em compartilhar seu reino, Drona foi a ele com esperança de ser tratado generosamente.

Mas encontrou um rei bem diferente do estudante. Ao se apresentar como um velho amigo, Drupada não ficou contente em vê-lo e aceitou isso como uma presunção intolerável. Inebriado de poder e riqueza, Drupada disse: "Seu brahmana, como ousa me chamar de velho amigo? Qual amizade pode haver entre um rei coroado e um mendigo andarilho? Você deve ser muito tolo em presumir que algo do passado distante possa cobrar a amizade dum rei que governa um reino. Como um pobre pode ser amigo duma pessoa rica, ou um rude ignorante dum professor emérito, ou um covarde dum herói? A amizade só pode existir entre iguais. Um mendigo vagabundo não pode ser amigo dum soberano". Drona foi expulso do palácio com desprezo em seus ouvidos e uma ira ardente em seu coração.

Ele fez um juramento íntimo que puniria o rei arrogante pelo seu insulto e seu repúdio às promessas sagradas da amizade infantil. Seu próximo movimento à procura de emprego foi em direção a Hastinapura, onde passou alguns dias, em retiro, na casa de seu cunhado, Kripacharya.

Certo dia, os príncipes brincavam com uma bola fora dos limites da cidade, até que num momento do jogo, a bola caiu num poço, junto com o anel de Yudhisthira. Os príncipes foram olhar no poço e viram o anel que brilhava no fundo através da água limpa. Mas não conseguiram tirar o anel. Entretanto, não notaram um brahmana de pele escura que estava perto e os observava com um sorriso.

"Príncipes", ele os surpreendeu, "vocês são descentes da heróica dinastia Bharata. Por que não conseguem tirar a bola, como qualquer perito no uso de armas saberia fazer? Será que terei de fazer para vocês"?

Yudhisthira riu e disse em tom de brincadeira: "Salve brahmana, se conseguir tirar a bola, veremos que você come bem na casa de Kripacharya". Então Drona, o brahmana forasteiro, pegou uma folha de grama e atirou-a dentro do poço depois de recitar algumas palavras de poder para lançá-la como se fosse uma flecha.

A folha de grama disparou e fincou na bola. Depois, ele disparou uma sucessão de outras folhas de grama que fincavam uma na outra e formaram uma corrente, com a qual Drona recuperou a bola.

Os príncipes ficaram abismados e muito felizes, e pediram a ele para pegar o anel também. Drona pegou um arco emprestado, pôs uma flecha na corda e acertou em cheio bem no centro do anel, o ricochete da flecha atirou o anel para cima, e o brahmana o entregou ao príncipe com um sorriso.

Ao verem tudo isso, os príncipes ficaram admirados e disseram: "Nós o saudamos, ó brahmana. Quem é você? Podemos fazer algo por você"? E prestaram reverências a ele.

Ele disse: "Salve príncipes, vão até Bhisma e saibam dele quem eu sou".

Pela descrição dada pelos príncipes, Bhisma sabia que o brahmana não poderia ser outro além do famoso mestre Drona. Ele decidiu que Drona era a pessoa adequada para ministrar a educação avançada dos Pandavas e dos Kauravas. Assim, Bhisma o recebeu com honras distintas e o contratou para ser o instrutor dos príncipes no uso das armas.

Logo que os Kauravas e os Pandavas conseguiram dominar a ciência das armas, Drona mandou Karna e Duryodhana para capturar Drupada e trazê-lo vivo, como cumprimento do dever devido a ele como mestre.

Eles foram como ordenados por ele, mas não conseguiram realizar a tarefa. Então o mestre mandou Arjuna com a mesma missão. Ele derrotou Drupada em batalha e o trouxe cativo junto com seus ministros para Drona.

Então Drona se dirigiu a Drupada com um sorriso: "Grande rei, não tema por sua vida. Fomos companheiros em nossa infância mas você achou melhor esquecer isso e me desonrar. Você me disse que um rei só pode ser amigo de outro rei. Agora eu sou um rei, após conquistar seu reino. Mesmo assim pretendo recuperar minha amizade com você, por isso lhe dou metade do seu reino que se tornou meu por conquista. Seu credo é que a amizade só é possível entre iguais. E agora somos iguais, cada um com metade do seu reino".

Drona achou que fosse uma vingança suficiente pelo insulto que sofreu, libertou Drupada e o tratou com honra. Assim o orgulho de Drupada foi humilhado, mas o ódio nunca é extinto com retaliação, poucas coisas são piores de tolerar do que as dores da vaidade ferida, a paixão governante da vida de Drupada se tornou seu ódio por Drona e o desejo de vingança.

O rei realizou tapasya (penitências), jejuou e fez sacrifícios a fim de obter a bênção dos deuses e ter um filho capaz de matar Drona e uma filha para casar com Arjuna.

Seus esforços foram coroados com sucesso assim nasceu Dristadyumna que comandou o exército Pandava em Kurukshetra, e matou o até então inconquistável Drona ajudado por uma soma de circunstâncias, e nasceu Draupadi, a esposa dos Pandavas.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 06 Nov 2009, 22:17

Capítulo 14

O Palácio de Cera

A inveja de Duryodhana começou a crescer com a visão da força física de Bhima e a destreza de Arjuna. Karna e Shakuni se tornaram os conselheiros maliciosos de Duryodhana no planejamento de ardis astuciosos.

Quanto ao pobre Dhritarastra, ele era um homem sábio sem dúvida e também amava os filhos de seu irmão, mas era fraco de espírito e louco de amor por seus próprios filhos. Por causa de seus filhos, a pior se tornava a melhor razão, e às vezes, ele seguia o caminho errado mesmo consciente.

Duryodhana tentou matar os Pandavas de várias formas. Foi pela ajuda secreta de Vidura, com desejo de salvar a família de cometer um grande pecado, que os Pandavas escaparam vivos.

Uma ofensa imperdoável dos Pandavas na visão de Duryodhana era que o povo da cidade os elogiava abertamente e declaravam uma e outra vez que Yudhisthira era o único capaz para ser o rei.

Em suas reuniões, as pessoas conversavam e argumentavam:

"Dhritarastra nunca deveria ser rei pois nasceu cego. Não é certo que ele continue agora com o reino em suas mãos. Bhisma também não pode ser o rei, por ser devotado à verdade e ao seu voto, não pode ser um rei. Por isso, Yudhisthira é o único que deve ser coroado rei. Ele é o único que pode governar a dinastia Kuru e o reino com justiça". As pessoas falavam assim por toda parte. Essas palavras eram como veneno para os ouvidos de Duryodhana, e faziam ele se retorcer e queimar de inveja.

Ele foi até Dhritarastra e reclamou amargurado com a fala do povo: "Pai, os cidadãos balbuciam tolices irrelevantes. Eles nem respeitam pessoas veneráveis como Bhisma e você. Eles dizem que Yudhisthira deve ser coroado rei imediatamente. Isso vai causar a nossa ruína. Você foi posto de lado por causa de sua cegueira, e seu irmão se tornou o rei. Se Yudhisthira deve suceder seu pai, como ficamos nós? Qual será a chance de nossa prole? Depois de Yudhisthira, o filho dele, o filho de seu filho e o filho seguinte serão os reis. Nós nos afundaremos em parentesco pobre, seremos dependentes deles até mesmo para comer. Viver no inferno seria melhor que isso"!

Após ouvir essas palavras, Dhritarastra ponderou e disse: "O que você disse é verdade. Ainda assim, Yudhisthira não se desviará do caminho da virtude. Ele ama todos. Ele herdou realmente todas virtudes excelentes de seu pai falecido. As pessoas o louvam e vão apoiá-lo, e todos ministros de estado e comandantes militares, a quem Pandu cativou com sua nobreza de caráter, vão abraçar sua causa. Quanto ao povo, eles idolatram os Pandavas. Não podemos nos opor a eles com qualquer chance de sucesso. Se agirmos com injustiça, os cidadãos vão se rebelar e vão nos matar ou nos exilar. Vamos nos cobrir apenas com ignomínia".

Duryodhana respondeu: "Seus temores não têm sentido. Bhisma no pior das hipóteses ficará neutro, enquanto Asvathama é fiel a mim, quer dizer que seu pai Drona e tio Kripa ficarão do nosso lado. Vidura não pode se opor a nós abertamente, mesmo por qualquer outro motivo, pois não tem poder. Mande os Pandavas imediatamente para Varanavata. Eu lhe digo a verdade solene que minha taça de sofrimento está cheia e não posso suportar mais. Perfura meu coração e me deixa sem dormir, e transforma minha vida num tormento. Depois de mandar os Pandavas para Varanavata vamos procurar fortalecer nosso lado".

Mais tarde, alguns políticos decidiram se juntar ao lado de Duryodhana e aconselhar o rei sobre o assunto. Kanika, ministro de Shakuni, era o líder deles, e disse: "Salve rei. Proteja-se contra os filhos de Pandu, pois sua bondade e influência são uma ameaça para você e os seus. Os Pandavas são filhos de seu irmão, quanto mais próximo o parentesco, mais perto e mortal o perigo. Eles são muito poderosos".

O ministro de Shakuni continuou: "Não fique com raiva de mim se eu disser que um rei tem que ser poderoso em ação tanto quanto em nome, pois ninguém acredita no poder que nunca é exibido. Assuntos de estado devem ser mantidos em segredo, e o aviso mais rápido para o público dum plano sensato é sua execução. Além do mais, males devem ser erradicados prontamente, pois um espinho que foi deixado dentro do corpo pode causar uma ferida infeccionada. Inimigos poderosos devem ser destruídos, mesmo um inimigo fraco não deve ser desprezado, pois uma pequena fagulha, se negligenciada, pode causar um incêndio florestal. Um inimigo poderoso tem que ser destruído com estratégia e é tolice ter pena dele. Ó rei, proteja-se contra os filhos de Pandu. Eles são muito poderosos".

Duryodhana falou para Dhritarastra sobre seu sucesso em assegurar participantes leais: "Eu comprei a boa vontade dos assessores reais com presentes de riqueza e honra. Eu conquistei seus ministros para a nossa causa. Se você mandar os Pandavas para Varanavata com sagacidade, a cidade e todo o reino ficarão do nosso lado. Eles não terão mais nenhum amigo de sobra aqui. Depois que o reino for nosso, eles não terão mais poder de dano, e talvez seja até possível deixarmos que eles voltem".

Quando vários disseram o que ele mesmo queria acreditar, a mente de Dhritarastra ficou abalada e ele concordou com os conselheiros de seu filho. É o que faltava para a conspiração ter efeito.

Os ministros passaram a elogiar Varanavata na presença dos Pandavas e falavam sobre a realização dum grande festival em homenagem a Shiva que aconteceria lá com toda pompa e esplendor.

Os Pandavas sem suspeitar foram persuadidos com facilidade, principalmente quando Dhritarastra também disse a eles em tom de muita afeição que deveriam ir com certeza e testemunharem as festividades, não apenas porque mereciam ir mas também porque as pessoas de lá estavam ansiosas em dar-lhes as boas vindas.

Os Pandavas se despediram de Bhisma e outros parentes e foram para Varanavata. Duryodhana ficou exaltado. Ele conspirou com Karna e Shakuni para matar Kunti e seus filhos em Varanavata. Eles mandaram Purochana, um ministro, para lá e lhe deram instruções secretas que ele se comprometeu a executar fielmente.

Antes dos Pandavas partirem para Varanavata, Purochana, fiel às suas ordens, adiantou-se bem até o local e organizou a construção dum belo palácio para a recepção deles. Materiais combustíveis como juta, goma-laca, ghi, óleo e gordura foram usados na construção do palácio. O material de emboço das paredes também era inflamável. Com astúcia, ele preencheu várias partes do prédio com coisas secas que podiam incendiar facilmente, e arrumou os assentos e camas nos locais mais combustíveis.

Todas as conveniências foram providenciadas para os Pandavas terem sua estadia na cidade sem temor, até a construção do palácio. Quando os Pandavas estivessem na casa de cera, a idéia era atear fogo à noite quando estivessem em sono profundo.

O amor e atenção ostensivos com que os Pandavas seriam recebidos e tratados eliminaria toda suspeita e o incêndio seria considerado um caso triste de puro acidente. Ninguém sonharia em culpar os Kauravas.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 07 Nov 2009, 22:53

Capítulo 15

A Fuga dos Pandavas

Depois das despedidas formais dos mais velhos e de abraçar os amigos, os Pandavas partiram para Varanavata. Os cidadãos os acompanharam durante parte do caminho e voltaram para a cidade sem querer. Vidura evidentemente avisou Yudhisthira com palavras inteligíveis só para o príncipe:

"Escapa do perigo só a pessoa que previne as intenções dum inimigo astuto. Existem armas mais afiadas que as feitas de aço. E a pessoa sábia que escaparia da destruição deve saber os meios para se defender dela. A conflagração que devasta uma floresta não pode ferir um rato que se abriga num buraco ou um porco-espinho que cavouca a terra para se esconder. A pessoa inteligente sabe seu rumo por olhar as estrelas".

Apesar de iniciarem sua jornada na alegria dum dia ensolarado, agora prosseguiam sob uma nuvem escura de tristeza e ansiedade.

O povo de Varanavata ficou muito feliz em saber sobre a chegada dos Pandavas em sua cidade e lhes deram as boas vindas.

Após uma breve estadia em outras casas enquanto o palácio feito especialmente para eles ficava pronto, mudaram sob os cuidados de Purochana.

O palácio foi chamado de "Shivam", que significa prosperidade, numa terrível ironia para a armadilha mortal. Yudhisthira examinou todo o local minuciosamente sempre com o aviso de Vidura na mente, e percebeu que o prédio foi sem sombra de dúvida construído com material combustível.

Yudhisthira disse a Bhima: "Apesar de sabermos que o palácio é uma armadilha mortal, não podemos deixar que Purochana desconfie que conhecemos sua conspiração. Vamos sair fora no momento certo, a fuga será muito difícil se dermos chance a qualquer suspeita".

Assim ficaram naquela casa com muito cuidado para não despertar nenhuma suspeita. Nesse meio tempo, Vidura mandou um mineiro especialista que se encontrou com eles em segredo e disse: "Minha palavra de passe é o aviso secreto que Vidura lhes deu. Fui mandado para ajudá-los a se protegerem".

Isso, para indicar a Yudhisthira, e somente a ele, sobre o plano terrível de Duryodhana e como escapar do perigo. Yudhisthira disse que entendeu a intenção de Vidura e mais tarde comunicou a Kuntidevi.

A partir daí, o mineiro trabalhou em segredo durante vários dias, sem o conhecimento de Purochana, e completou uma saída subterrânea da casa de cera bem em baixo e através das paredes e vala, que corria em torno do palácio.

Purochana tinha seus aposentos no portal do palácio. Os Pandavas mantinham a vigília armada noturna, e durante o dia, costumavam ir caçar na floresta, por prazer para as aparências mas na verdade para se familiarizarem com os caminhos da floresta.

Como já foi dito, eles mantiveram com muito cuidado seu conhecimento sobre a malvada conspiração contra suas vidas. Por outro lado, Purochana, ansioso em acalmar toda suspeita e fazer o incêndio criminoso parecer um acidente, esperou um ano inteiro antes de levar a cabo o plano malévolo.

Finalmente, Purochana achou que tinha esperado o suficiente. E o atento Yudhisthira, percebeu que o momento fatídico havia chegado, chamou seus irmãos e disse a eles que agora ou nunca era a hora de escaparem.

Kuntidevi organizou um banquete suntuoso para o séqüito naquele dia. Sua idéia era acalmá-los para um sono bem alimentado durante a noite.

À meia-noite, Bhima ateou fogo em vários lugares do palácio. Kuntidevi e os irmãos Pandavas correram pela passagem subterrânea e apalpavam seu caminho através da escuridão. Enquanto isso, houve um incêndio estrondoso que consumiu todo o palácio, e uma multidão crescia com rapidez por toda volta, com os cidadãos apavorados em alta lamentação e desespero.

Alguns se apressavam em tentativas fúteis de extinguir a conflagração, e todos se juntaram em uníssono: "Ai de mim! Ai de mim! Isso é com certeza obra de Duryodhana, e ele matou os Pandavas imaculados"!

O palácio foi reduzido a cinzas. A residência de Purochana foi envolvida nas chamas antes que pudesse escapar, e ele foi vítima sem piedade de seu próprio plano malévolo.

O povo de Varanavata mandou a seguinte mensagem a Hastinapura: "O palácio onde os Pandavas moravam sofreu um incêndio e ninguém escapou com vida".

Vyasa descreveu belamente o estado mental de Dhritarastra: "Do mesmo modo como a água de uma piscina profunda é fria no fundo e quente na superfície, assim estava o coração de Dhritarastra ao mesmo tempo quente de alegria e gélido de tristeza".

Dhritarastra e seus filhos tiraram suas vestes reais em sinal de pesar pelos Pandavas que achavam terem sido consumidos pelo fogo. Eles se vestiram com roupas simples como fazem os parentes em luto e foram para o rio a fim de executarem os rituais funerais apropriados.

Nenhum comportamento para exibição de coração partido foi omitido. Notou-se que Vidura não estava tão triste como os outros, e isso foi atribuído a seu caráter filosófico. Mas o motivo verdadeiro, ele sabia que os Pandavas tinham escapado com segurança.

Quando parecia triste, ele de fato seguia a exaustiva jornada dos Pandavas em sua mente. Ao ver Bhisma afundado em tristeza, Vidura o animou em segredo por revelar a história da escapada bem sucedida deles.

Bhima viu que sua mãe e irmãos estavam exaustos por causa das vigílias noturnas bem como pelo medo e ansiedade. Assim ele carregou sua mãe nos ombros, pôs Nakula e Sahadeva nos quadris e segurou Yudhisthira e Arjuna com suas mãos.

Com essa carga pesada, ele andava a passos largos como um elefante altivo que abria seu caminho através da floresta e punha de lado os arbustos e árvores que obstruíam o caminho.

Quando chegaram no Ganges, havia um barco pronto para eles com um barqueiro que sabia o segredo. Eles atravessaram o rio na escuridão e entraram na floresta espessa, assim prosseguiram durante a escuridão da noite que os envolvia como uma mortalha e num silêncio quebrado horrivelmente pelos alaridos assustadores de animais selvagens.

Por último, esgotados pela fadiga, eles se sentaram sem agüentar mais as dores da sede e sem suportar a inércia da extrema fadiga. Kuntidevi disse: "Não me importo se os filhos de Dhritarastra estiverem aqui para me capturar, mas preciso estirar minhas pernas". Ela se deitou então e caiu em sono profundo.

Bhima forçou seu caminho pela floresta entrelaçada à procura de água na escuridão. Quando encontrou uma lagoa, ele molhou sua roupa, fez copos com folhas de lótus e trouxe água para sua mãe e irmãos que morriam de sede.

Então, enquanto os outros dormiam num esquecimento compassivo de sua aflição, Bhima permaneceu desperto sozinho absorto em reflexão profunda: "Por que os malvados Dhritarastra e Duryodhana tentam nos ferir desse jeito"? Por ser impecável, Bhima não conseguia entender o surgimento da perversidade nos outros, e ficou muito triste.

Os Pandavas continuaram sua marcha onde sofreram muitas dificuldades e passaram por vários perigos. Durante parte do caminho, carregavam sua mãe para melhorar a velocidade. Às vezes, cansados além da resignação heróica, paravam e descansavam. Às vezes, cheios de vida e com a gloriosa força da juventude, brincavam de corrida entre si.

Eles se encontraram com Bhagavan Vyasa no caminho. Todos lhe prestaram reverências e receberam encorajamento e conselho sábio dele.

Quando Kunti lhe contou sobre o pesar que caiu sobre eles, Vyasa a consolou com essas palavras: "Nenhuma pessoa virtuosa é forte o suficiente para viver em virtude o tempo todo, nem qualquer pessoa pecadora é má o suficiente para viver num lodaçal de pecado. A vida é um tecido entrelaçado e não existe ninguém no mundo que não tenha feito tanto o bem como o mal. Cada um e todos têm que suportar as conseqüências de suas ações. Não se renda à tristeza".

Assim, eles se vestiram com roupas de brâmanes, como Vyasa aconselhou, e foram para a cidade de Ekachakra onde permaneceram na casa dum brâmane à espera de dias melhores.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 08 Nov 2009, 23:35

Capítulo 16

A Morte de Bakasura

Na cidade de Ekachakra, os Pandavas ficaram disfarçados de brâmanes, mendigavam sua comida nas ruas dos brâmanes e traziam o que conseguiam para sua mãe, que sempre esperava por seu retorno ansiosa. Se eles não voltavam na hora, ela ficava preocupada, e temia que algum mal pudesse ter ocorrido a eles.

Kunti dividia toda comida que traziam em duas porções iguais. Uma metade era para Bhima. A outra metade era para os outros irmãos e a mãe. Bhima, que nasceu do deus do vento, tinha muita força e um apetite voraz.

Vrikodara, um dos nomes de Bhima, quer dizer estômago de lobo, e todos sabem que um lobo parece estar sempre faminto. Não importa o quanto coma, sua fome nunca é bem satisfeita.

A fome insaciável de Bhima e a comida escassa que conseguiam em Ekachakra iam mal juntas. E a cada dia, ele emagrecia, o que causava muita tristeza à sua mãe e irmãos. Depois de algum tempo, Bhima conheceu um oleiro a quem ajudou trazer barro. O oleiro em retribuição lhe deu de presente um pote de barro grande que virou um objeto de brincadeira das crianças de rua.

Certo dia, quando os irmãos foram pedir esmolas, Bhima ficou atrás com sua mãe, pois ouviram lamentações em voz alta na casa do brâmane senhorio deles. Com certeza, a pobre família sofria uma grande calamidade e Kunti entrou na casa para saber a causa.

O brâmane e sua esposa mal conseguiam falar por causa do choro, no fim, ele disse à sua mulher: "Você é uma mulher desafortunada e tola, tem muito tempo e muitas vezes que eu quis sair desta cidade para sempre, e você nunca concordou. Você sempre dizia que nasceu e cresceu aqui, e ficaria aqui onde seus pais e parentes viveram e morreram. Como posso pensar em perder você, a companheira da minha vida, mãe amorosa, esposa que gerou meus filhos, além de ser tudo para mim? Não posso mandá-la para morrer enquanto vou ficar vivo. Esta menina nos foi dada por Deus em confiança para ser dada no devido tempo a um homem digno. É um crime sacrificá-la por ser um presente de Deus para a perpetuação da raça. Também é igualmente impossível permitir que este outro, nosso filho, seja morto. Como poderemos viver depois de enviar para a morte nosso único consolo da vida e nossa esperança futura? Se ele se for, quem vai fazer nossos rituais funerais e de nossos ancestrais? Ai de mim! Você não deu ouvidos às minhas palavras, e este é o fruto mortífero da sua perversidade. Se eu deixar minha vida, a menina e o menino vão morrer com certeza por falta dum protetor. O que devo fazer? É melhor que todos nós morramos juntos", e o brâmane caiu no soluço intenso.

A esposa respondeu: "Fui uma boa esposa para você, e cumpri meu dever por gerar uma filha e um filho para você. Você é capaz, e eu não, para criar e proteger nossos filhos. Do mesmo modo como as vísceras expostas são bicadas e apanhadas por aves de rapina, uma pobre viúva é presa fácil para pessoas malvadas e desonestas. Os cães brigam por um pano molhado no ghi, e ao puxarem para cá e para lá, rasgam em trapos enlameados. É melhor que eu seja dada ao rakshasa (espécie humana de demônio antropófago). A mulher que parte para o outro mundo enquanto seu esposo está vivo é realmente abençoada. Isso, como você sabe, é o que as escrituras afirmam. Por favor se despeça de mim. Cuide dos meus filhos. Fui feliz com você. Realizei muitas boas ações. Por minha devoção fiel a você, tenho certeza sobre o céu. A morte não aterroriza aquela que foi uma boa esposa. Depois que eu for, case-se com outra esposa. Agrade-me com um bravo sorriso, abençoe-me, e me mande para o rakshasa".

Depois de ouvir essas palavras de sua esposa, o brâmane a abraçou com afeição, e tomado pelo amor e coragem dela, chorou como uma criança. Quando conseguiu se acalmar, respondeu: "Ó minha nobre amada, que palavras são essas? Será que posso suportar viver sem você? O dever principal dum marido é proteger sua esposa. Serei um pecador lamentável com certeza se viver depois de entregá-la ao rakshasa, e sacrificar o amor bem como o dever".

A filha que ouvia essa conversação comovente, agora interveio aos soluços: "Por favor me ouçam, apesar de ser uma criança, e depois façam o que é certo. Somente eu que vocês devem descartar para o rakshasa. Com o sacrifício duma alma, que sou eu, vocês salvarão as outras. Permitam que eu seja o pequeno barco que vai levá-los através desse rio de calamidade. Além disso, uma mulher sem guardião se torna a diversão de pessoas más que a arrastam para cá e para lá. É impossível que eu proteja dois órfãos sozinhos, e eles morrerão na miséria assim como um peixe numa lagoa seca. Se vocês dois morrerem, tanto eu como meu pequeno irmão morreremos rapidamente sem proteção neste mundo cruel. Se nossa família puder ser salva da destruição com minha morte apenas, que boa morte seria a minha! Mesmo se pensarem só no meu bem-estar, devem me mandar para o rakshasa".

Com essas palavras bravas da pobre menina, os pais a abraçaram com ternura e choraram. Ao ver todos em lágrimas, o menino, não maior que um bebê, se levantou com os olhos brilhantes, e balbuciou: "Pai, não chore. Mãe, não chore. Irmã, não chore", e foi até cada um e se sentou no colo de cada um alternadamente.

Depois se levantou, pegou um pedaço de pau de lenha que brandiu de um lado para o outro, e disse com sua doce fala infantil: "Vou matar o rakshasa com este pau". A atitude do menino e sua fala fizeram eles sorrirem no meio de suas lágrimas, mas isso só aumentou seu grande pesar.

Kunti percebeu que era o momento para intervir, assim entrou e perguntou sobre a causa da tristeza deles, e se poderia fazer algo para ajudá-los.

O brâmane disse: "Mãe, é um sofrimento muito além da sua capacidade. Há uma caverna perto da cidade onde vive um rakshasa cruel e terrivelmente forte chamado Bakasura. Ele capturou esta cidade e o reino há treze anos. Desde então, ele mantém todos numa escravidão cruel. O kshatriya governador deste estado fugiu para a cidade de Vetrakiya e não pode nos proteger. Esse rakshasa costumava sair de sua caverna quando bem entendia e, louco de fome, matava e comia indiscriminadamente homens, mulheres e crianças desta cidade. Os cidadãos imploraram ao rakshasa para aceitar algum tipo de combinação em vez dessa matança promíscua. Eles imploraram: 'Não nos mate sem consideração só por capricho ou prazer. Uma vez por semana, nós vamos trazer para você bastante carne, arroz, coalhada e bebidas alcoólicas, e várias outras guloseimas. Vamos entregar a você tudo isso numa carroça puxada por dois bois dirigidos por um ser humano que será tirado duma casa de cada vez. Você pode comer tudo, o arroz com os bois e a pessoa, mas tem que parar com essa louca orgia de matança'. O rakshasa concordou com a proposta. A partir desse dia, esse forte rakshasa passou a proteger este reino de ataques estrangeiros e feras selvagens. Esse acordo acontece há muitos anos. Nunca se encontrou um herói para livrar o país dessa peste, pois o rakshasa derrotou e matou sem exceção todos os homens bravos que tentaram. Mãe, nosso soberano legítimo não pode nos proteger. Os cidadãos dum país, cujo rei é fraco, não devem se casar e ter filhos. Uma vida familiar digna, com cultura e felicidade doméstica, só é possível sob o governo dum rei bom e forte. Esposa, riqueza e outras coisas não estão a salvo, se não tiver um rei digno no governo dos cidadãos. E depois dum longo sofrimento com a visão da desgraça dos outros, chegou a nossa vez de mandar uma pessoa para o rakshasa. Não tenho recursos para comprar um substituto. Nenhum de nós pode suportar viver depois de mandar qualquer um de nós para a morte cruel, assim eu irei com minha família inteira até ele. Deixe esse glutão malvado devorar todos nós. Eu a atormentei com isso, mas você quis saber. Só Deus pode nos ajudar, mas perdemos a esperança até nisso".

As verdades políticas contidas na história de Ekachakra são sugestivas e dignas de nota. Kunti conversou com Bhima sobre o que aconteceu e voltou ao brâmane. Ela disse: "Meu bom homem, não se desespere. Deus é grande. Eu tenho cinco filhos. Um deles vai levar a comida ao rakshasa".

O brâmane pulou surpreso, mas balançou a cabeça em negativa e não quis aceitar o sacrifício do substituto. Kunti disse: "Ó brâmane, não tenha medo. Meu filho é dotado de poderes sobrenaturais derivados de mantras e vai matar o rakshasa com certeza, como eu mesma já vi várias vezes ele matar muitos outros rakshasas desses. Mas guarde em segredo, pois se for revelado, sua força pode ser reduzida a nada".

Kunti temia que a história pudesse se espalhar por toda parte, os homens de Duryodhana veriam a mão dos Pandavas, e achariam seu paradeiro. Bhima estava radiante de alegria e entusiasmo com o arranjo feito por Kunti.

Os outros irmãos voltaram para casa com doações. Dharmaputra (Yudhisthira) viu a face de Bhimasena radiante de alegria na qual era uma estranha faz muito tempo e deduziu que ele resolveu alguma aventura perigosa e perguntou a Kunti que lhe contou tudo.

Yudhisthira disse: "O que é isso? Será que não é precipitação e imprudência? Com confiança na força de Bhima, dormimos sem preocupação ou temor. Não é com a força de Bhima e com essa confiança que pretendemos recuperar o reino que foi usurpado por nossos inimigos enganadores? Não foi pela força de Bhima que escapamos do palácio de cera? E você quer arriscar a vida de Bhima que é nossa proteção presente e esperança futura? Temo que suas muitas provações embotaram seu juízo"!

Kuntidevi respondeu: "Queridos filhos, nós vivemos felizes durante muitos anos na casa deste brâmane. Dever, além de ser a maior virtude do ser humano, é retribuir o benefício que desfrutou por fazer o bem na sua vez. Conheço o heroísmo de Bhima e não tenho temores. Lembre quem nos carregou de Varanavata e quem matou o demônio Hidimba. É nosso dever servir esta família brâmane".

Os cidadãos vieram até a casa do brâmane com vários tipos de carnes, iguarias, potes de coalhada e bebidas alcoólicas tudo dentro duma carroça puxada por bois, Bhima subiu na carroça e foi para a caverna do rakshasa.

A carroça seguiu acompanhada por banda de música. Quando chegou no local de costume, os cidadãos voltaram a salvo, e deixaram Bhima sozinho na carroça. O local na frente do covil do rakshasa estava repleto de ossos, cabelo e chifres, e cheio de vermes e formigas. Bhima viu muitas mãos, pernas e cabeças mutiladas com que os pássaros de rapina faziam sua refeição. Bhima parou a carroça e começou a comer vorazmente toda a comida destinada ao rakshasa, e pensou consigo mesmo: "Tenho que comer toda a comida antes que seja esparramada na confusão da luta com o rakshasa. Além do mais, depois que eu matá-lo, estarei contaminado pelo contato com seu cadáver e não poderei comer a comida".

O rakshasa cujo humor já estava afetado com tanta demora ficou enfurecido quando viu o que Bhima fazia. Bhima também viu o rakshasa e o desafiou para uma luta. O rakshasa com seu corpo enorme, bigode, barba e cabelos vermelhos, e uma boca que ia de uma orelha a outra, correu para cima de Bhima que apenas sorriu tranqüilo, esquivou-se dos punhos cerrados e continuou a comer de costas para o rakshasa. O rakshasa desferiu vários socos potentes nas costas do adversário tão arrogante, mas Bhima nem se importou nem parou de comer. O rakshasa arrancou uma árvore e atirou em Bhima, que ainda nem se virou para ele e apenas desviou o projétil com sua mão esquerda e continuou a comer com a direita. Só depois que acabou, até o último pote de coalhada, e lavou sua boca, que ele se levantou com um ar de satisfação e enfrentou o rakshasa.

Um combate aterrador foi travado entre eles. Bhima brincou com o rakshasa, jogava no chão e levantava como bem entendia, como se fosse um mero boneco de pano. Finalmente, Bhima o jogou no chão, pôs seu joelho em suas costas e quebrou sua espinha. O rakshasa emitiu um terrível urro de dor e desespero, cuspiu sangue e morreu. Bhima arrastou a carcaça até os portões da cidade. Voltou para a casa do brâmane, tomou banho e contou à sua mãe a aventura do dia, para a grande alegria dela.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 24 Nov 2009, 18:15

Capítulo 17

O Swayamvara de Draupadi

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Quando os Pandavas viveram disfarçados de brâmanes na cidade de Ekachakra, a notícia do swayamvara de Draupadi, filha de Drupada, rei de Panchala, chegou até eles. Muitos brâmanes de Ekachakra planejavam ir para Panchala com a esperança de receberem as doações costumeiras e verem as festividades e pompa dum casamento real. Kunti, com seu instinto maternal, adivinhou o desejo dos filhos de irem para Panchala e conquistar Draupadi. Assim, disse a Yudhisthira: "Nós ficamos nesta cidade por muito tempo e já é hora de ir para outro lugar. Vimos essas montanhas e vales até nos cansarmos deles. As doações que nos dão diminuíram e não é bom atrasar sua diversão. Então vamos para o reino de Drupada famoso por ser justo e próspero". Kunti não tinha rival em matéria de bom senso e sagacidade, assim pôde prever habilmente os pensamentos de seus filhos e poupá-los do embaraço de se manifestarem.

Os brâmanes foram em grupos para assistirem o swayamvara e os Pandavas se misturaram a eles disfarçados de brâmanes. Depois de uma longa marcha, o grupo chegou na bela cidade de Drupada, e se hospedaram na casa dum oleiro como brâmanes obscuros sem importância.

Apesar de Drupada e Drona estarem aparentemente em paz, esse nunca pôde esquecer ou perdoar a humilhação que sofreu nas mãos deste. A idéia fixa de Drupada era dar sua filha em casamento para Arjuna.

Drona amava tanto Arjuna que mal podia olhar para o sogro de seu pupilo que era seu inimigo mortal. E se houvesse guerra, Drupada teria muito mais poder por ser sogro de Arjuna. Quando soube da destruição dos Pandavas em Varanavata, ficou muito triste porém mais tarde, com os rumores que haviam escapado, animou-se.

O salão do casamento estava belamente decorado e construído entre um conjunto de casas novas de alto padrão para acomodar os hóspedes e pretendentes do swayamvara. Havia uma programação de espetáculos e jogos esportivos para a diversão do público e festividades gloriosas por quatorze dias seguidos.

Um forte arco de aço foi posto no salão do casamento. O pretendente à mão da princesa teria que curvar o arco para pôr a corda e atirar uma flecha de aço através do orifício central dum disco girante num alvo situado bem alto.

Isso requeria força e habilidade quase super-humanas, e Drupada proclamou que o herói conquistador da sua filha teria que realizar essa proeza. Muitos príncipes valentes chegaram lá de todas as partes de Bharatavarsha (planeta Terra). Os filhos de Dhritarastra também estavam lá bem como Karna, Krishna, Shishupala, Jarasandha e Shalya.

Além dos pretendentes, havia um enorme ajuntamento de espectadores e visitantes. O barulho que tudo isso produzia parecia o bramido do oceano e sobre ele elevava-se o som auspicioso de música festiva com centenas de instrumentos.

Dristadyumna ia a cavalo na frente de sua irmã Draupadi sentada num elefante. Fresca com seu banho de núpcias auspicioso, e vestida em seda cintilante, Draupadi desmontou e entrou no salão do swayamvara o qual parecia preencher com a doçura de sua presença e beleza perfeita.

Com o colar de flores na mão, ela olhava com recato para os príncipes valentes, que por seu lado, olhavam para ela com admiração atônita, assim ela subiu na plataforma. Os brâmanes cantaram os mantras de costume e ofereceram oblações no fogo. Depois dos cânticos de invocação de paz e quando a música parou de tocar, Dristadyumna pegou Draupadi pela mão e a levou até o centro do salão.

Então, proclamou bem alto e claro: "Atenção todos os príncipes presentes nesta assembléia, aqui está o arco. Lá está o alvo e aqui estão as flechas. Aquele que atirar cinco flechas seguidas através do orifício da roda e acertar o alvo sem erro, se também for de boa família e presença, conquistará a minha irmã". Depois, narrou para sua irmã Draupadi o nome, descendência e descrição de vários pretendentes reunidos ali.

Muitos príncipes notáveis se levantaram um após o outro e tentaram em vão botar a corda no arco. Era muito pesado e rígido para eles, e voltavam para seus lugares confusos e envergonhados. Shishupala, Jarasandha, Shalya e Duryodhana estavam entre os aspirantes mal sucedidos. Quando Karna se adiantou, todo o público esperava que ele tivesse sucesso, mas ele falhou apenas por um fio de cabelo, a corda escapou e ricocheteou para trás, então o poderoso arco saltou de suas mãos como se fosse algo vivo.

Houve um grande clamor e gritos furiosos, alguns até diziam que era uma prova impossível feita apenas para humilhar os reis. De repente, todo barulho silenciou, pois um jovem dum grupo de brâmanes se levantou e foi em direção ao arco.

Era Arjuna que veio disfarçado de brâmane. Quando ele se levantou; rompeu-se um clamor selvagem da multidão. Os próprios brâmanes tinham opiniões divididas. Alguns estavam muito contentes por haver entre eles um jovem vigoroso o bastante para competir, enquanto outros, invejosos ou materialistas, diziam que era impertinência esse brahmachari entrar na competição quando heróis como Karna, Shalya e outros fracassaram.

Mas havia outros ainda que falavam de forma diferente pois notaram as proporções nobres e atléticas daquele rapaz. Eles diziam: "Nós achamos pela aparência dele que ele vai ganhar. Ele parece muito seguro de si e sabe com certeza o que quer. O brâmane pode ser mais fraco fisicamente, mas será que é só questão de força? E o poder das austeridades? Por que ele não pode tentar"? E o abençoaram.

Arjuna se aproximou do local onde estava o arco e perguntou a Dristadyumna: "Um brâmane pode tentar curvar o arco"?

Dristadyumna respondeu: "Salve melhor entre os brâmanes, minha irmã será a companheira de vida de qualquer um de boa família e presença que curvar o arco e acertar o alvo. Minha palavra está de pé e não haverá nenhuma volta atrás dela".

Então, Arjuna meditou em Narayana, o Deus Supremo, pegou o arco com suas mãos e colocou a corda com facilidade. Ele pôs uma flecha na corda e olhou em volta com um sorriso, enquanto a multidão se absorvia num silêncio encantado.

Depois, sem hesitar, ele atirou cinco flechas em seguida através do mecanismo girante bem no alvo que caiu no chão. A multidão ficou em tumulto e os instrumentos musicais ressoaram.


Arjuna conquista Draupadi

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Arjuna e Draupadi por Ravi Varna.

Os brâmanes que estavam na assembléia em grande número gritavam hinos de júbilo, e agitavam suas peles de veado com exaltação como se toda comunidade tivesse conquistado Draupadi. O alvoroço que se seguiu é indescritível.

Draupadi brilhava com sua jovem beleza. Sua face luzia de felicidade a escorrer de seus olhos que olhavam para Arjuna. Ela se aproximou dele e pôs o colar de flores em seu pescoço.

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Yudhisthira, Nakula e Sahadeva voltaram para a casa do oleiro com pressa a fim de darem a boa notícia imediatamente à sua mãe.

Bhima ficou sozinho na assembléia com temor de que os kshatriyas fizessem algum mal a Arjuna. Como foi previsto por Bhima, os príncipes ficaram irados. Eles disseram: "A prática de swayamvara, a escolha do noivo, não é adequada para brâmanes. Se essa donzela não se importa em casar com um príncipe, deve permanecer virgem e se queimar na pira. Como um brâmane pode se casar com ela"? Uma luta livre parecia iminente.

Bhima arrancou uma árvore pela raiz, tirou a folhagem e se posicionou armado com esse porrete formidável ao lado de Arjuna pronto para qualquer evento. Draupadi não dizia nada mas segurava o manto de pele de veado que vestia Arjuna.

Krishna, Balarama e outros procuraram acalmar os que criaram a confusão. Arjuna procedeu para a casa do oleiro acompanhado por Draupadi.

Enquanto Bhima e Arjuna levavam Draupadi para sua residência temporária, Dristadyumna os seguiu à distância, e sem ser visto por eles, observou tudo que aconteceu lá. Ele ficou pasmado e maravilhado com o que viu, e quando voltou, disse em segredo ao rei Drupada: "Pai, acho que eles são os Pandavas. Draupadi os acompanhou e segurava no manto de pele de veado daquele rapaz sem nenhuma vergonha. Eu também os segui, e vi todos os cinco e a venerável e augusta dama que, não tenho dúvida, era a própria Kunti".

Kunti e os Pandavas foram ao palácio a convite de Drupada. Dharmaputra confessou ao rei que eram os Pandavas. Também informou ao rei de sua decisão de se casarem com Draupadi todos juntos.

Drupada ficou muito feliz em saber que eram os Pandavas, o que acalmou toda ansiedade em relação ao inimigo Drona. Mas ficou pasmo e descontente ao ouvir que todos se casariam com Draupadi.

Drupada se opôs e disse: "Que perversão! Como essa idéia veio em sua cabeça, essa idéia imoral que vai contra os bons costumes da tradição".

Yudhisthira respondeu: "Ó rei, por favor nos perdoe. Numa época de grande perigo nós juramos que compartilharíamos tudo entre nós igualmente e não podemos quebrar esse juramento. Nossa mãe que nos ordenou assim". Finalmente, Drupada concordou e o casamento foi celebrado.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 30 Nov 2009, 23:54

Capítulo 18

Indraprastha

Quando os incidentes que aconteceram no swayamvara em Panchala chegaram em Hastinapura, Vidura ficou contente. Ele foi até Dhritarastra imediatamente e disse: "Salve rei, nossa família ficou mais forte pois a filha de Drupada se tornou nossa nora. Nossa sorte está boa".

Dhritarastra pensou, devido à afeição cega por seu filho, que Duryodhana, também um dos pretendentes do swayamvara, conquistou Draupadi. Com essa impressão errada, ele respondeu: "Realmente, como você disse, estamos num bom período. Vá e traga Draupadi imediatamente. Vamos dar a Panchali uma calorosa recepção".

Vidura apressou-se para corrigir o erro. Ele disse: "Os Pandavas abençoados estão vivos e foi Arjuna quem conquistou a filha de Drupada. Os cinco Pandavas se casaram com ela juntos numa cerimônia conforme os Shastras (Escrituras Sagradas). Juntos com sua mãe Kuntidevi, estão felizes e bem sob os cuidados de Drupada".

Com essas palavras de Vidura, Dhritarastra ficou frustrado mas disfarçou seu desapontamento. Ele disse a Vidura com alegria aparente: "Ó Vidura, fico feliz com suas palavras. Os queridos Pandavas estão mesmo vivos? Nós lamentamos tanto a morte deles. Essa notícia que você me deu agora é como um bálsamo para o meu coração. Então a filha de Drupada se tornou nossa nora. Bom, bom, muito bom".

A inveja e o ódio de Duryodhana duplicaram quando soube que os Pandavas conseguiram escapar do palácio de cera e depois de um ano incógnitos, voltaram ainda mais fortes por causa da aliança com o poderoso rei de Panchala. Duryodhana e seu irmão Dushasana foram até seu tio Shakuni e se lamentaram: "Tio, estamos perdidos. Fomos passados para trás por confiarmos em Purochana. Nossos inimigos, os Pandavas, são mais espertos que nós, e também parece que a boa sorte os favorece. Dristadyumna e Shikhandi se tornaram seus aliados. O que vamos fazer"?

Karna e Duryodhana foram até o cego Dhritarastra. Duryodhana disse: "Você disse a Vidura que dias melhores chegaram para nós. Será que é um bom período para nós mesmo quando nossos inimigos naturais aumentaram tanto seu poder que agora vão nos destruir com certeza? Não conseguimos sucesso em nossa estratégia contra eles e o fato deles saberem é um perigo ainda maior. A situação chegou nesse ponto, ou nós os destruímos aqui e agora ou nós que vamos perecer. Faça o favor de nos instruir sobre esse assunto".

Dhritarastra respondeu: "Querido filho, o que disse é verdade. Entretanto, não podemos deixar que Vidura saiba. Tudo isso aconteceu porque eu falei com ele sobre o assunto. Deixem-me ouvir as sugestões que vocês têm sobre o que devemos fazer".

Duryodhana disse: "Estou tão perturbado que não me ocorre nenhum plano. Talvez, possamos aproveitar o fato dos Pandavas não terem nascido de uma única mãe e criar inimizade entre os filhos de Madri e os de Kunti. Também podemos tentar subornar Drupada para entrar no nosso lado. O fato de ter dado sua filha em casamento aos Pandavas não é um impedimento para que se torne nosso aliado. Não existe nada que não possa ser conquistado com o poder da riqueza".

Karna riu e disse: "Isso é conversa fútil".

Duryodhana continuou: "Devemos nos assegurar de que os Pandavas não venham aqui e demandem o reino que agora está em nossa posse. Podemos contratar alguns brâmanes para espalharem rumores convenientes na cidade de Drupada e bombardear os Pandavas com a informação de que sofrerão um perigo muito grande se vierem a Hastinapura. Assim eles ficarão com medo de vir para cá e estaremos a salvo, deles".

Karna respondeu: "Isso também é conversa fútil. Você não vai amedrontá-los assim".

Duryodhana continuou: "Não podemos criar discórdia entre eles com o uso de Draupadi? O casamento polígamo dela é muito conveniente para nós. Vamos criar dúvidas e ciúmes em suas mentes pelo trabalho de peritos na ciência do erotismo. Vamos ter sucesso com certeza. Podemos conseguir uma bela mulher para seduzir alguns dos filhos de Kunti e fazer Draupadi se voltar contra eles. Se Draupadi suspeitar de qualquer um deles, podemos convidá-lo a Hastinapura e usá-lo para que nosso plano prospere".

Karna também riu disso com escárnio. Ele disse: "Nenhuma das suas propostas é nem um pouco boa. Você não vai conquistar os Pandavas com estratégia. Quando eles estavam aqui e eram como pássaros imaturos sem asas desenvolvidas, percebemos que não pudemos enganá-los, e você acha que vamos conseguir enganá-los agora, quando adquiriram experiência e além do mais estão sob a proteção de Drupada. Eles adivinharam seus planos. Estratégia não vai funcionar daqui em diante. Você não conseguirá disseminar discórdia entre eles. Você não pode subornar o sábio e honorável Drupada. Ele não deixará os Pandavas por nada neste mundo. Draupadi também não pode ser voltada contra eles. Portanto, só há um jeito para nós, que é atacá-los antes que fiquem mais fortes e outros amigos se unam a eles. Temos que fazer um ataque surpresa contra os Pandavas e Drupada antes que Krishna se junte a eles com seu exército Yadava. Nós temos que seguir o caminho heróico apesar da nossa dificuldade, como é digno para kshatriyas. Ardis serão inúteis". Assim falou Karna. Dhritarastra não se convenceu. O rei então foi até Bhisma e Drona e pediu seu conselho.

Bhisma ficou muito feliz em saber que os Pandavas estavam vivos e bem como convidados do rei Drupada em Panchala, com cuja filha se casaram. Ao ser consultado sobre os passos a serem dados, Bhisma, sábio com o conhecimento maduro sobre certo e errado, respondeu:

"A conduta adequada é convidá-los de volta com boas vindas e dar metade do reino a eles. Os cidadãos do estado também desejam esse acordo. Essa é a única forma de manter a dignidade de nossa família. Existem muitos comentários depreciativos em relação a você e o incidente da casa de cera. Todas acusações, até todas suspeitas, vão se acalmar se você convidar os Pandavas e ceder metade do reino para eles. Este é o meu conselho".

Drona também deu o mesmo conselho e sugeriu o envio dum mensageiro para propor um acordo amigável e estabelecer a paz.

Karna ficou irado com essa sugestão. Ele era muito fiel a Duryodhana e não pôde suportar de jeito nenhum a idéia de dar uma parte do reino aos Pandavas. Ele disse a Dhritarastra:

"Fico surpreso ao ver Drona, que recebeu riqueza e honra de suas mãos, fazer uma sugestão dessas. Um rei deve ter espírito crítico em relação aos conselhos de seus ministros antes de aceitar ou rejeitar".

Com essas palavras de Karna, Drona com os olhos cheios de fúria disse: "Seu maldoso, você aconselhou o rei a ir pelo caminho errado. Se Dhritarastra não fizer o que Bhisma e eu aconselhamos, os Kauravas encontrarão com certeza sua destruição no futuro próximo".

Então Dhritarastra procurou o conselho de Vidura que respondeu:

"O conselho dado por Bhisma, patriarca de nossa dinastia, e Drona, o mestre, é sábio e justo e não deve ser desprezado. Os Pandavas também são seus filhos como Duryodhana e seus irmãos. Você precisa realizar que esses conselhos para prejudicar os Pandavas são daqueles destinados à destruição da dinastia. Drupada e seus filhos bem como Krishna e os Yadavas são aliados fiéis dos Pandavas. É impossível derrotá-los em batalha. O conselho de Karna é tolo e errado. A notícia se propagou amplamente de que tentamos matar os Pandavas na casa de cera, e nossa primeira obrigação é nos inocentarmos dessa culpa. Os cidadãos e o país inteiro estão felizes em saber que os Pandavas estão vivos e desejam vê-los novamente. Não dê ouvidos às palavras de Duryodhana. Karna e Shakuni são só dois jovens, ignorantes sobre ciência política e incompetentes para aconselhar. Siga o conselho de Bhisma".

No fim, Dhritarastra determinou que a paz fosse estabelecida por ceder metade do reino aos filhos de Pandu. Ele mandou Vidura ao reino de Panchala para trazer os Pandavas e Draupadi.

Vidura foi para a cidade do rei Drupada num veículo veloz e levou consigo vários tipos de jóias e outros presentes valiosos.

Vidura prestou os devidos respeitos ao rei Drupada e pediu-lhe em nome de Dhritarastra para mandar os Pandavas com Panchali a Hastinapura.

Drupada não confiava em Dhritarastra, mas respondeu simplesmente: "Os Pandavas podem fazer o que quiserem".

Vidura foi até Kuntidevi e se prostrou perante ela. Ela disse: "Filho de Vichitravirya, você salvou meus filhos. Portanto, eles são seus filhos. Eu confio em você. Farei como nos aconselhou". Ela também temia as intenções de Dhritarastra.

Vidura então assegurou: "Seus filhos nunca encontrarão a destruição. Eles herdarão o reino e adquirirão grande renome. Venha, vamos". Por último, Drupada também deu seu consentimento e Vidura voltou a Hastinapura com os Pandavas, Kunti e Draupadi.

Nas boas vindas jubilosas aos príncipes adorados que voltavam para casa após longos anos de exílio e provações, as ruas de Hastinapura foram borrifadas com água e decoradas com flores. Como foi decidido, cederam metade do reino aos Pandavas e Yudhisthira foi devidamente coroado rei.

Dhritarastra abençoou o novo rei coroado Yudhisthira e se despediu com essas palavras: "Meu irmão Pandu tornou este reino próspero. Que você seja um herdeiro digno do renome dele! O rei Pandu gostava de seguir os meus conselhos. E me amava da mesma forma. Meus filhos são malvados e orgulhosos. Eu estabeleci este acordo para que não haja disputa ou ódio entre vocês. Vá para Khandavaprastha e faça sua capital lá. Nossos ancestrais Pururava, Nahusha e Yayati governaram o reino de lá. Era nossa capital antiga. Restabeleça-a e seja famoso". Dhritarastra falou desse jeito afetuoso a Yudhisthira.

Os Pandavas renovaram a cidade em ruínas, construíram palácios e fortes, e mudaram seu nome para Indraprastha. Ela cresceu em riqueza e beleza e se tornou a admiração do mundo.

Os Pandavas governaram felizes lá por trinta e seis anos com sua mãe e Draupadi, e nunca se desviaram do caminho de dharma.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 06 Dez 2009, 23:22

Capítulo 19

Os Pássaros Saranga

Os Puranas narram histórias onde animais e pássaros falam como os humanos, e algumas vezes dão conselhos sadios e até mesmo ensinam conhecimento espiritual. Mas as qualidades naturais dessas criaturas são habilmente feitas para espreitar através deste véu humano.

Uma das belas características da literatura dos Puranas é a alegre fusão entre natureza e realidade. Numa passagem engraçada do Ramayana, Hanuman, conhecido pela alta sabedoria e conhecimento, brincou com a alegria de macaquices quando imaginou que a bela dama que viu dentro do pátio de Ravana era Sita.

É comum entreter as crianças com histórias onde pássaros e animais falam. Mas as histórias dos Puranas se destinam a pessoas adultas, e nelas geralmente se fornece alguma base com explicações de animais que têm o dom da fala humana.

Geralmente, aproveitam-se casos em que essas criaturas foram seres humanos em suas vidas passadas. Como no caso do veado que foi um rishi (sábio) na vida anterior, e a raposa que foi um rei. A degradação subseqüente acontece devido a maldições.

Nesses casos, o veado atua como um veado mas fala como um rishi, e a raposa com sua natureza esperta se expressa com as características dum rei sábio e experiente. Pois as histórias sagradas são veículos interessantes das grandes verdades que transmitem.

Khandavaprastha, era uma floresta cheia de acidentes geográficos, mata cerrada com espinhos e aguilhões e repleta de ruínas e vestígios duma grande cidade morta, na verdade, era um lugar assustador quando passou a ser dos Pandavas.

Imagem
Para ver a imagem em alta definição:http://upload.wikimedia.org

Animais e pássaros selvagens moravam lá, e estava infestada com ladrões e bandidos. Krishna e Arjuna decidiram pôr fogo na floresta e construir uma nova cidade no lugar.

Um pássaro saranga vivia lá com suas quatro crias. O pássaro macho passeava pela floresta agradavelmente com outra fêmea e desprezava sua esposa e filhos. A mãe pássaro cuidava de seus filhinhos.

Quando a floresta incendiou com a ordem de Krishna e Arjuna e o fogo se propagou em todas direções, e fez seu trabalho de destruição, a preocupada mãe pássaro começou a se lamentar:

"O fogo chega cada vez mais perto e queima tudo, e vai chegar aqui logo e nos destruir. Todas criaturas da floresta estão desesperadas e o ar está cheio com a queda agonizante das árvores que caem. Pobres bebês sem asas! Vocês serão presas do fogo. O que posso fazer? Seu pai nos abandonou, e não tenho força suficiente para carregar todos vocês comigo".

Os filhos disseram à mãe que se lamentava dessa forma:

"Mãe, não se atormente por nossa causa. Deixe-nos com nosso destino. Se morrermos aqui, obteremos um bom nascimento em nossa próxima vida. Se deixar sua vida por nossa causa, nossa família será extinta. Voe para um lugar seguro, encontre outro macho e seja feliz. Você terá outros filhos logo e será capaz de nos esquecer. Mãe, reflita e faça o que é melhor para a nossa raça".

Apesar desse pedido determinado, a mãe não tinha como abandonar seus filhos. Ela disse: "Eu ficarei aqui e morrerei nas chamas com vocês".

Nos bastidores da história dos pássaros, um rishi chamado Mandapala teve uma longa vida fixa em seu voto de brahmacharya (celibato) perfeito, mas quando tentou entrar nas regiões superiores, o porteiro disse: "Aqui não tem lugar para um homem sem filhos", e o mandou de volta. Então, ele nasceu como o pássaro saranga e viveu com sua fêmea companheira chamada Jarita. Ela pôs quatro ovos. Então, ele abandonou Jarita e vagueou pela floresta com outra companheira, Lapita.

Os quatro ovos de Jarita chocaram em tempo e são os quatro filhotes mencionados. Como eram filhos de um rishi, puderam consolar e encorajar a mãe daquela forma.

A mãe pássaro disse a seus filhotes: "Tem um buraco de rato ao lado desta árvore. Vou colocá-los lá. Vocês podem entrar no buraco e escapar do fogo. Vou tapar a boca do buraco com terra e o fogo não vai atingi-los. Quando o fogo apagar, abrirei para vocês saírem".

Os filhotes não concordaram, e disseram: "O rato no buraco vai nos devorar. É melhor morrer nas chamas do que ser horrivelmente devorado pelos ratos".

A mãe tentou tranqüilizar os temores dos filhos e disse: "Vi uma águia devorar o rato. Portanto, não tem mais perigo para vocês no buraco".

Mas os filhos responderam: "Com certeza, outros ratos estão no buraco. Nosso perigo não acabou quando a águia matou só um rato. Por favor, salve sua vida e voe antes que o fogo nos alcance e esta árvore se incendeie. Não podemos entrar no buraco dos ratos. Por que deve sacrificar sua vida por nós? Como podemos merecer isso se não fizemos nada por você? Nós só lhe trouxemos tristeza desde que viemos a este mundo. Encontre outro macho e viva feliz".

O fogo que destruiu toda floresta, milagrosamente deixou os bebês pássaros intactos. Quando o fogo diminuiu, a mãe pássaro voltou e viu com espanto que seus filhotes estavam a salvo e gorjeavam alegremente. Ela os abraçou e ficou intensamente feliz.

Quando o fogo estava enfurecido, o pássaro macho, ansioso com a segurança de seus filhotes, expressou seus temores para sua nova amada Lapita. Ela o repreendeu com petulância. Depois de ouvir seus lamentos repetidos, ela disse: "É assim? Eu sei a sua intenção, sei que você quer voltar para Jarita pois já enjoou de mim. Por que dar a desculpa falsa do fogo e dos filhotes? Você mesmo me disse que os filhos de Jarita nunca morrerão no fogo, pois o deus do fogo lhe deu essa bênção. Você pode dizer a verdade e ir embora, se quiser, para sua amada Jarita. Eu serei apenas mais uma das muitas fêmeas de boa fé que foram traídas por machos indignos, e abandonada ao léu nesta floresta. Você pode ir".

Mandapala pássaro disse: "Sua presunção é uma inverdade. Eu nasci como pássaro para ter filhos e estou naturalmente ansioso por causa deles. Eu vou só para vê-los e voltarei para você". Depois de consolar sua nova companheira dessa forma, ele foi até a árvore onde Jarita ficava.

Jarita não deu atenção a seu marido e continuou absorta na alegria de encontrar seus filhotes vivos.

Então, ela se voltou a seu esposo e falou em tom de desprezo por que ele veio. Ele respondeu com afeição:

"Meus filhos estão felizes? Quem é o mais velho"?

Então Jarita respondeu com frieza: "Será que você se importa mesmo? Volte para ela por quem você me abandonou. Seja feliz com ela".

Mandapala filosofou: "Uma mulher não liga mais para seu esposo depois que se tornou mãe. Assim que funciona o mundo. Mesmo o impecável Vasistha foi ignorado por Arundhati".


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 07 Dez 2009, 01:33

Capítulo 20

Jarasandha

Os Pandavas governaram Indraprastha com toda glória. Aqueles que rodeavam Yudhisthira o induziam a realizar o sacrifício Rajasuya e assumir o título de imperador.

Yudhisthira procurou o conselho de Sri Krishna sobre isso. Quando Krishna soube que Dharmaputra queria vê-Lo, partiu em uma quadriga puxada por cavalos velozes e chegou em Indraprastha.

Yudhisthira disse: "Meu povo anseia que eu execute o sacrifício Rajasuya, mas como Você sabe, somente aquele que assegurar o respeito e fidelidade de todos reis, pode executar o sacrifício e conquistar o título de imperador. Por favor me aconselhe, Você não está entre aqueles cuja afeição os torna cegos e parciais. Nem Você é um dos que dão conselhos para agradar e cujo conselho é agradável em vez de verdadeiro ou benéfico".


Imagem
krishna como Embaixador, por Ravi Varma

Krishna respondeu: "Perfeitamente e é por isso que você não pode ser imperador enquanto o poderoso Jarasandha de Magadha estiver vivo e inconquistável. Ele conquistou muitos reis e os mantêm em escravidão. Todos kshatriyas, inclusive o temível Shishupala em pessoa, têm medo de sua bravura e são submissos a ele. Você nunca ouviu falar no malévolo Kamsa, filho de Ugrasena? Depois que ele se tornou genro e aliado de Jarasandha meu pessoal e Eu atacamos Jarasandha. Após três anos de luta contínua tivemos que reconhecer a derrota, então deixamos Mathura e mudamos para Dwaraka no oeste, e construímos uma nova cidade onde vivemos em paz e fartura. Mesmo se Duryodhana, Karna e outros não se oporem a você assumir o título de imperador, Jarasandha vai se opor com certeza. E o único jeito de superar sua oposição é derrotá-lo e matá-lo. Depois você poderá realizar o Rajasuya mas também resgatar e obter a aderência dos reis que languem em suas prisões".

Com essas palavras de Krishna, Yudhisthira disse: "Concordo. Sou apenas um dos muitos reis que governam seus reinos com honestidade e justiça, e vivem uma vida alegre sem ambições. É mera vaidade e presunção desejar se tornar imperador. Por que um rei não consegue ficar satisfeito com seu próprio reino? Portanto, eu rejeito este desejo de ser um imperador. E na verdade, esse título não me tenta nem um pouco. Meus irmãos são quem desejam isso. Quando Você mesmo está com medo de Jarasandha, que esperança podemos ter"?

Bhima não gostou nem um pouco desse espírito de contentamento covarde.

Bhima disse: "A ambição é a virtude mais nobre dum rei. Qual a vantagem de ser forte se não conhece a sua própria força? Não posso me conformar a viver uma vida de ócio inútil e contentamento. Aquele que deixa a indolência e emprega o meio político adequadamente, pode conquistar até quem é mais forte do que si mesmo. A força com o reforço da estratégia pode fazer muito com certeza. O que então não pode ser conquistado com a combinação da minha força física, a sabedoria de Krishna e a destreza de Arjuna? Podemos vencer o poder de Jarasandha se nós três nos unirmos e partirmos para isso sem dúvidas ou temores".

Krishna interrompeu: "Jarasandha deve ser morto com certeza e merece totalmente. Ele colocou injustamente oitenta e seis príncipes na prisão. Ele planeja imolar cem reis e espera se apoderar de mais quatorze. Se Bhima e Arjuna concordarem, Eu os acompanharei e juntos mataremos o rei com estratégia e libertaremos os príncipes prisioneiros. Gostei dessa sugestão".

Yudhisthira não ficou contente com esse conselho. Ele disse: "Isso pode significar na realidade o sacrifício de Bhima e Arjuna que são para mim como meus dois olhos, meramente para gratificar o desejo de ser imperador. Eu não gosto de mandá-los para essa missão perigosa. Eu prefiro muito mais abandonar toda essa idéia".

Arjuna disse: "De que vale a nossa existência sem feitos heróicos, nós que nascemos numa linhagem ilustre? Um kshatriya apesar de dotado com todas as outras boas qualidades não ficará famoso se não tiver atuação. Entusiasmo é a mãe do sucesso. Podemos ganhar fortuna se realizarmos nossos deveres com energia. Mesmo um homem forte pode falhar se, pelo cansaço, não empregar os meios que possui. O fracasso acontece, na grande maioria dos casos, devido à ignorância de sua própria força. Nós sabemos que somos fortes, e não temos medo de usar nossa força até o máximo. Por que Yudhisthira supõe que somos incapazes para essa tarefa? Quando estivermos velhos, será hora de assumir a veste açafrão, ir para a floresta e passar o resto de nossos dias em penitência e austeridade. Agora, devemos ter uma vida estrênua e realizar atos heróicos dignos da tradição da nossa dinastia".

Krishna ficou contente ao ouvir essas palavras e disse: "O que mais pode Arjuna, nascido de Kunti na dinastia Bharata, aconselhar? A morte chega para todos, tanto o herói quanto o indolente. Mas o dever principal de um kshatriya é ser fiel à sua dinastia e fé, e conquistar a glória por derrotar seus inimigos em batalha".

Finalmente, Yudhisthira concordou com a opinião unânime que era dever deles matar Jarasandha.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 13 Dez 2009, 23:50

Capítulo 21

A Morte de Jarasandha

Brihadratha, comandante de três regimentos, governou o reino de Magadha e se tornou célebre como um grande herói. Ele se casou com as duas filhas gêmeas do rei de Kashi e prometeu a elas que não seria parcial com nenhuma das duas.

Brihadratha não foi abençoado com filhos durante muito tempo. Quando chegou na velhice, passou o governo do reino para seus ministros, foi para a floresta com suas duas esposas e se ocupou em austeridades.

Ele foi até o sábio Kaushika, da família Gautama, com uma grande tristeza no coração pela falta de filhos. O sábio ficou comovido com sua tristeza e perguntou o que ele desejava, ele respondeu:

"Não tive filhos por isso abandonei meu reino e vim para a floresta. Dê-me filhos".

O sábio estava comovido e quando pensava em como ajudar o rei, caiu uma manga em seu colo. Ele a pegou e a deu ao rei com a seguinte bênção: "Pegue-a. Seu desejo será satisfeito".

O rei cortou a fruta em duas metades e deu uma a cada esposa. Fez assim para manter sua palavra de ser imparcial com elas. Algum tempo depois que comeram a manga, as duas ficaram grávidas.

O parto aconteceu no devido tempo. Mas em vez de trazer a alegria esperada, os colocou num pesar muito maior do que antes. Pois cada uma delas deu à luz metade de uma criança. Cada metade era um bebê monstruoso que parecia um monte de carne.

Elas eram de fato duas partes complementares e iguais de um bebê, tinham um olho, uma perna, metade da face, uma orelha e assim por diante. Com muita amargura, pediram a seus ajudantes que amarrassem os pedaços horríveis num pano e jogassem fora.

Os ajudantes seguiram a ordem e jogaram o pacote de pano num monte de lixo na rua. Uma rakshasi canibal passou pelo local. Ela ficou atraída quando viu os dois pedaços de carne, e quando os pegou e os juntou, as duas metades se juntaram acidentalmente da forma correta. E imediatamente as duas partes se aderiram e se transformaram numa criança viva e perfeita em cada detalhe.

A rakshasi surpresa não quis matar a criança. Ela assumiu a forma de uma bela mulher e foi até o rei com a criança a quem apresentou, e disse: "Este é o seu filho".

O rei ficou imensamente feliz e o deu a suas duas esposas. Essa criança ficou conhecida como Jarasandha. Ele cresceu e se tornou um homem de imensa força física. Mas seu corpo tinha um ponto fraco, como foi juntado de duas partes separadas, também poderia ser separado novamente em dois, se a força suficiente fosse aplicada.

A verdade importante transmitida por esta história interessante é que duas partes separadas mesmo se colocadas juntas ainda permanecerão fracas, com a tendência de se separarem. Quando decidiram a conquista e morte de Jarasandha, Sri Krishna disse: "Hamsa, Hidimbaka, Kamsa e outros não são mais aliados de Jarasandha. Agora que ele está isolado, é o momento certo de matá-lo. É inútil lutar com exércitos. Ele deve ser provocado a um combate individual e morto".

De acordo com o código de honra daquela época, um kshatriya tinha que aceitar um desafio para um duelo com ou sem armas.

O último deles era uma luta até a morte com os punhos ou como na luta livre. Assim era a tradição kshatriya a qual Krishna e os Pandavas recorreram para matar Jarasandha.

Eles se disfarçaram como homens que aceitaram votos religiosos, vestidos com mantos de cascas de árvores e carregavam a palha darbha sagrada nas mãos. Assim entraram no reino de Magadha e chegaram na capital de Jarasandha.

Jarasandha estava perturbado por causa de presságios de mau agouro. Para se livrar do perigo ameaçador, ele realizou rituais próprios celebrados por sacerdotes, e fez jejuns e penitências.

Krishna, Bhima e Arjuna entraram no palácio desarmados. Jarasandha os recebeu com respeito pois sua aparência nobre indicava uma origem ilustre. Bhima e Arjuna não disseram nada em resposta a suas palavras de boas vindas pois queriam evitar dizerem mentiras.

Krishna falou em nome deles: "Estes dois observam um voto de silêncio no momento como parte de suas austeridades. Eles só podem falar depois da meia-noite". Jarasandha os entreteve no salão de sacrifício e voltou para o palácio.

Jarasandha costumava se encontrar com convidados nobres que aceitavam votos e conversava com eles conforme sua disponibilidade e conveniência, e assim os convidou para a meia-noite.

A conduta deles deixou Jarasandha desconfiado, e ele também observou que eles tinham nas mãos as cicatrizes feitas pela corda do arco e além do mais tinham a atitude altiva dos kshatriyas.

Quando Jarasandha exigiu a verdade deles, eles responderam com franqueza: "Somos seus inimigos e queremos um combate imediato. Você pode escolher qualquer um de nós para lutar com você".

Depois de tomar conhecimento de quem eram, Jarasandha disse: "Krishna, Você é um pastor de vacas e Arjuna é só um menino. Bhima é famoso por sua força física. Por isso, eu quero lutar com ele". Como Bhima estava desarmado, Jarasandha nobremente concordou em lutar com ele sem armas também.

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Bhima e Jarasandha eram tão iguais em força física que lutaram um com outro por treze dias sem parar, sem descanso ou refresco, enquanto Krishna e Arjuna assistiam com uma alternância de esperança e ansiedade.

No décimo quarto dia, Jarasandha mostrou sinais de exaustão, e Krishna avisou Bhima de que havia chegado a hora de pôr um fim nele.

De uma vez, Bhima o levantou e o girou cem vezes no alto, jogou-o no chão, pegou suas pernas e rasgou seu corpo no meio em duas metades.

Bhima rugiu de exaltação. Os dois pedaços se juntaram de imediato e Jarasandha, feito inteiro novamente, levantou-se com o vigor da vida e atacou Bhima outra vez.

Bhima ficou horrorizado com essa visão, e ficou perdido sem saber o que fazer, quando viu Krishna apanhar uma palha, rasgá-la em duas partes, e jogar os pedaços em direções opostas.

Bhima entendeu a dica, e outra vez, rasgou Jarasandha no meio e atirou os dois pedaços em direções opostas, assim não puderam chegar perto e se juntarem. Isso fez com que Jarasandha encontrasse seu fim.

Os príncipes cativos foram libertados e o filho de Jarasandha foi coroado rei de Magadha. E Krishna, Bhima e Arjuna voltaram para Indraprastha.

Com a partida de Jarasandha, agora o caminho estava livre para o Rajasuya que os Pandavas realizaram com grande pompa e esplendor. Yudhisthira assumiu o título de imperador.

As celebrações foram manchadas apenas por um incidente. Quando chegou o encerramento das celebrações festivas, na hora de prestar a primeira homenagem, Shishupala se comportou com desrespeito na assembléia de príncipes e provocou uma luta com Krishna na qual ele foi morto. Essa é a história do próximo capítulo.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 15 Dez 2009, 23:49

Capítulo 22

A Primeira Homenagem


A prática de sair em passeata duma assembléia em protesto contra algo, não é nada novo. Aprendemos no Mahabharata que esse tipo de passeata acontecia até mesmo na Antigüidade.

A Índia daquela época consistia de alguns estados independentes. Apesar de haver só um dharma e uma cultura em toda Terra, a autonomia de cada estado era escrupulosamente respeitada.

Ocasionalmente, algum monarca poderoso e ambicioso procurava o assento de seu colega rei para o seu domínio, que às vezes era dado sem questionar.

Depois de receber esse trono, ele realizava um grande sacrifício Rajasuya, o qual era assistido por todos os reis concordantes como sinal de reconhecimento da sua supremacia.

De acordo com o costume, os Pandavas convidaram os outros reis depois que mataram Jarasandha e executaram o Rajasuya.

Chegou a hora de prestar as homenagens da ocasião. Era costume prestar a primeira homenagem ao convidado que era considerado com o maior mérito para ter a primazia sobre todos os outros.

Surgiu a dúvida de quem deveria ser o primeiro homenageado. O patriarca tinha a opinião enfática de que Sri Krishna, o rei de Dwaraka, tinha que ser homenageado primeiro, que também era a opinião pessoal de Yudhisthira.



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Yudhisthira homenageia Sri Krishna.

Yudhisthira seguiu o conselho e sob suas ordens, Sahadeva ofereceu a Sri Krishna as homenagens próprias da tradição. Shishupala, o rei de Chedi, que odiava Krishna como só a maldade pode odiar a bondade, não pôde tolerar isso.

Ele riu alto com desprezo e disse: "Que ridículo e injusto, mas não estou surpreso. O homem que pediu o conselho nasceu na ilegitimidade. (Uma alusão ofensiva aos filhos de Kunti). O homem que deu o conselho nasceu de alguém que sempre desce do alto para baixo. (Referência ao fato de Bhisma ser filho de Ganga, o rio que flui naturalmente das regiões superiores para as inferiores). E aquele que prestou as homenagens também nasceu ilegitimamente. E o que posso dizer do homem homenageado! Ele é um tolo de nascença e um pastor de vacas por linhagem. Estúpidos entretanto são os membros desta assembléia se não tiverem nada a dizer sobre isto! Isto não é lugar para um homem digno".

Alguns príncipes na assembléia aplaudiram Shishupala. Encorajado pelos aplausos, ele se dirigiu a Yudhisthira:

"Com tantos príncipes reunidos aqui, é uma vergonha que você preste a primeira homenagem a Krishna. Não oferecer respeito onde é devidamente correto e oferecer onde não é adequado são ofensas igualmente graves. É uma pena que com todas suas pretensões imperiais, seja ignorante sobre isso".

À medida que falava, ficava cada vez mais bravo, e continuou: "Você ignorou os vários reis e heróis que estão aqui pelo seu convite pessoal e com desprezo malicioso por todos eles, prestou homenagens reais a um rústico pastor de vacas, um mero ninguém. Vasudeva, o pai de Krishna, era um empregado trivial de Ugrasena. Nem sangue real Ele tem. Será que aqui é o lugar apropriado para exibir a sua parcialidade vulgar por Krishna, o filho de Devaki? Será que é digno dos filhos de Pandu? Seus filhos de Pandu, vocês são inexperientes, jovens inconseqüentes, totalmente ignorantes sobre a forma de conduzir uma assembléia real. Esse velho caduco Bhisma lhe deu um conselho estúpido, e fez você de tolo. Krishna, por quê? Krishna não é soberano de nada! Ó Yudhisthira, como você ousou fazer essa primeira homenagem infeliz nesta assembléia ilustre de reis? Ele nem tem o mérito da idade, e se você admira cabelos grisalhos, o pai Dele não está vivo? Você não pode tê-Lo homenageado como preceptor com certeza, pois seu preceptor é Drona que está aqui nesta assembléia. Será que é por ser um perito na execução de sacrifícios que O homenageou? Não pode ser, pois Vyasa, o grande mestre, está presente. Seria melhor se prestasse a primeira homenagem a Bhisma, apesar de velho caduco, tem o mérito de ser o homem mais velho da sua casa. O professor da sua família, Kripacharya, também está presente nesta assembléia. Como você pôde então prestar a primeira homenagem a esse pastor de vacas? Asvathama, o herói perito em todos shastras, está aqui. Como você escolheu Krishna e se esqueceu dele? Entre os príncipes reunidos aqui, está Duryodhana. Aqui também está Karna, o discípulo de Parashurama. Você o deixou de lado devido à sua parcialidade infantil, você escolheu Krishna para a primeira homenagem, Krishna que não é nem nobre, nem herói, nem educado, nem santo, nem mesmo branco, não passa dum pastor de vacas inferior! Assim você desonrou todos nós, que você convidou aqui. Caros reis, não é por medo que concordamos com Yudhisthira assumir o título de imperador. Nós pessoalmente não nos importamos muito se ele é amigo ou inimigo. Mas, depois de ouvir muita tagarelice sobre sua honestidade, queríamos ver ele empunhar a bandeira de dharma. Agora ele nos desonrou de propósito, depois de todo esse discurso sobre virtude e dharma. Que virtude ou dharma pode haver em dar a primazia da honra a esse vilão Krishna que matou Jarasandha de forma injusta? Daqui em diante, vocês têm que chamar Yudhisthira de injusto. Seu Krishna, que impudência de Sua parte aceitar essa homenagem sem merecer, que esses Pandavas mal-guiados prestaram a Você! Você Se esqueceu de quem é? Isso é como o escárnio de mostrar belas coisas a um cego ou oferecer uma donzela em casamento a um eunuco. Da mesma forma, essas honras reais para Você são um insulto. Agora fica evidente que o pretenso imperador Yudhisthira, o senil Bhisma, e seu colega Krishna são todos feitos da mesma coisa".

Depois que Shishupala falou essas duras palavras, levantou-se de seu assento, foi para a saída e chamou outros reis para se juntarem a ele em ressentimento pelo insulto. Muitos deles o seguiram.

Yudhisthira correu atrás deles e tentou apaziguá-los com palavras suaves de paz mas em vão, pois todos estavam muito bravos para serem apaziguados.

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A vaidade agressiva de Shishupala cresceu até o estopim de uma briga, que resultou numa terrível luta entre Krishna e Shishupala, onde o último foi morto por Seu disco.

O Rajasuya foi devidamente celebrado e Yudhisthira reconhecido como imperador.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 17 Dez 2009, 01:59

Capítulo 23

Shakuni entra em Cena

No encerramento do Rajasuya, os príncipes, sacerdotes e idosos, que se reuniram com esse propósito, partiram de volta para suas casas. Vyasa também veio se despedir. Dharmaputra se levantou e o recebeu com o devido respeito e sentou-se a seu lado.

O sábio disse: "Salve filho de Kunti, você recebeu o título de imperador o qual merece com eminência. Que a ilustre dinastia Kuru ganhe ainda mais glória com você. Despeça-se para que eu possa voltar ao meu retiro".

Yudhisthira tocou nos pés de seu progenitor e guru e disse: "Salve mestre, só você pode remover minhas apreensões. Sábios previram maus presságios sobre a ocorrência de eventos catastróficos. Essa previsão já aconteceu com a morte de Shishupala ou tem mais por vir"?

Bhagavan Vyasa respondeu: "Querido filho, está para acontecer muita tristeza e sofrimento por treze anos seguidos. Os presságios indicam a destruição da raça kshatriya e não acabaram com a morte de Shishupala. Muito longe disso. Centenas de reis morrerão, e a velha ordem das coisas passará. Essa catástrofe brotará da inimizade entre você com seus irmãos dum lado e seus primos, os filhos de Dhritarastra, do outro. Culminará numa guerra que causará na prática a aniquilação da raça kshatriya. Ninguém pode ir contra o destino. Seja firme e fixo na justiça. Seja vigilante e governe o reino, adeus". E Vyasa abençoou Yudhisthira. As palavras de Vyasa deixaram Yudhisthira muito triste e com uma grande repugnância pela ambição e vida mundana em si.

Ele informou seus irmãos sobre a previsão do inevitável desastre racial. A vida para ele parecia muito amarga e exaustiva, e seu destino em particular cruel e insuportável.

Arjuna disse: "Você é um rei e não é certo que fique agitado. Vamos enfrentar o destino com a fronte destemida e cumprir o nosso dever".

Yudhisthira respondeu: "Irmãos, que Deus nos proteja e nos dê sabedoria. De minha parte, aceito o voto de nunca falar com aspereza a meus irmãos ou a meus súditos pelos próximos treze anos. Evitarei todo pretexto para conflito. Nunca darei vazão à ira, que é a causa básica da inimizade. Será o meu dever não dar chance para ira ou pretexto de hostilidade. Assim aproveitaremos o aviso de Bhagavan Vyasa". Seus irmãos concordaram cordialmente.

O primeiro evento de uma série que culminou na matança devastadora no campo de batalha coberto de sangue em Kurukshetra, e o evento que foi a raiz do mal de tudo, foi o jogo de dados em que Yudhisthira foi trapaceado por Shakuni, que era o gênio diabólico de Duryodhana.

Por que o sábio e bom Yudhisthira se submeteu a ser persuadido para esse passo, que ele deveria saber sobre suas possibilidades maléficas?

A causa principal é que estava fixo em ficar em termos amigáveis com seus primos por não se opor à vontade deles. E um convite amigável para um jogo de dados não podia ser recusado sumariamente, pois a etiqueta daquela época tornava uma questão de honra aceitar um jogo de risco igual.

Por causa de sua extrema ansiedade em promover a boa vontade, deixou o campo aberto para a semente venenosa do ódio e morte. Este é um exemplo da futilidade dos planos humanos, por melhores intencionados ou sábios, sem a ajuda divina. Nossa melhor sabedoria é vã contra o destino, e se o destino for gentil, nossas próprias tolices virarão vantagem.

Enquanto Dharmaputra estava altamente preocupado com cuidado para evitar uma desavença a todo custo, Duryodhana queimava de inveja quando lembrava da prosperidade dos Pandavas que foi testemunha em sua capital durante o sacrifício Rajasuya.

Duryodhana viu uma riqueza sem precedentes, belíssimas portas de cristal transparente várias obras de arte primorosas no salão de assembléia dos Pandavas, tudo a sugerir grande prosperidade.

Ele também viu como os reis de vários países ficaram felizes em se tornarem aliados dos Pandavas. Isso causou nele um sofrimento intolerável. Ele estava tão absorto no pesar por causa da prosperidade dos Pandavas que não ouviu Shakuni de imediato ao seu lado, que falava com ele.

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Shakuni perguntou: "Por que você suspira? Por que está atormentado com tanta tristeza"?

Duryodhana respondeu: "Yudhisthira, rodeado de seus irmãos, é como Indra, o rei dos deuses. Diante dos olhos de todos os reis reunidos, Shishupala foi morto e nenhum deles teve coragem para se adiantar e vingá-lo. Como os vaishyas que vivem do comércio, eles trocaram sua honra, jóias e riqueza pela boa vontade de Yudhisthira. Como posso evitar o sofrimento depois de ver tudo isso? Qual o bem de viver"?

Shakuni disse: "Duryodhana, os Pandavas são seus irmãos. Não é certo que você fique com ciúmes da prosperidade deles. Eles apenas desfrutam da sua herança legítima. Por sua boa fortuna, eles prosperaram e floresceram sem fazer nenhum mal a outros. Por que você tem que ter ciúmes? Como a força e felicidade deles pode diminuir sua grandeza? Seus irmãos e parentes estão a seu lado e obedecem você. Drona, Asvathama e Karna estão com você. Por que você se lamenta quando Bhisma, Kripa, Jayadratha, Somadatta e eu mesmo somos seus protetores? Você pode até mesmo conquistar o mundo inteiro. Não se entregue à lamentação".

Com essas palavras, Duryodhana disse: "Shakuni, é verdade que tenho muitos para me apoiar. Por que então não começamos a guerra e expulsamos os Pandavas de Indraprastha"?

Mas Shakuni disse: "Não. Isso não será fácil, mas sei um jeito para tirar Yudhisthira de Indraprastha sem luta ou derramamento de sangue".

Os olhos de Duryodhana brilharam, parecia muito bom para ser verdade. Ele perguntou incrédulo: "Tio, é possível dominar os Pandavas sem o sacrifício de nenhuma vida? Qual é o seu plano"?

Shakuni respondeu: "Yudhisthira gosta do jogo de dados mas não é habilidoso, e é ignorante sobre os truques e a oportunidade que oferece aos espertos. Se o convidarmos para um jogo, ele aceitará, pois seguirá a tradição dos kshatriyas. Eu conheço os truques do jogo e jogarei no seu lugar. Yudhisthira será como uma criança indefesa contra mim. Eu ganharei seu reino e fortuna para você sem derramar uma gota de sangue".


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 22 Dez 2009, 11:41

Capítulo 24

O Convite

Duryodhana e Shakuni foram até Dhritarastra. Shakuni iniciou a conversa. Ele disse: "Salve rei, Duryodhana está abatido com pesar e ansiedade. Você não dá atenção a seu sofrimento intolerável. Por que essa indiferença"?

Dhritarastra doido de amor por seu filho abraçou Duryodhana e disse: "Não entendo por que você está desolado. De tudo que existe, o que você já não desfruta? O mundo inteiro está a seus pés. Você está rodeado por todos tipos de prazeres como os deuses, por que então suspira com tanto sofrimento? Você aprendeu os Vedas, a arte do arco e flecha, e outras ciências com os melhores mestres. Como meu primogênito, você é o herdeiro do trono. O que mais você anseia? Diga-me"?

Duryodhana respondeu: "Pai, como qualquer outro, rico ou pobre, eu como e cubro minha nudez, mas acho a vida intolerável. De que vale viver uma vida assim"?

Então, ele revelou em detalhes a inveja e o ódio que consumiam sua vida e tiravam todo o seu sabor. Ele mencionou a prosperidade que viu na capital dos Pandavas, e isso era mais amargo do que a perda de tudo que possuía.

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Ele rompeu: "Contentamento com sua própria sorte não é característica de um kshatriya. Medo e vergonha diminuem a dignidade de reis. Minha fortuna e prazeres não me satisfazem mais desde que testemunhei a muito maior prosperidade de Yudhisthira. Ó rei, os Pandavas cresceram, enquanto nós diminuímos".

Dhritarastra disse: "Meu querido filho, você é meu filho mais velho com minha esposa real e herdeiro da glória e grandeza de nossa famosa dinastia. Não cultive nenhum ódio pelos Pandavas. Tristeza e morte serão o único resultado do ódio entre parentes irmãos, especialmente quando eles são impecáveis. Diga-me porque você odeia o sincero e honesto Yudhisthira? A prosperidade dele não é nossa também? Nossos amigos são amigos dele. Ele não tem o menor ciúme ou ódio de nós. Você é igual a ele em heroísmo e linhagem. Por que você tem que ter inveja de seu irmão? Não. Você não pode ser invejoso". Assim falou o velho rei, apesar de adorar seu filho, ocasionalmente não hesitava em falar o que achava justo.

Duryodhana não gostou nem um pouco do conselho de seu pai, e sua resposta não foi muito respeitosa.

Ele respondeu: "O homem sem bom senso, mas afundado em conhecimento, é como uma concha de madeira imersa em comida saborosa a quem nem dá sabor nem beneficia. Você tem muito conhecimento sobre ciência política mas não tem nenhuma sabedoria de estadista, como seu conselho mostra claramente. O caminho do mundo é um e a administração do estado, outro bem diferente. Como disse Brihaspati: 'Perdão e contentamento, apesar de deveres das pessoas comuns, não são virtudes dum rei'. O dever dum kshatriya é a constante busca da vitória".

Duryodhana falou assim com citações de máximas políticas e exemplos, e fez a pior parecer a melhor razão.

Então Shakuni interveio e expôs em detalhes seu plano infalível de convidar Yudhisthira para um jogo de dados, derrotá-lo totalmente e despojar tudo que possui sem recorrer a exércitos.

O malvado Shakuni encerrou assim: "Você apenas terá que mandar um convite ao filho de Kunti para jogar um jogo de dados. Deixe o resto comigo".

Duryodhana acrescentou: "Shakuni ganhará para mim a fortuna dos Pandavas sem nenhuma luta, se você apenas concordar em convidar Yudhisthira".

Dhritarastra disse: "Sua sugestão não parece certa, Vamos perguntar a Vidura sobre isso. Ele nos aconselhará da forma correta".

Mas Duryodhana não quis saber de consultar Vidura. Ele disse a seu pai: "Vidura só nos dará as banalidades do moralismo ordinário, que não nos ajudará em nosso objetivo. A política dos reis deve ser bem diferente das boas máximas de escrituras, e o teste é bem sucedido em situações severas. Além do mais, Vidura não gosta de mim e é parcial com os Pandavas. Você sabe disso tanto quanto eu".

Dhritarastra disse: "Os Pandavas são fortes. Não acho inteligente criar antagonismo com eles. O jogo de dados só causará inimizade. As paixões resultantes do jogo não terão limites. Não devemos fazer isso".

Mas Duryodhana estava perturbado: "O estadista sábio se apóia em extinguir todo medo e se defender pelos seus próprios recursos. Será que não devemos forçar a situação enquanto ainda somos mais poderosos que eles? Essa é a verdadeira precaução. Uma oportunidade perdida pode não voltar nunca mais, e não é que inventamos o jogo de dados para prejudicar os Pandavas. É um passatempo antigo que os kshatriyas sempre praticaram, e se agora vamos nos servir disso para ganhar nossa causa sem derramamento de sangue, qual é o problema"?

Dhritarastra respondeu: "Querido filho, eu estou velho. Faça como quiser. Mas a linha que você seguiu não me agrada. Tenho certeza que você se arrependerá mais tarde. Assim trabalha o destino".

No fim, sem mais nenhum argumento, com extrema fadiga e sem esperança de dissuadir seu filho, Dhritarastra concordou, e ordenou aos ajudantes que preparassem um salão de jogos. Mesmo assim ele não suportou e foi consultar Vidura em segredo sobre o assunto.

Vidura disse: "Ó rei, isso sem dúvida nenhuma trará a ruína da sua dinastia por produzir um ódio insaciável".

Dhritarastra que não conseguiu se opor ao pedido de seu filho, disse: "Se a sorte nos favorecer não tenho temores sobre esse jogo. Do contrário, sorte contra nós, que podemos fazer? Pois o destino é todo poderoso. Vá e convide Yudhisthira em meu nome para vir jogar dados". Assim ordenado, Vidura foi até Yudhisthira com um convite.

Dhritarastra fraco de espírito, super pressionado, permitiu o desejo de seu filho por causa de seu apego por ele, apesar do fato dele saber que essa era a forma que o próprio destino atuava.


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Xevious » 22 Dez 2009, 12:23

eita povo jogador esse
é a segunda vez que se propoem a resolver os problemas
com jogos de dados
Conheça nossa TV Intonses Musica => http://www.livestream.com/intonsesmusica

Opiniões sobre a programação aqui
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Re: O Mahabharata

Mensagempor Margarida » 23 Dez 2009, 00:25

Capítulo 25

A Aposta

Quando viu Vidura, Yudhisthira perguntou com ansiedade: "Por que você está tão infeliz? Está tudo bem com os nossos parentes em Hastinapura? O rei e os príncipes estão bem"?

Vidura o comunicou sobre sua missão: "Todos estão bem em Hastinapura. Como vão todos vocês? Vim convidá-los em nome do rei Dhritarastra para virem conhecer o novo salão de jogos que foi construído. Eles construíram um belo salão de jogos assim como o de vocês. O rei gostaria que viesse com seus irmãos, para conhecerem tudo, jogar um jogo de dados e voltar à sua capital".

Yudhisthira procurou a opinião de Vidura: "Jogos com apostas criam discórdia entre kshatriyas. Quem é inteligente os evita se puder. Nós sempre nos abrigamos em seu conselho. O que nos aconselha a fazer"?

Vidura respondeu: "Todo mundo sabe que o jogo de dados é a causa básica de muitos males. Fiz o que pude para me opor a essa idéia. Mesmo assim o rei me ordenou que o convidasse e assim eu vim. Você pode fazer o que desejar".

Apesar desse aviso, Yudhisthira foi para Hastinapura com seus irmãos e séqüito. Talvez surja a dúvida por que o sábio Yudhisthira aceitou o convite.

Podem haver três motivos. Pessoas correm conscientemente em direção à sua ruína induzidas pela luxúria, jogo e bebida. Yudhisthira gostava de jogar. A tradição kshatriya tornava uma questão de etiqueta e honra não recusar um convite para um jogo de dados.

Tem a terceira razão também. Fiel ao voto que aceitou quando Vyasa o avisou sobre as disputas que surgiriam e produziriam a destruição da raça. Yudhisthira não daria chance alguma para desagradar ou contrariar com a recusa o convite de Dhritarastra.

Essas causas conspiraram com sua inclinação natural para fazer Yudhisthira aceitar o convite e ir para Hastinapura. Os Pandavas e seu séqüito ficaram num palácio magnífico reservado a eles.

Yudhisthira descansou no dia em que chegaram, e depois dos deveres cotidianos formais, foi para o salão de jogos na manhã seguinte.

Depois das trocas de saudações costumeiras, Shakuni anunciou a Yudhisthira que o pano para jogar estava aberto e o convidou para o jogo.

Yudhisthira disse primeiro: "Caro rei, jogo é ruim. Não é por heroísmo ou mérito que alguém ganha um jogo de azar. Asita, Devala e outros rishis que são bem versados em assuntos mundanos declararam que o jogo deve ser evitado pois oferece espaço para o engano. Eles também disseram que a conquista em batalha é o caminho correto para os kshatriyas. Você não é ignorante sobre isso".

Mas uma parte dele, com a fraqueza do gosto por jogo, estava em guerra com seu juízo, e bem no fundo do coração, Yudhisthira desejava jogar.

Vemos esse conflito na discussão com Shakuni. Shakuni de espírito mordaz percebeu essa fraqueza de imediato e disse: "Que há de errado no jogo? O que é de fato uma batalha? O que é até mesmo uma discussão entre acadêmicos védicos? O sábio consegue a vitória sobre o ignorante. O melhor vence em todos os casos. É apenas um teste de força ou habilidade, isso é tudo, e não há nada de errado nisso. Em conseqüência, em todo campo de atividade, o experiente derrota o iniciante, e é isso o que acontece num jogo de dados também. Mas se você está com medo, não precisa jogar. Mas não saia com essa desculpa esfarrapada de certo e errado".

Yudhisthira respondeu: "Bem, quem vai jogar comigo"?

Duryodhana disse: "A minha responsabilidade é achar o suporte na forma de riqueza e jóias para jogar o jogo. Meu tio Shakuni é quem vai jogar os dados na prática em meu lugar".

Yudhisthira se sentia seguro em derrotar Duryodhana nos dados mas Shakuni era outra história, pois Shakuni era um esperto famoso. Assim ele hesitou e disse: "Acho que não é costume alguém jogar no lugar de outro no jogo".

Shakuni retrucou com sarcasmo: "Entendo, você quer dar outra desculpa".

Yudhisthira enrubesceu, jogou a precaução para o alto, e respondeu: "Está bem, eu jogarei".

O salão estava totalmente lotado. Drona, Kripa, Bhisma, Vidura e Dhritarastra estavam lá sentados. Eles sabiam que o jogo acabaria mal e se sentaram tristes para testemunharem o que não puderam prevenir.

Imagem

Os príncipes presentes assistiam o jogo com grande interesse e entusiasmo. Primeiro, eles apostaram jóias e depois ouro, prata e depois quadrigas e cavalos. Yudhisthira perdia continuamente.

Quando perdeu tudo isso, Yudhisthira apostou seus servos e os perdeu também. Empenhou seus elefantes e exércitos e também perdeu. Os dados jogados por Shakuni pareciam obedecer sua vontade em cada jogada.

Vacas, ovelhas, cidades, vilas e cidadãos e todas as outras propriedades, Yudhisthira perdeu. Ainda assim, entorpecido com o infortúnio, ele não parava.

Ele perdeu todos ornamentos pessoais de seus irmãos e dele mesmo bem como as roupas que usavam. A má sorte ainda o perseguia, ou melhor, a esperteza de Shakuni era demais para ele.

Shakuni perguntou: "Há algo mais que você possa oferecer como aposta"?

Yudhisthira disse: "Aqui está o belo Nakula lindo como o céu. Ele é uma das minhas riquezas. Eu o ponho como uma aposta".

Shakuni respondeu: "É mesmo? Ficaremos felizes em ganhar seu bem amado príncipe". Com essas palavras, Shakuni jogou os dados e o resultado foi o que ele previu.

A assembléia tremeu.

Yudhisthira disse: "Aqui está meu irmão Sahadeva. Ele é famoso por seu conhecimento infinito em todas as artes. É errado apostá-lo, mas mesmo assim eu aposto. Vamos jogar".

Shakuni jogou os dados com essas palavras: "Aqui, eu joguei e eu ganhei". Yudhisthira também perdeu Sahadeva.

O diabólico Shakuni temia que Yudhisthira parasse aí. Então provocou Yudhisthira com essas palavras: "Bhima e Arjuna, como são seus irmãos puros, sem dúvida são mais queridos por você do que os filhos de Madri. Você não vai oferecê-los, eu sei".

Yudhisthira, agora totalmente inquieto e apressado pela provocação sarcástica de que tinha vendido barato seus irmãos enteados, respondeu: "Imbecil, você quer nos dividir? Como pode você, que vive uma vida de maldade, entender a vida honrada que vivemos"?

Ele continuou: "Eu ofereço como aposta o sempre vitorioso Arjuna que navega com sucesso através de oceanos de batalha. Vamos jogar".

Shakuni respondeu: "Eu jogo os dados" e ele jogou. Yudhisthira perdeu Arjuna também.

A loucura teimosa do infortúnio contínuo levou Yudhisthira adiante e mais fundo. Com lágrimas nos olhos, ele disse: "Ó rei, Bhima, meu irmão, é nosso líder em batalha. Ele desfere terror no coração dos demônios e é igual a Indra; ele nunca pode sofrer qualquer desonra e ele é inigualável em força física no mundo inteiro. Eu o ofereço como aposta" e jogou e perdeu Bhima também.

O malvado Shakuni perguntou: "Há algo mais que você pode oferecer"?

Dharmaputra respondeu: "Sim. Aqui estou eu. Se você ganhar, eu serei seu escravo"?

"Veja. Eu ganhei". Ao dizer isso, Shakuni jogou os dados e ganhou. Depois disso, Shakuni se levantou no meio da assembléia e gritou os nomes dos cinco Pandavas, assim proclamou alto que eles se tornaram seus escravos legítimos.

A assembléia assistia num silêncio atordoante. Shakuni se voltou para Yudhisthira e disse: "Ainda tem uma jóia de sua propriedade que se você apostar pode obter a sua liberdade. Você não quer continuar o jogo e oferecer sua esposa Draupadi como aposta"?

Yudhisthira em desespero disse; "Eu a aposto", e estremeceu sem querer.

Houve uma aflição e agitação audíveis na parte do público onde os mais velhos sentavam. Logo, gritos altos de "Fora! Fora"! surgiram de todos os lados. Os mais emotivos choravam. Outros transpiravam, e achavam que o fim do mundo tinha chegado.

Duryodhana, seus irmãos e Karna gritavam de exaltação. Nesse grupo, somente Yuyutsu balançava a cabeça de vergonha e tristeza com um suspiro desgostoso. Shakuni jogou os dados e gritou novamente: "Eu ganhei".

Imediatamente, Duryodhana voltou-se para Vidura e disse: "Vá e traga Draupadi, a querida esposa dos Pandavas. De agora em diante, ela tem que varrer e limpar nossa casa. Que ela venha sem demora".

Vidura exclamou: "Você está tão louco que corre para sua própria destruição? Você está pendurado por uma linha fina num abismo sem fim! Inebriado com o sucesso, você não enxerga isso, mas vai tragá-lo"!

Depois de repreender Duryodhana dessa forma, Vidura virou-se para a assembléia e disse: "Yudhisthira não tem direito de apostar Panchali pois até então ele já perdeu sua própria liberdade e todos seus direitos. Eu vejo que a ruína dos Kauravas é iminente, e que, apesar do conselho de seus amigos e bem querentes, os filhos de Dhritarastra estão no caminho do inferno".

Duryodhana ficou furioso com essas palavras de Vidura e disse a Prathikami, seu cocheiro: "Vidura nos inveja e tem medo dos Pandavas. Mas você é diferente. Vá e traga Draupadi imediatamente".


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Re: O Mahabharata

Mensagempor Xevious » 23 Dez 2009, 09:35

ta emocionante essa passagem
mas to torcendo pro Yudhisthira, mas acho que ele não vai ganhar, vai só se ferrar
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